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quinta-feira, 10 de julho de 2025

O Evangelho de Judas / J.M.J.

Não me viste ajoelhar,

nem erguer templos,

nem repetir as palavras como feitiço antigo.

Viste-me escutar,

no fundo do ruído,

Lá onde a verdade não grita,

arde.

 

Chamaram-me traidor,

mas fui o espelho do gesto que liberta,

fui o que amou tanto,

que aceitou ser odiado para que a luz passasse.

 

Ele riu-se.

Sim, riu-se,

quando os outros pediam sinais e leis.

"Não há trono para mim", disse.

"E o vosso deus de pedra não é meu Pai."

 

Ele era chama

e eu,

o vento que lhe levou o corpo.

Não o matei,

abri-lhe a porta.

 

O Reino?

Não está acima,

está dentro

e só quem ousa atravessar o abismo

de si mesmo

o encontra.

 

Fé não salva,

obediência não purifica,

mas a consciência,

o saber silencioso que cresce no íntimo,

como semente que recusa o adubo do medo,

essa sim,

desfaz o véu.

 

Não me veneres,

não me condenes,

somente escuta.

 

Na noite sem luar,

quando sentires o mundo inteiro a desabar,

e todos os deuses calados,

pode ser que me recordes.

 

E nesse instante,

serás livre,

não porque obedeceste,

mas porque viste.

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