Não me viste ajoelhar,
nem erguer templos,
nem repetir as palavras como feitiço antigo.
Viste-me escutar,
no fundo do ruído,
Lá onde a verdade não grita,
arde.
Chamaram-me traidor,
mas fui o espelho do gesto que liberta,
fui o que amou tanto,
que aceitou ser odiado para que a luz passasse.
Ele riu-se.
Sim, riu-se,
quando os outros pediam sinais e leis.
"Não há trono para mim", disse.
"E o vosso deus de pedra não é meu Pai."
Ele era chama
e eu,
o vento que lhe levou o corpo.
Não o matei,
abri-lhe a porta.
O Reino?
Não está acima,
está dentro
e só quem ousa atravessar o abismo
de si mesmo
o encontra.
Fé não salva,
obediência não purifica,
mas a consciência,
o saber silencioso que cresce no íntimo,
como semente que recusa o adubo do medo,
essa sim,
desfaz o véu.
Não me veneres,
não me condenes,
somente escuta.
Na noite sem luar,
quando sentires o mundo inteiro a desabar,
e todos os deuses calados,
pode ser que me recordes.
E nesse instante,
serás livre,
não porque obedeceste,
mas porque viste.
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