A dor chega sem nome,
é impulso, é faísca,
um código antigo
no fio do nervo.
Não pensa,
não espera,
não explica,
queima.
O sofrimento, esse,
tem casa e janela,
mora na memória
como um animal domesticado
que nos olha nos olhos
e pergunta:
— Será hoje?
Não é a dor que fere mais,
mas o medo do regresso dela;
a história mal cicatrizada.
O que vimos acontecer a outro
e jurámos que não suportaríamos.
Há corpos que doem
sem sofrer
e almas que sofrem
sem dor nenhuma.
Aprendemos o medo
como se aprende uma língua:
por repetição,
por contágio,
por amor.
Tememos não só por nós,
mas pelo outro
e pelo que o mundo pode fazer
ao que amamos.
No fundo,
o sofrimento é um pacto:
entre o sistema nervoso
e a memória,
entre a ferida real
e a ideia do que poderá voltar.
Mas há quem, um dia,
desfaça o pacto.
E, então,
dói, mas não escraviza,
arde, mas não domina,
e a vida, ainda que breve,
é respirada
sem medo da próxima página.
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