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quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Guardiões

Não reformam o mundo,

não levantam bandeiras,

nem gritam ordens.

 

Mas caminham entre o caos,

sem buscar céu

nem aplausos,

e seguram, no silêncio,

o fio frágil do que ainda

se respira.

 

Não mudam impérios,

nem curam todas as feridas,

mas fazem do cuidado

uma fortaleza invisível,

onde o mundo

ainda consegue existir

sem se desfazer

por completo.

 

E quando partem,

deixam atrás

um espaço respirável

que antes não existia.

 

Entre Sistemas

O mundo não está a sonhar,

está a funcionar;

apertam-se parafusos,

revêem-se regras,

e chamam estabilidade

ao cansaço prolongado.

 

Tudo gira,

mas ninguém pergunta

para onde.

 

O trabalho ocupa o dia,

a gestão ocupa o corpo,

e a vida aprende a caber

no que resta.

 

Fala-se de ordem

quando falta cuidado,

de eficiência

quando falta sentido.

 

As vidas

sentem frio,

mesmo rodeadas

de gente,

e há um “nós” esquecido

em algum relatório.

 

Mudam-se métodos,

mas não se muda a lógica;

adapta-se o passo

porque parar parece perigo.

 

Enquanto o medo

negocia em silêncio,

aceita-se menos céu

para que o chão não caia. 

 

Não é o fim,

mas um intervalo tenso

em que o mundo decide

se aguenta

ou se transforma.

 

E ninguém sabe ainda

se será escolha

ou apenas necessidade.

 

 

(Poema nascido do clima coletivo marcado pela Lua Nova de 18 de janeiro, num tempo de reorganização, pressão e escolha.)

 

 

 

 

 

Colapso II

Não é grandeza o que se vê,

é birra com bandeira,

poder a brincar com fósforos

num mundo saturado

de gasolina.

 

Querer ser dono do mapa,

riscar fronteiras com o dedo,

como se vidas fossem peças

num jogo,

em que só um joga.

 

Não se pensa no depois,

nem nos restos,

nem em quem junta 

os escombros.

 

Chama-se força ao excesso,

estratégia ao impulso,

liderança ao ego

que nunca aprendeu limite.

 

Mas o mundo não é brinquedo,

nem palco privado

para fantasias imperiais

de uma infância

sem remendo.

 

E enquanto um homem

confunde vontade com destino,

o planeta prende a respiração,

sabendo que basta um capricho

para tudo ruir.

 

O verdadeiro perigo

não é a maldade consciente,

mas a irresponsabilidade

com poder absoluto

nas mãos.

 

Porque impérios

não caem só por ódio;

caem quando são guiados

por quem nunca soube

o que é cuidar.

 

 

Extração

O poder

já não ocupa palácios;

corre por fios,

entra em tudo,

habita sistemas.

 

Não precisa mandar;

mede, prevê, corrige.

 

Cada ação vira dado,

cada dado, recurso,

cada recurso, lucro.

 

Chamam-lhe eficiência,

mas é vigilância

com boas maneiras.

 

Não nos tomam a força;

tomam nosso rastro.

 

E quando percebemos,

a vida já foi consumida

antes de ser vivida.

 

 

Desvestir

Deram-me nome

antes de ter voz,

bandeira

antes de ter chão,

crença

antes de ter perguntas.

 

Passei anos

a defender o que me vestiram,

como se fosse pele.

 

Depois comecei a tirar camadas;

uma a uma.

Algumas sangraram.

 

Fiquei mais só,

é verdade,

mas já não falo

com palavras emprestadas.

 

Hoje, caminho leve,

sem uniforme,

sabendo que a liberdade

não faz multidão,

faz espaço.

 

 

 

Escolha

Posso escolher,

ou fingir que não,

mas o silêncio decide,

a inércia assina,

e a ausência também age.

 

Não escolher

é deixar que o mundo

escolha por mim.

 

E isso

ainda assim,

é uma escolha.

 

(Poema inspirado na filosofia existencial de Jean-Paul Sartre, refletindo sobre a responsabilidade e a inevitabilidade da escolha na vida humana.)

 

Insegurança

A arrogância grita,

onde a identidade treme.

 

A agressividade

não nasce da força,

mas do receio

do que se finge ser.

 

Quem se sabe inteiro

não precisa humilhar;

presença não disputa,

habita.

 

O desprezo é defesa:

uma armadura estridente

para um eu

que ainda não aprendeu

a sustentar-se.

 

 

 

 

Direção

Se não há choque,

é porque há acordo.

 

O mal raramente impede;

acompanha, facilita,

e aplaude em silêncio.

 

O conflito surge

quando mudas o passo,

e recusas o atalho

que todos aceitam.

 

Às vezes,

o sinal de que estás vivo

não é a paz,

mas a resistência

do que preferia

que continuasses igual.

 

 

Combustão

O excesso queima por dentro;

silêncio, tensão, pressa,

até que algo cede.

 

Cuidado:

não é fogo que se vê,

é fogo que te sente.

 

 

Colapso I

Quando o poder deixa de confiar,

legisla em excesso.

 

A lei já não serve a vida,

serve o medo.

 

O império endurece

porque já não sabe

sustentar-se.

 

E quanto mais insanas as regras,

mais evidente se torna:

não é ordem que se impõe,

é o fim que se revela. 

 

Processo

Nada é fixo

onde pensávamos peso.

 

O sólido é acordo,

a forma é pausa,

a matéria,

um hábito do olhar.

 

Somos padrões que passam,

ritmos provisórios

no meio do vazio fértil.

 

Existir não é ocupar espaço,

mas persistir por instantes

numa dança que nunca pára.

 

E talvez a realidade

não seja aquilo que segura,

mas aquilo que acontece

enquanto tudo vibra.

 

 

Indeterminação

Funciona,

mas escapa.

 

O mundo responde com exatidão,

sem revelar o motivo.

 

Antes do olhar,

há possibilidade;

depois, história.

 

A matéria não se explica,

apenas acontece

quando alguém ousa ver.

 

E talvez compreender

não seja fechar o mistério,

mas aprender a viver

com ele aberto.

 

 

 

 

Vestígios

Não é apenas o eu

quem respira aqui.

 

Há presenças antigas

a sustentar o movimento,

células que ficaram

quando tudo devia ter partido.

 

O corpo lembra

o que a vida não contou,

e damos nome

a esse equilíbrio instável

entre o que nasceu

e o que permaneceu.

 

Existir

é partilhar a carne

com quem já passou.

 

 

Resistência

Não faltou inteligência,

faltou permissão.

 

Ler sempre foi risco:

quem lê pensa,

quem pensa desorganiza.

 

Antes queimavam livros,

agora queimam atenção;

não é censura,

é saturação.

 

Ler até ao fim

continua um gesto indesejado,

e por isso mesmo,

necessário.