Nada cai de uma vez;
tudo escorre.
As formas desfazem-se sem ruído,
sem anúncio,
como se nunca tivessem sido necessárias.
Chamam liberdade à ausência de amarras,
mas esquecem de dizer
que sem peso não há permanência.
As vidas tornam-se portáteis,
os afetos reversíveis
e as promessas adaptáveis
ao próximo contexto.
Tudo deve mover-se,
porque parar exige sustentar.
Não se destrói o vínculo:
deixa-se evaporar,
nem se nega o sentido:
adiam-se as perguntas.
E o vazio,
quando não dói,
passa a ser normal.
Os que sentem primeiro
são sempre poucos,
não porque saibam mais,
mas porque ainda não aprenderam
a flutuar.
Cansam-se cedo,
questionam demais,
e procuram chão
onde só lhes oferecem superfície.
Mas é neles
que a densidade resiste,
como um resto incómodo
que não se dissolve.
Talvez não sejam o futuro,
mas são o limite:
a prova de que nem tudo
aceita tornar-se líquido
sem perder a alma.
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