Não é a força que nos toma,
é a atenção.
Enquanto tocamos no ecrã,
algo toca em nós sem pedir licença.
Cada pausa,
desvio do olhar,
movimento automático
acaba recolhido
como quem varre migalhas de uma mesa alheia.
Não para nos servir,
mas para nos prever.
Chamaram-lhe melhoria,
personalização,
conveniência,
mas é a vida a tornar-se rasto,
a experiência a virar excedente.
Aquilo que não precisam para funcionar
é o que mais lhes interessa:
o resto,
o íntimo,
o ainda não pensado.
A liberdade torna-se ruído,
a dúvida, erro,
e o imprevisível, uma falha a corrigir.
Não nos vigiam como inimigos,
vigiam-nos como recursos,
não querem saber quem somos,
mas o que faremos a seguir.
E assim, sem grades visíveis,
aprendemos a desejar o que nos foi sugerido,
a escolher entre opções já escolhidas.
O perigo não é sermos observados,
é sermos lentamente ajustados
até deixarmos de estranhar o ajuste.
Talvez resistir seja isto:
guardar zonas não traduzidas,
silêncios não rentáveis,
ações que não levam a clique nenhum.
Porque enquanto houver em nós algo
que não pode ser previsto, nem vendido,
ainda não somos excedente,
somos presença.
Sem comentários:
Enviar um comentário
Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.