Auschwitz não foi um erro,
foi método.
Não nasceu do ódio súbito,
mas da ideia fria
de que algumas vidas
podem ser calculadas,
numeradas,
reduzidas a custo.
Ali, a morte perdeu o espanto;
chegava em filas,
obediente,
assinada por carimbos
e horários.
Não foi apenas o fumo
que subiu ao céu;
subiu a prova
de que a razão,
quando separada da ética,
se torna arma.
Homens comuns
aprenderam a desligar o olhar,
não porque fossem monstros,
mas porque aceitaram
que obedecer
era mais seguro
do que pensar.
Auschwitz ensinou
que a barbárie
não começa no campo;
começa na linguagem.
Quando alguém deixa de ser pessoa
e passa a ser problema,
não morre só
de fome, frio ou gás;
morre também da certeza
de que o mundo continua
enquanto desaparece.
Depois de Auschwitz,
não podemos falar de inocência;
a humanidade perdeu esse direito.
Ficou-nos a responsabilidade
de reconhecer os sinais,
de desconfiar de verdades absolutas,
de não chamar “necessário”
ao que desumaniza.
Auschwitz não pede lágrimas,
pede memória ativa;
porque não pergunta
o que fizemos então,
mas o que fazemos agora,
quando a dignidade
volta a ser negociável.
Enquanto houver quem seja tratado
como descartável,
Auschwitz não acabou.
Apenas mudou de forma.
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