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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Depois de Auschwitz

Auschwitz não foi um erro,

foi método.

 

Não nasceu do ódio súbito,

mas da ideia fria

de que algumas vidas

podem ser calculadas,

numeradas,

reduzidas a custo.

 

Ali, a morte perdeu o espanto;

chegava em filas,

obediente,

assinada por carimbos

e horários.

 

Não foi apenas o fumo

que subiu ao céu;

subiu a prova

de que a razão,

quando separada da ética,

se torna arma.

 

Homens comuns

aprenderam a desligar o olhar,

não porque fossem monstros,

mas porque aceitaram

que obedecer

era mais seguro

do que pensar.

 

Auschwitz ensinou

que a barbárie

não começa no campo;

começa na linguagem.

 

Quando alguém deixa de ser pessoa

e passa a ser problema,

não morre só

de fome, frio ou gás;

morre também da certeza

de que o mundo continua

enquanto desaparece.

 

Depois de Auschwitz,

não podemos falar de inocência;

a humanidade perdeu esse direito.

 

Ficou-nos a responsabilidade

de reconhecer os sinais,

de desconfiar de verdades absolutas,

de não chamar “necessário”

ao que desumaniza.

 

Auschwitz não pede lágrimas,

pede memória ativa;

porque não pergunta

o que fizemos então,

mas o que fazemos agora,

quando a dignidade

volta a ser negociável.

 

Enquanto houver quem seja tratado

como descartável,

Auschwitz não acabou.

 

Apenas mudou de forma.

 

 

 

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