Não é o fim que pesa,
mas a continuidade sem direção.
O mundo não ameaça, acostuma-se.
Aprende a conviver com a guerra
como quem aceita o ruído de fundo
de uma máquina antiga.
Nada cai de repente;
endurece.
As palavras gastam-se,
as imagens repetem-se,
e o espanto deixa de servir como alerta.
Não há sinais no céu,
nem datas exatas;
apenas decisões adiadas,
poder concentrado,
e vidas empurradas
para a margem do aceitável.
O perigo não vem do escuro,
vem da normalização;
do dia em que olhar já não dói,
e ouvir já não exige resposta.
Ainda assim,
há quem permaneça atento,
não por esperança,
mas por recusa.
Recusa de chamar destino
ao que é escolha acumulada
e de confundir silêncio com paz.
Não para salvar o mundo,
mas para não desaparecer dentro dele.
E isso, sem profecia alguma,
já é resistência.
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