Não foi a crença que feriu,
foi o medo disfarçado de cuidado.
Aprendeu-se cedo
que amar era vigiar,
errar tinha peso eterno,
pensar podia ser falta grave.
A fé entrou antes da escolha,
gravou-se no corpo
como reflexo,
não como pergunta.
Mais tarde veio a lucidez:
as histórias tinham autor,
as verdades tinham época,
os deuses falavam com vozes humanas.
Mas o medo ficou;
não se acredita,
mas reage-se,
não se obedece,
mas treme-se.
Libertar-se não é negar:
deixar os mitos no lugar dos mitos
e a vida no lugar da vida.
Silêncio sem ameaça,
consciência sem vigilância,
responsabilidade sem castigo.
E quando a antiga voz regressa,
já não governa:
é apenas memória
a pedir descanso.
Seguir com o medo ao lado,
sem lhe chamar verdade.
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