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sábado, 17 de janeiro de 2026

Depois da Fé

Não foi a crença que feriu,

foi o medo disfarçado de cuidado.

 

Aprendeu-se cedo

que amar era vigiar,

errar tinha peso eterno,

pensar podia ser falta grave.

 

A fé entrou antes da escolha,

gravou-se no corpo

como reflexo,

não como pergunta.

 

Mais tarde veio a lucidez:

as histórias tinham autor,

as verdades tinham época,

os deuses falavam com vozes humanas.

 

Mas o medo ficou;

não se acredita,

mas reage-se,

não se obedece,

mas treme-se.

 

Libertar-se não é negar:

deixar os mitos no lugar dos mitos

e a vida no lugar da vida.

 

Silêncio sem ameaça,

consciência sem vigilância,

responsabilidade sem castigo.

 

E quando a antiga voz regressa,

já não governa:

é apenas memória

a pedir descanso.

 

Seguir com o medo ao lado,

sem lhe chamar verdade.

 

 

 

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