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sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Deriva

O poder não começa no golpe,

mas no acordo silencioso

que já não se discute.

 

Não grita,

circula.

 

Passa de mão em mão

quando a relação falha,

e ninguém responde

e todos obedecem.

 

A violência entra depois,

quando o vínculo já não sustém,

quando a palavra perdeu peso

e resta apenas fazer cumprir.

 

Não é força:

é falência do comum.

 

O poder verdadeiro

não precisa ferir;

vive enquanto há espaço

entre quem fala

e quem escuta.

 

Quando esse espaço fecha,

o poder endurece,

torna-se máquina,

regra sem rosto,

procedimento repetido

por quem já não escolhe.

 

Então não se governa:

administra-se o vazio.

 

E chama-se ordem

à ausência de relação.

 

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