Rir foi útil,
quando a verdade vinha armada
e o poder falava sério demais.
Mas o riso ficou,
mesmo quando já não havia tirania,
apenas o vazio de escolher.
Hoje, ri-se antes de tocar,
antes de dizer “isto importa”,
antes de ficar,
e o mundo passa inteiro
sem deixar marca.
A ironia tornou-se um casaco leve
para atravessar incêndios
sem cheirar a fumo.
Nada cola em quem desdenha:
nem culpa,
amor,
promessa.
Mas também nada cresce.
Porque sustentar uma ideia
exige habitar o erro possível,
defendê-la
mesmo a tremer,
aceitando o custo de não poder fugir
pela porta da piada.
Há quem confunda lucidez
com o nunca se comprometer,
como se ver as falhas
dispensasse a tarefa de construir.
Mas o mundo não se mantém
em suspensão inteligente;
precisa de mãos que escolham,
mesmo sujas,
mesmo falíveis.
Talvez a maturidade comece
quando o riso já não basta
e alguém diga, em voz baixa,
sem escudo:
— isto é o que sustento,
mesmo podendo estar errado.
E fica.
Sem comentários:
Enviar um comentário
Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.