Antes de haver datas,
havia frio.
Antes de haver deuses,
havia medo
de que o sol não voltasse.
O ano encolhia,
os campos dormiam,
os corpos contavam provisões,
e a noite parecia
demasiado longa
para ser apenas noite.
Então o homem olhou o horizonte
não para rezar,
mas para confirmar
se a luz ainda respirava.
Quando percebeu
que o sol parara de cair,
inventou a festa
como quem acende um fogo
para enganar a morte.
Chamou-lhe Saturno,
idade dourada,
tempo suspenso,
onde o escravo sentava-se à mesa
e o poder fingia esquecer-se de si.
Por alguns dias,
o mundo desapertava os dentes,
ria-se,
comia-se.
Trocavam-se pequenos objetos
como promessas
de que ninguém atravessaria o inverno sozinho.
Depois veio o Sol invencível,
não o astro,
mas a ideia;
um centro único,
visível a todos,
acima das línguas,
das fronteiras,
dos deuses locais.
O império precisava de luz
para justificar a ordem:
o sol tornou-se lei,
o dia tornou-se vitória,
e o poder vestiu-se de claridade.
Mas mesmo ali,
por baixo da política e dos altares,
persistia o gesto antigo:
marcar o momento
em que a noite deixa de crescer;
celebrar não a vitória,
mas o intervalo,
não o triunfo,
mas o regresso possível.
A festa não dizia
“somos eternos”;
dizia apenas
“ainda estamos aqui”.
O 25 não era um número,
mas um suspiro coletivo,
um acordo silencioso
entre o céu
e quem treme na terra.
A luz não prometia justiça.
Prometia continuação.
E isso,
para quem vive à beira do inverno,
sempre foi sagrado.
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