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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Quando a Noite Quase Vence

Antes de haver datas,

havia frio.

 

Antes de haver deuses,

havia medo

de que o sol não voltasse.

 

O ano encolhia,

os campos dormiam,

os corpos contavam provisões,

e a noite parecia

demasiado longa

para ser apenas noite.

 

Então o homem olhou o horizonte

não para rezar,

mas para confirmar

se a luz ainda respirava.

 

Quando percebeu

que o sol parara de cair,

inventou a festa

como quem acende um fogo

para enganar a morte.

 

Chamou-lhe Saturno,

idade dourada,

tempo suspenso,

onde o escravo sentava-se à mesa

e o poder fingia esquecer-se de si.

 

Por alguns dias,

o mundo desapertava os dentes,

ria-se,

comia-se.

Trocavam-se pequenos objetos

como promessas

de que ninguém atravessaria o inverno sozinho.

 

Depois veio o Sol invencível,

não o astro,

mas a ideia;

um centro único,

visível a todos,

acima das línguas,

das fronteiras,

dos deuses locais.

 

O império precisava de luz

para justificar a ordem:

o sol tornou-se lei,

o dia tornou-se vitória,

e o poder vestiu-se de claridade.

 

Mas mesmo ali,

por baixo da política e dos altares,

persistia o gesto antigo:

marcar o momento

em que a noite deixa de crescer;

celebrar não a vitória,

mas o intervalo,

não o triunfo,

mas o regresso possível.

 

A festa não dizia

“somos eternos”;

dizia apenas

“ainda estamos aqui”.

 

O 25 não era um número,

mas um suspiro coletivo,

um acordo silencioso

entre o céu

e quem treme na terra.

 

A luz não prometia justiça.

Prometia continuação.

E isso,

para quem vive à beira do inverno,

sempre foi sagrado.

 

 

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