A escolha não começa quando pensamos,
começa antes,
num lugar onde o corpo reage
e a memória decide sem pedir licença.
A consciência chega depois,
como quem assina um papel já preenchido,
e chama liberdade ao que conseguiu justificar.
Não somos livres do impulso,
nem da ferida antiga,
nem do medo que aprende atalhos;
somos livres apenas no intervalo estreito
entre reagir e assumir.
A liberdade não é fazer o que surge,
mas sim sustentar o que se vê quando surge.
Ficar.
Aguentar o desconforto de não obedecer
ao primeiro movimento.
Pensar custa tempo, energia, solidão.
Pensar atrasa.
E quem atrasa num mundo veloz
parece fraco, indeciso, suspeito.
Por isso tantos preferem a certeza pronta,
o gesto automático,
a ideia herdada.
É mais leve não escolher
e chamar destino ao hábito.
Mas a liberdade, quando existe, cobra caro:
atenção contínua, responsabilidade sem desculpa,
e a coragem de responder
pelo que já vinha decidido em nós.
Não é um dom,
é um trabalho silencioso
feito contra a corrente do próprio corpo.
E talvez seja por isso que tão poucos a exercem;
não por falta de vontade,
mas porque exige estar acordado
quando tudo em nós pede descanso.
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