Quando muitos respiram
o mesmo medo,
o pensamento abranda.
A voz interior cala-se
para não destoar do ruído,
e a ação deixa de perguntar
se é justa
ou apenas partilhada.
Assim nascem febres invisíveis:
não atacam o corpo,
mas a consciência.
O indivíduo dilui-se,
aliviado por não ter de escolher
nem carregar o peso
de olhar para dentro
quando fora tudo pressiona.
Já não se pensa, reage-se;
já não se sente, replica-se,
e cada um funciona
como parte útil de algo maior
que ninguém, isoladamente,
ousaria sustentar.
E no entanto,
é na solidão lúcida
que a cura começa:
um olhar que resiste,
uma pausa no impulso,
um “não sei” guardado
contra a corrente.
Porque toda a cegueira
se alimenta do mesmo abandono:
o medo de ficar a sós
com a própria sombra.
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