Não vemos o mundo,
somente faces;
um ângulo,
um reflexo,
um recorte iluminado
enquanto o resto permanece em sombra.
Chamamos verdade
ao que aparece primeiro,
como se o real tivesse pressa
de se revelar inteiro.
Mas tudo o que surge à consciência
vem incompleto:
a casa mostra a fachada,
o corpo oferece um gesto,
a palavra chega sem o silêncio
que a sustenta.
Mesmo assim, julgamos,
fechamos o sentido;
declaramos fim
onde só havia começo.
O erro não está em ver pouco,
isso é humano,
mas em esquecer
que o invisível também existe.
Um rosto não é uma história,
um grito não é um povo,
um relato não é uma vida,
nem um instante é destino.
Quando confundimos perfil
com totalidade;
a parte vira sentença,
o outro vira rótulo,
e a consciência abdica da escuta.
O mundo não se oferece inteiro
porque não foi feito para ser possuído,
mas atravessado.
Ver é aceitar a falta,
pensar é sustentar o intervalo,
ser ético é lembrar
que o que não vejo
continua a existir.
Talvez maturidade seja isso:
olhar sabendo
que o suficiente
é sempre parcial.
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