Há um rosto que não escolhe
entre o que foi e o que vem.
Mantém ambos abertos,
não por indecisão,
mas por vigilância.
Habita o ponto exato onde um passo termina
e outro que ainda não começou.
Não empurra,
não chama,
apenas sustém a porta.
Sabe que todo o começo carrega restos,
e que nenhum fim fecha completamente.
Por isso guarda as passagens:
não para impedir a travessia,
mas para lembrar que atravessar
exige permanência.
Quem o atravessa
não recebe promessas,
mas consciência:
olhar para trás sem ficar,
e em frente sem fugir.
O tempo, ali, não corre,
respira.
E só passa inteiro
quem aceita levar consigo
o que foi sem deixar de caminhar
para o que ainda não tem forma.
(Poema inspirado em Jano, deus romano dos limiares e
dos inícios. Representado com duas faces, contempla simultaneamente o que
termina e o que começa. A ele era consagrado o primeiro dia do ano.)
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