No início
a morte pesa.
Os corpos interrompem o discurso,
as imagens ferem,
há nomes
que não atravessam a garganta.
Depois, o hábito
reorganiza a visão;
o horror deixa de ser horror
para passar a contexto.
As ruínas tornam-se cenário,
as crianças, número.
O sangue aprende
a circular na linguagem;
há um momento
em que a violência já não precisa
de justificar-se.
Basta repetir
que o perigo permanece.
Então o mundo divide-se
entre vidas protegidas
e vidas atravessáveis.
E talvez seja aí
que a consciência falha mais:
não quando o ódio começa,
mas quando o sofrimento do outro
deixa de interromper
o funcionamento do dia.
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