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terça-feira, 26 de maio de 2026

Estado de Exceção

No início

a morte pesa.

 

Os corpos interrompem o discurso,

as imagens ferem,

há nomes

que não atravessam a garganta.

 

Depois, o hábito

reorganiza a visão;

o horror deixa de ser horror

para passar a contexto.

 

As ruínas tornam-se cenário,

as crianças, número.

 

O sangue aprende

a circular na linguagem;

há um momento

em que a violência já não precisa

de justificar-se.

 

Basta repetir

que o perigo permanece.

 

Então o mundo divide-se

entre vidas protegidas

e vidas atravessáveis.

 

E talvez seja aí

que a consciência falha mais:

 

não quando o ódio começa,

mas quando o sofrimento do outro

deixa de interromper

o funcionamento do dia.

 

 

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