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segunda-feira, 15 de junho de 2026

Definição

Juntei os nomes,

os lugares,

as datas,

os rostos.

 

O que fiz,

o que deixei,

as escolhas

que ainda reconheço.

 

Tudo parecia suficiente.

 

Mas havia sempre algo

noutro lugar.

 

O que era certo

já não era;

o que parecia meu

seguia adiante.

 

Voltei a contar;

faltava.

 

Voltei a procurar;

mudava.

 

E houve um momento

em que percebi:

não era a medida que estava errada,

 

era o objecto.

 

 

 

 

Circuito

Repete-se,

não por escolha;

aprende-se

o que faz continuar.

 

Um momento:

decisão.

Outro:

insistência.

 

Há o que se acende

sem pergunta.

 

O que procura alívio

encontra via;

o que procura via

perde a origem.

 

Não só dor,

também vazio

excesso

velocidade.

 

Um mecanismo pequeno

a funcionar

sem testemunho.

 

O corpo responde

antes da pergunta,

 

e o que parecia procura

já não distingue

o que se move.

 

 

 

Medida

O poder cresce.

 

Primeiro ocupa um lugar,

depois os restantes.

 

Nada muda de uma vez;

a distância entra devagar

nas contas.

 

O nome continua o mesmo,

os discursos também;

só a medida já não se ajusta.

 

O que era limite passa

a obstáculo;

o que era aviso,

detalhe.

 

E chega um momento

em que a força

já não pergunta:

avança.

 

Não porque ignore

o que encontra,

mas porque deixou

de o considerar.

 

 

Direção

Durante muito tempo dei nomes

ao que procurava;

pareciam meus.

 

Depois vi quantos já estavam

à minha espera.

 

Segui alguns;

cheguei.

 

Nada era falso.

Nada coincidia.

 

O que encontrei tinha peso,

tempo, limite.

Não cabia na imagem.

 

Desde então, desconfio

do que promete.

 

Não deixei de desejar,

só já não peço ao desejo

que saiba.

 

Certas coisas só se revelam

quando outras caem.

 

E às vezes o que permanece

nunca foi sonhado.

 

 

 

Entre nós

O amor não começa inteiro;

constrói-se no que se troca

sem medida.

 

Não pede espelho

procura resposta.

 

A tua presença

não me devolve igual,

mas devolve.

 

Sinto-o no efeito que deixo,

e isso basta.

 

Não é simetria,

é direção.

 

O que dou mexe em ti;

de ti

mexe em mim.

 

E nesse movimento

o amor aprende

a ficar.

 

 

 

Silêncio

A injustiça não precisa

de muitas mãos.

 

Por vezes,

basta espaço.

 

Uma voz cala-se,

outra desvia o olhar.

 

O dia continua.

 

Nada muda de lugar.

 

E no entanto,

algo consentiu;

não por ódio,

não por vontade,

mas por ausência.

 

Há silêncios

que não pertencem à paz.

 

Pertencem

ao que deixam passar.

 

 

 

Estado de Ligação

Entrada

 

Começa num clique

e fica.

 

 

 

Presença

 

O nome não aparece

mas insiste.

 

 

 

Rastro

 

Fica algo

depois do gesto.

 

 

 

Desfasamento

 

A mensagem chega

fora de hora.

 

 

 

Saída

 

Sai-se

sem sair.

 

 

 

Persistência

 

Continua.

 

 

 

Eco

 

O nome volta

sem regresso.

 

 

Interrupção

 

Não há fim

só pausa.

 

 

Zona de Não Coincidência

Registo

 

Um papel

fica sobre a mesa

sem destino.

 

O nome está inscrito,

a data também.

 

Nada o levanta.

 

O dia continua

noutro lugar

que não a folha.

 

Mais tarde,

alguém fixa o olhar

e passa.

 

Fica por fazer

o que está escrito.

 

O papel mantém-se

onde foi deixado.

 

 

 

Sala de espera

 

Alguém chama um nome

que não levanta ninguém.

 

As cadeiras guardam

a mesma distância.

 

Um número acende

e apaga.

 

Quem estava antes

já não é o mesmo.

 

O papel muda de mãos

sem mudar de sentido.

 

A vez

fica suspensa.

 

 

 

Telefone

 

O aparelho vibra

sobre a mesa.

 

Ninguém atende

de imediato.

 

O nome acende

e cai.

 

A mão fica perto,

sem tocar.

 

O som continua

já fora da sala.

 

Mais tarde,

já não chama.

 

Fica o gesto

sem resposta.

 

 

 

Reaparecimento

 

Um nome volta

sem aviso.

 

Não está mais perto

nem mais claro.

 

Aparece

como se lá estivesse

antes.

 

Os registos

não cedem.

 

Ninguém confirma

o regresso.

 

Mas algo

reinscreve o lugar.

 

 

 

Dossiê

 

As pastas alinham-se

como se esperassem.

 

Cada etiqueta

repete um nome

sem voz.

 

Há um silêncio

datado.

 

Alguém abre a gaveta,

hesita,

fecha.

 

Nada se perde,

tudo deriva.

 

O que foi guardado

permanece

por acontecer.

 

 

 

Erro

 

Uma linha muda

sem aviso.

 

O nome mantém-se certo

em todos os lados.

 

Mas há um desvio

que não se vê.

 

Alguém revê,

não encontra falha.

 

O sistema confirma.

 

Ainda assim,

fica uma hesitação

no lugar do acordo.

Neutralidade

Nem todos

levantam a voz.

 

Não por não ver,

mas porque o conforto

é uma casa

de paredes grossas.

 

Lá fora,

uma porta fecha,

um corpo cai,

um nome apaga-se

e a mesa

continua posta.

 

Nada se disse,

nada mudou.

 

O silêncio

não manda,

não fere,

não empurra;

apenas deixa.

 

E há dias

em que não escolher

já é tomar parte.

 

O mal nem sempre avança.

 

Às vezes

basta-lhe lugar.

 

 

Aproximação

Sabemos

nunca

por inteiro.

 

Há sempre

mais mundo

do que olhares.

 

O que se vê

nunca chega

só.

 

Chamamos certeza

ao limite

que a consciência

suporta.

 

E ainda assim,

algo persiste

fora de alcance.

 

Não falha:

condição.

 

Talvez saber

comece aí,

 

quando se deixa

de tomar

o horizonte

pelo fim do mundo.

 

 

Aprende-se...

Aprende-se cedo

a querer.

 

O resto

a descobrir o quê.

Fora do lugar

Vidas não chegam

ao lugar onde se imaginam.

 

Um dia acontecem

e já não coincidem.

 

O vivido

fica ligeiramente ao lado.

 

Tudo parece ter

uma nitidez maior

fora daqui.

 

O desejo.