Cada ferramenta
que criamos
acaba
por perguntar
quem
a criou.
O universo
não precisou
de nos explicar
o lugar.
Fomos nós
que passámos
a vida
à procura
dele.
Passei
a vida
a pensar
que havia
um lugar
onde eu
coubesse.
Hoje,
já não sei
se existe.
Ainda
procuro
instantes
em que
o mundo
me pese
menos.
Crescemos.
Mas nem tudo
cresce
connosco.
Às vezes,
fala
o que julgávamos
ter deixado
para trás.
O primeiro
deus
raramente
é escolhido.
É herdado
como a língua,
o nome,
a casa.
Depois,
cada um
decide
se permanece
ou parte.
A razão
não destrói
as crenças.
Apenas
lhes pergunta
se conseguem
caminhar.
Umas
cruzam a dúvida
como quem atravessa
a noite.
Outras
ficam imóveis,
à espera
que o mundo
as confirme.
Quem vê
o mundo
como ele é
caminha
em silêncio.
As coisas
não pedem
resposta.
Estão.
Quem precisa
que o mundo
lhe confirme
o que já trazia
consigo
nomeia
o que passa,
confunde
o reflexo
com a origem.
Depois,
já não distingue
o que veio
do mundo
do que nasceu
em si.
Não é o outro
que nos fere.
É a figura
que erguemos
dentro de nós.
A dor
abre-se
na distância
entre o que são
e o lugar
onde nunca estiveram.
Nada
precede
o que chega
sem palavra.
Primeiro,
é rumor
na casa
do hábito.
Depois,
ninguém sabe
se mudou
o mundo
ou apenas
o olhar.
Um dia,
ninguém percebeu
que eu tinha mudado.
Apenas
deixaram
de me reconhecer.
Eu
continuava aqui.
Mas já não cabia
no lugar
onde me tinham posto.
Não sabemos
o tamanho
da nossa resistência.
Só ela
nos mede
quando o chão
cede.
E então
descobrimos
que havia em nós
mais força
do que voz.
Não procuro
o que sei.
Nem
o que ignoro.
Caminho
até que
alguma coisa
me reconheça.
Primeiro,
vem
a sede.
Querer
dói.
Mas deixar
de querer
não é viver.
Nem todo
o desejo
pede
posse.
Há quem
queira
apenas
compreender.
Não chega
quando o chamamos.
Chega
sem aviso,
sem pedir
lugar.
O resto
são nomes
que lhe damos
para não dizer
que trememos.
Há
um instante
em que o olhar
se cansa
dos desvios.
Depois disso,
o mundo
continua igual.
Quem muda
é o lugar
de onde vê.
Não procuro vencer
o que fui.
Procuro compreender
o que em mim
ainda vive.
O que fui
não ficou atrás.
Move-se
na sombra
do que faço.
Às vezes,
fala
sem voz.
Não procuro
calá-lo.
Escuto
até que
o silêncio
se diga.
Vieram antes.
Não sei quem.
Algo continua a chegar
sem nunca ter partido.
Passa por mim
como se eu fosse
só mais um intervalo.
Não fomos feitos
para o centro.
Somos
uma partícula
entre partículas,
tão antiga
quanto o pó
que ainda
nos atravessa.
Dizes
que me conheces.
Mas nunca
me viste
sem prova.
Ignoro
quem seria
sem sorte.
Há quem exista
no que não viveu.
Talvez
haja em mim
alguém
à espera.
E o carácter
seja isso:
passar
pelo que vem.
Todos celebram
o despertar.
Poucos conhecem
o ofício
da noite.
É nela
que o olhar
se desfaz,
que o nome
falha,
que o silêncio
amadurece.
Nada ali
brilha.
Tudo
aprende.
E quando
a luz chega,
já vem
escrita
no escuro.
O amanhecer
não começa
no dia.
Começa
naquilo
que atravessou
a noite.