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domingo, 26 de julho de 2026

O Barro

O barro

recebe

as primeiras mãos.

 

Nem por isso

fica

condenado

à primeira forma.

 

 

Dentro

A porta

fechou-se.

 

Lá fora,

continuava

o mundo.

 

Cá dentro,

bastava

uma voz.

 

 

O Mesmo Olhar

Não era

o rosto.

 

Era o olhar

que a ideia

lhe dava.

 

Enquanto

o pensamento

não se deslocava,

 

o inimigo

era o mesmo.

As Palavras

O silêncio

guarda

palavras.

 

Nem todas

as palavras

sabem

guardar

silêncio.

A Pedra

A pedra

era a mesma.

 

Uns fizeram dela

um muro.

 

Outros

abriram

uma passagem.

 

 

A Primeira Tempestade

Cresceu

a acreditar

que o vento

soprava sempre

a favor.

 

Bastou

a primeira tempestade.

 

 

Atrito

Dentro de nós

há um animal,

um juiz

e um viajante.

 

Chamamos vida

ao atrito

entre os três.

 

 

O Primeiro Disparo

As guerras

não começam

com o primeiro tiro.

 

Começam

quando uma palavra

deixa

de chamar

alguém

pessoa.

 

O primeiro disparo

nunca

é de pólvora.

 

É de linguagem.

Travessia

Aquilo

que negas

cresce no escuro.

 

O que aceitas

aprende a luz

do teu nome.

 

E tu,

és

a travessia.

Carga

O mar

não os matou.

 

Já tinham sido

atirados

ao vazio

 

quando alguém

os chamou

carga.

Por Viver

Uma vida

não adoece apenas

pelo que sofre.

 

Corrói-se também

por tudo

o que nunca

ousou

viver.

 

 

 

A Voz

Cada poeta

tem as suas palavras preferidas.

 

Mas o estilo

não nasce

de as repetir.

 

Nasce

de saber

quando as calar.

 

Sem Ruído

Uns empunham espadas.

Outros seguram papéis.

E, muitas vezes,

é essa luta silenciosa

que mais cansa.

 

Nem todas as batalhas

fazem ruído.

  

Algumas

cabem

na espera

de uma assinatura

capaz de devolver

um pouco

de descanso.

 

 

Os Invisíveis

O mundo

não vive apenas

dos que o mudam.

 

Vive também

dos que, todos os dias,

não o deixam

desistir de si mesmo.

 

 

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Antes da resposta

Respostas esgotam-se

Perguntas respiram.

 

O espanto não envelhece enquanto o escutamos.

 

 

 

  

Reconhecer

Não foi a palavra que chegou.

 

Fui eu que, depois de tantos caminhos, finalmente a reconheci.

 

E no entanto, sempre soube o meu nome.

 

 

Janela

Algumas conversas terminam.

 

Outras permanecem em nós como a luz numa janela depois de nos afastarmos da casa.

 

Espanto

Não sei se a vida tem um sentido.

 

Sei apenas que perde um pouco do mistério sempre que acreditamos tê-lo encontrado.

 

Talvez por isso a verdade caminha devagar:

 

para que o espanto a acompanhe.

Não nos define...

Não nos define

o que sentimos.

 

Define-nos o que fazemos

com o que sentimos.

Lugar

Quando voltares,

não tragas respostas.


Traz apenas

o lugar

onde a pergunta

viveu.


Entretanto

tudo mudou.


E nós

com ela.

 

Encontro

Uma árvore.


Um pássaro.


Um verso.


Raramente,


uma conversa


que continua


depois do silêncio.

 

quinta-feira, 16 de julho de 2026

As Árvores

As árvores mais antigas

não são as mais direitas.

 

São as que aprenderam a crescer

aceitando as curvas do vento.

 

Nenhum ramo

escolheu a tempestade.

 

Nenhuma raiz

pediu a seca.

 

E, apesar de tudo,

continuaram.

 

Há árvores

que o mundo

transforma

em madeira.

 

Outras

permanecem árvores,

porque nunca deixaram

de conversar

com o vento.

 

As Oliveiras

As oliveiras

não vencem o tempo.

 

Conversam com ele.

 

Cada inverno

retira-lhes um ramo.

 

Cada primavera

ensina-lhes

outra maneira

de dar fruto.

 

Continuam

a enraizar-se

enquanto

o vento

as muda.

 

Confissão

Nem sempre

aquilo que dizemos

fala do mundo.

 

Muitas vezes,

fala

do lugar

de onde

o olhamos.

 

 

Mirí

Pela escotilha

via-se tudo:

 

o mar,

o fogo,

as mães,

as crianças.

 

O mais difícil

não foi olhar,

 

foi continuar

sem ver.

 

(Em memória de Tomé Lopes, que deixou escrito: «lembrarei toda a minha vida».)

 

 

 

A Amizade

A amizade é isto.

 

Não caminhar à frente

para mostrar o caminho.

 

Nem atrás

para empurrar.

 

Mas ao lado,

até que o caminho

volte

a reconhecer-nos.

 

 

A Caverna

É possível que ainda nos habite

uma caverna.

 

Um lugar antigo

onde o estranho

veste a forma

do perigo.

 

Mas há também

uma janela.

 

E foi por ela

que a humanidade aprendeu,

devagar,

a reconhecer um irmão

onde antes via

apenas

o escuro de um rosto.

Espera

A existência não desaparece

quando nos faltam as forças.

 

Apenas se recolhe

para um lugar mais fundo,

onde o silêncio aprende

a esperar.

 

Há dias em que o corpo

baixa a voz.

 

E, ainda assim,

algo em nós

permanece

de pé,

quieto,

à escuta

do que há de voltar.

 

 

 

A Luz

Não é o amor que mais nos assusta.

 

É a luz que ele acende sobre quem somos.

 

Amar é tornar visível

uma parte de nós

 

que já não consegue esconder-se.

 

 

O Regresso

O passado não nos chama.

Somos nós que regressamos.

 

Até que um dia a consciência se senta ao lado da memória

 

e lhe fala como quem pousa a mão sobre uma ferida:

 

"Já não precisas de abrir esta história para saber que ela é tua."

 

Tradução

Não somos vistos.

Somos traduzidos.

Cada olhar reescreve-nos

na linguagem de quem olha.

 

Por isso,

não procures habitar

a imagem que fazem de ti.

 

Habita apenas

a verdade

com que te ofereces.

 

O resto

pertence ao mistério

de cada encontro.

 

Manhã

Manhãs que não trazem respostas.

Trazem apenas

uma nova oportunidade

de fazer

a mesma pergunta

com um coração

mais tranquilo.

Os hábitos

Os hábitos não vivem apenas nas mãos.

 

Moram no movimento antigo do corpo.

 

Aprendem o ritmo das nossas alegrias.

 

E também o da dor.

 

O corpo não os larga.

 

Não porque os ame.

 

Mas porque, durante tanto tempo,

 

foram eles que conheciam

 

o caminho de regresso a casa.

 

 

O Príncipe e o Poeta

Entrei numa livraria.

 

Um príncipe esperava-me há cinco séculos.

 

Peguei-lhe nas mãos.

 

Li-lhe o silêncio.

 

E voltei a pousá-lo.

 

Ainda não.

 

Talvez noutro dia.

 

Disseram-me que governar é conservar o reino.

 

Mas pensei:

 

quem veste uma coroa não deveria vestir também a alma do povo?

 

De que servem as muralhas intactas,

 

se, por dentro,

 

as consciências desabam?

 

Governar talvez seja

 

o mais solitário dos ofícios.

 

Escolher

 

quando nenhuma escolha permanece inteira.

 

Responder

 

por vidas que nunca caberão na própria vida.

 

Então alguém perguntou:

 

— Que espécie de homem te tornarias enquanto governasses?

 

Não soube responder.

 

Talvez porque algumas perguntas não procuram resposta.

 

Apenas uma vida.

 

Sorri.

 

E disse:

 

prefiro ser poeta.

 

Não porque os poetas sejam mais puros,

 

mas porque lhes é permitido continuar a perguntar

 

quando os príncipes

 

já não podem adiar a decisão.

 

Ainda acredito

 

que houve governantes que serviram antes de mandar,

 

que compreenderam

 

que nenhuma fronteira delimita a humanidade.

 

Mas sei também

 

que o poder pesa mais do que as mãos.

 

Por isso

 

fico.

 

Entre os livros.

 

À espera

 

de um verso

 

que governe

 

o pequeno reino

 

da consciência.