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quarta-feira, 4 de março de 2026

Tempos Sombrios

Os piores perderam o medo

porque aprenderam

que o silêncio também protege.

 

Os melhores cansaram-se de esperar

que a verdade

chegue a horas decentes.

 

Há crimes que não se escondem:

sentam-se em mesas longas,

assinam papéis

e chamam-lhe prestígio.

 

Não foi a falta de luz

que fez a noite,

foi o acordo tácito

de não acender.

 

Porque não é a escuridão

que assusta,

é a luz seletiva.

 

Quando a esperança se cansa

e o medo muda de lado,

o mundo não colapsa:

funciona.

 

E o tempo torna-se sombrio

não quando o mal aparece,

mas quando ninguém pergunta

por que continua.

 

É aí

que verdadeiramente

assusta.

 

 

Silêncio

O poder não levanta a voz;

espera.

 

Enquanto as cobras

ensaiam virtudes humanas,

o silêncio aprende-lhes o ritmo.

 

Quem fala demais

mostra a jogada,

mas quem observa,

governa o tempo.

 

Não é frieza:

é lucidez.

 

Ver o humano como é,

não como promete,

é a única forma

de não ser devorado

pela máscara.

 

 

 

Ministério

A verdade não grita,

arquiva-se.

 

Apaga-se um dia,

corrige-se o anterior,

e a memória aprende

a pedir autorização.

 

Não te obrigam a esquecer,

antes ensinam-te a duvidar

do que sentiste.

 

O medo não vem da punição,

mas do ajuste fino:

quereres estar certo

do lado errado.

 

Quando a palavra já não serve,

o silêncio faz carreira.

 

E o poder descansa

no momento exato

em que deixas de perguntar

se ainda és tu a pensar.

 

(Poema inspirado no universo simbólico de 1984, de George Orwell.)

 

 

 

 

Companhia

A solidão não é falta,

é espaço.

 

Nem todo o corpo preenche,

nem toda a voz acompanha.

 

Há presenças que invadem sem chegar,

que falam sem tocar.

 

Prefiro o meu silêncio inteiro

ao ruído de quem permanece

por medo de estar só.

 

Não me roubes a solidão

se não souberes sentar-te nela comigo;

sem pressa,

posse,

distração.

 

Porque estar junto

não é ocupar o lugar do outro,

é tornar o espaço habitável.

 

E há solidões que são dignas demais

para serem interrompidas

por quem não sabe ficar.

 

 

Entre o Olhar e o Chão

Não vemos o mundo,

tocamo-lo com histórias antigas

presas aos olhos.

 

O cérebro não mente;

protege.

Costura sentido

onde a ferida ainda sangra.

 

Há dores que nascem

do que se foi,

outras do que se é,

e confundir-nos

também dói.

 

Mudar o olhar

não apaga o impacto.

Há muros

que não são metáfora,

e quedas que não dependem da luz.

 

Interpretar é humano,

negar o chão, não.

 

A lucidez começa

quando a percepção aprende

a escutar o que resiste

a ser explicado.

 

 

Dois Mais Dois

Não te pedem que mintas,

antes que concordes.

 

Que repitas

até a verdade

perder peso.

 

Dois mais dois não muda;

muda quem cede.

 

Quando aceitas,

o erro já não é cálculo:

é submissão.

 

O poder não quer convencer,

quer que deixes de precisar

de saber.

 

 

Dupla Medida

A lei aprende cedo

a reconhecer rostos.

 

Para uns,

é peso;

para outros,

adereço.

 

Há crimes que afundam,

outros boiam

em cofres bem fechados.

 

Não falha a justiça;

cumpre-se

o pacto antigo do mundo.

 

E o mundo

não se explica.

 

 

 

O que a Dor Não Faz

A dor não ensina,

apenas chama.

 

Quem escuta,

talvez aprenda

a ficar inteiro

onde antes só havia ferida.

 

Quem não pode,

sobrevive;

sem lição,

sem culpa.

Chão e Ponte

Há espaço só teu

onde o silêncio ensina.

 

Pequenos murmúrios

carregam legado.

 

Olha, sente, cria.

 

O invisível se torna ponte

e o que era silêncio

ecoará no tempo.

 

 

Sem Salto

Não há degrau seguinte;

há chão.

 

Não evoluímos em linha reta,

aprendemos a não esmagar

o que sentimos.

 

A consciência não é luz súbita,

é atenção cansada

que insiste.

 

Não salvamos o mundo.

Às vezes,

não nos perdemos.

 

Somos o que somos

e isso já é humano.

 

O Que Não Lembramos

Há coisas que não lembramos

mas que o corpo reconhece.

 

Não são vozes antigas,

são inclinações do silêncio.

 

Nada está escrito em pedra;

o que veio antes pesa,

mas não manda.

 

Cada cuidado

é uma pequena reedição do destino.

 

 

Entre Asas

Há corpos que voam

em direções que a luz

não traçou.

 

E ainda assim, o céu

existe para todos,

não importa quem observa

com olhos presos

a livros antigos.

 

O vento não pergunta

quem ama ou como ama,

só passa,

leva,

devolve.

 

O que é natural

não se mede

com mãos que tremem

de medo.

 

Sempre que puderes

renasce

para o que em ti chama.

 

 

Calau

Não escolhe de novo,

não porque não possa,

mas porque o mundo perdeu o centro.

 

Quando um cai,

o outro fica inteiro por fora

e desfeito por dentro.

 

Não é drama.

É eixo partido.

 

O bico ainda conhece o céu,

as asas lembram o ar,

mas a fome já não sabe pedir.

 

Ama assim,

até ao limite do corpo.

 

Nós aprendemos outra coisa:

a levar o vínculo para dentro,

e dobramo-lo em linguagem,

em presença,

no silêncio que sustém.

 

O calau ensina a fidelidade.

A poesia ensina a ficar.

 

 

 

O que me Fica

A poesia não pede troca;

passa por mim

como vento que sabe o caminho

e deixa-me no corpo

mais do que levou.

 

Dou-lhe acolhimento,

tempo aberto,

um lugar onde pousar.

 

Ela devolve sentido

onde não havia forma,

e sustenta-me

quando não sei sustentar nada.

 

Não é minha;

atravessa-me.

 

E isso basta

para eu ficar;

pão sem nome. 

 

 

Contrato

Já não acorrentam pulsos;

assinam-nos por dentro.

 

Trabalha-se para não cair,

paga-se para continuar de pé.

 

A jaula chama-se normalidade

e ninguém pergunta

quem ficou com a chave.

 

(liberdade em minúsculas)

 

Três Atos

O desejo acende

o corpo e a mente.

 

A decepção corta

o que o desejo prometeu.

 

O tédio senta-se

como visitante antigo.

 

No final, silêncio:

o único aplauso

que não engana.

 

E assim me fiz ator

 

 

Cúmplices

A mentira caminha em grupo,
faz barulho,
distribui lugares.

A verdade anda só,
não promete abrigo,
apenas permanece.

Uma vence depressa,
a outra chega
quando já não há
onde fugir.

E o tempo não absolve. 


Degrau

O pobre sonha subir

pisando quem lhe espelha a queda.

 

Defende a mão que o empurra

e chama-lhe salvação.

 

Quando o chão cede,

já não sabe

de que lado caiu.

 

 

Cegueira

Olho por olho,

e as ruas aprendem a escurecer.

 

As mãos que ferem

não voltam mais limpas.

 

O mundo não pune,

apenas cega

 

e deixa o eco dos dentes a ranger.

 

 

Cadeia

Os de cima chamam lucro

ao que falta aos de baixo.

 

Os de baixo chamam sobrevivência

ao que tiram uns dos outros.

 

No fim,

ninguém fica com as mãos limpas,

apenas com medo

de cair mais

 

e serem os próximos

 

Diagnóstico

Disse uma palavra.

O mundo respondeu com um rótulo.

 

Depois disso,

toda lucidez

passou a ser sintoma.

Sem Lugar

Amei inteiro.

O mundo pediu partes.

 

Quando aprendi o jogo,

o amor já não cabia.

 

Não perdi o amor.

Perdi o lugar

onde ele pudesse ficar.