Pequenas vidas interrompidas,
vozes que o silêncio não apagará.
Que cada memória seja farol
e cada nome, resistência.
Arte
Pequenas vidas interrompidas,
vozes que o silêncio não apagará.
Que cada memória seja farol
e cada nome, resistência.
Ao fim da manhã,
Lisboa estava coberta de nuvens.
Não chovia.
O Tejo respirava baço,
como bronze polido
que perdeu brilho.
Os prédios guardavam a luz
sem entusiasmo,
e nada no céu denunciava
que, noutro ponto do mundo,
a claridade diminuía.
Aqui,
o dia mantinha-se suspenso:
nem claro,
nem escuro.
Lá,
a sombra desenhava
um círculo preciso
sobre terras que já conhecem
outras formas de apagamento.
Há geografias
onde o céu se basta
a si mesmo.
O som antes do impacto,
a poeira que sobe,
o intervalo entre duas notícias,
são suficiente testemunho.
Lisboa continuava:
elétricos,
passos,
cafés.
A rotina é um teto:
protege-nos do que acontece
fora do horizonte.
O mundo não se divide
entre nuvens e sombra,
mas entre quem pode ignorar
e quem não pode.
O cinzento sobre a cidade
era apenas clima.
E, ainda assim,
há um parentesco invisível
entre o que encobre
e o que apaga.
Talvez o verdadeiro eclipse
não seja da luz,
mas da atenção.
Não é preciso que o céu escureça
para que algo em nós
fique exposto.
(Poema inspirado pelo eclipse de 3 de março de 2026, às 11h38, hora de
Lisboa, evocando as sombras que pairam sobre o mundo e os instantes em que a
luz se retira, convocando a atenção e a consciência.)
Disseram:
é assim que se fala aqui,
e de repente algumas palavras
ficaram feias,
outras seguras,
e outras desapareceram
sem aviso.
Quem falava torto
aprendeu a endireitar a frase
antes de acabar a frase.
Ninguém proibiu nada;
apenas sorriram
quando a palavra certa foi dita.
Com o tempo,
até o silêncio ganhou forma:
calava-se nos lugares adequados.
As frases passaram a vir prontas,
bem passadas,
sem arestas.
E quem ainda tropeça
num dizer fora do contorno
não é acusado,
é corrigido, com cuidado,
como quem limpa uma mancha pequena.
O poder não grita,
ensina
Há quem levante a voz
para que a sala não repare
no tremor das mãos.
E construa ameaças
como quem ergue muralhas:
não para impedir o outro,
mas para não ter de olhar
para fora.
Quem governa pelo medo
dorme leve,
ouve passos onde não há chão,
confundindo silêncio
com conspiração.
A ordem precisa ser repetida,
o castigo lembrado,
o controlo renovado
como feitiço frágil.
Não é força o que sustém isso,
é vigília,
nem poder,
é cansaço organizado.
Enquanto isso,
o medo circula,
muda de corpo,
não de dono.
E a paz, essa,
fica sempre do lado de fora,
sentada num banco simples,
à espera de quem já não precise
do medo
para existir.
No fundo da gaveta
há um carrinho sem rodas:
não anda,
não serve,
não explica nada.
Ficou ali
quando a casa mudou de mãos,
quando os adultos decidiram
o que valia a pena levar.
A engrenagem
passou por cima
com caixas bem marcadas:
datas, destinos.
O carrinho ficou
porque não cabia em nenhum plano.
Mas nele ainda resta
o movimento repetido,
o chão imaginado,
uma tarde inteira
que nunca virou história.
A memória não avança;
se detém,
e às vezes é num objeto inútil
que o passado
recusa desaparecer.
Chamaram-lhe corpo,
antes de o deixarem sentir,
e disseram-lhe onde parar,
como desejar,
quando calar,
e chamaram a isso verdade.
O sexo não foi silenciado;
foi examinado,
medido,
classificado
como quem fecha processos
para não ouvir o que treme.
Cada inflexão ganhou nome,
cada desvio um diagnóstico,
cada prazer uma explicação
que o afastava de si.
Não proibiram dizer;
pediram que dissesse tudo,
mas na língua certa,
no consultório,
no formulário,
sob a luz que observa
sem tocar.
O corpo aprendeu a vigiar-se,
a confessar-se antes de pecar,
a desejar com culpa
e culpa com método.
E no entanto,
há sempre algo que escapa:
um arrepio sem discurso,
um silêncio que não se deixa traduzir,
uma intimidade que não pede autorização.
A história escreve-se sobre a pele,
mas a pele
nunca é só história.
Não nasceu do excesso,
mas da memória da ferida.
Foram muitos os que obedeceram,
aprenderam a baixar os olhos
e a caber no molde
para não desaparecer.
Quando o número cresceu,
chamaram-lhe força;
razão.
O que antes doía
passou a ser regra;
o medo antigo vestiu
a roupa da lei.
Ninguém quis dominar;
apenas não voltar a ser esmagado.
Mas a mão que protege aperta,
e o consenso que consola
abafa.
A maioria
não percebe o instante exato
em que deixa de se defender
e começa a repetir aquilo
que a feriu.
A tirania muda de voz,
não de hábito.
E o mais difícil
não é resistir ao opressor,
mas reconhecer-se
no espelho
quando se vence.
Não foi falta de escolha,
foi fingir que já não havia.
Disse-se:
é assim; o trabalho, a vida,
como se as mãos
se movessem sozinhas.
A liberdade ficou de lado,
não por ausência,
mas por medo do peso.
Escolher cansa;
cansa muito.
Assumir custa.
Então representa-se
um papel já escrito.
A má-fé não é mentira
dita aos outros;
é silêncio consigo,
olhar para o espelho
e desviar os olhos.
E no entanto,
basta um gesto
não previsto,
uma recusa pequena,
para que tudo abale.
Porque a verdade insiste:
ninguém nos vive por nós.
(Poema inspirado no conceito de “má-fé” desenvolvido
por Jean-Paul Sartre, explorando em linguagem poética a recusa da liberdade e
da responsabilidade individual.)
Não é grito,
é afastamento;
é não querer ser o que se é,
nem poder deixar de ser.
O desespero não cai;
fecha-se,
constrói-se
numa casa sem janelas
para não ver possibilidades.
Não dói por excesso,
mas por falta:
a falta de relação consigo.
Quem desespera ainda vive,
mas fora de si,
à espera de um regresso
que não sabe pedir.