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sexta-feira, 15 de maio de 2026

Matéria fora de uso

Não é sempre corpo.

Às vezes é vidro,

frio, demasiado certo.

Outras, madeira,

fibra tensa,

desvio antigo.

 

A falha começa

sem origem.

 

No vidro, estala.

No metal, vibra.

Na pedra, abre.

No tecido, prende.

Na madeira, torce.

 

Muda o suporte,

não muda o corte.

 

Os outros são marcados,

entram na ordem

e seguem.

Este não.

 

O que sustenta

já vem com desvio.

 

Há sempre um ponto

onde não encaixa.

 

Corrige-se,

o erro desloca-se.

 

Nomeia-se de outro modo.

 

O tempo passa por cima,

não atravessa.

 

E prossegue.

 

 

Esporo

Não escolhe.

É alterado antes de ser.

 

Perde a função.

O resto cede.

 

A forma continua,

mas já não coincide.

 

Há um ponto

sem entrega,

e é nele

que persiste.

 

No fim,

só a morte

rompe a posse.

Centro

Não desaparece,

mesmo quando o resto

é descrito como perda,

há um ponto

que não entra no cálculo.

 

Não se desloca

para cumprir teoria,

mantém-se.

 

Pequeno,

mas sem função de passagem,

não conduz a outro lugar.

 

Responde,

às vezes mais tarde,

às vezes sem aviso.

 

O corpo não esquece

o caminho até ali

e o que muda

é o que se diz sobre ele.

 

Durante anos,

foi empurrado

para fora do discurso,

como se tivesse de ceder

a outra forma.

 

Mas não cede,

permanece

fora do acordo.

 

E é nesse desvio

que continua.

 

Responde.

 

 

Dois lugares

Começas por abrir os olhos

e o mundo já está duplicado.

 

O ar entra igual

pelos dois lados do rosto.

 

Há outro corpo,

à distância exata de existir,

respira contigo.

 

Nenhum avança,

nenhum recua.

 

O chão aceita ambos

sem hesitar.

 

Quando escutas,

o som não ecoa,

parte-se.

 

Dois restos de silêncio,

quase coincidentes,

nunca sobrepostos.

 

Tentas escolher-te,

fixar um lado.

 

Mas o olhar falha,

fica preso entre versões,

como uma agulha que não assenta.

 

Um instante

tudo sustém.

 

Depois,

sem sinal,

uma cede.

 

Não sabes qual morreu.

 

Só sabes

que continuas.

 

 

Traço

Não é a pessoa,

é um detalhe.

 

Uma pausa na voz,

desalinhada do pulso,

como se a frase hesitasse

antes de se cumprir.

 

Nada se explica aí,

mas fica.

 

O resto encosta-se a isso

sem saber.

 

Um movimento perde o centro,

um olhar insiste

no mesmo ponto

sem motivo.

 

Não há totalidade,

há fixação.

 

E tudo o que vem depois

já não é inteiro,

apenas reorganização

à volta de um mínimo

imóvel.

 

E mesmo quando desaparece,

continua a dirigir

o que já foi dito.

 

 

 

Sem ruído

Começa leve.

 

A frase entra limpa,

curta,

cabe inteira na boca.

 

Repete-se

sem esforço.

 

A cabeça acena

antes de acabar.

 

Há brilho no som,

um encaixe fácil

no ouvido.

 

Ninguém interrompe.

 

Depois,

uma palavra falha.

Fica a meio.

 

Um silêncio entra

onde não devia.

 

Alguém tenta corrigir,

mas a frase já vem pronta,

volta ao mesmo lugar.

 

Outra vez.

 

A língua trava

antes de soltar.

 

O ar pesa

antes de sair.

 

E o corpo aprende

a não avançar.

 

O som continua,

mais baixo.

 

As palavras chegam

com bordas gastas.

 

E, a certa altura,

já não é preciso dizer nada.

 

A boca fecha

antes da frase,

e fica assim,

sem ruído,

como se nunca tivesse havido

nada.

 

 

Trânsito sem Moeda

O acordo não aparece,

instala-se.

 

No corpo:

um curva a voz,

o outro ajusta

o ângulo.

 

Há sempre

gravidade;

um pesa,

o outro

antecipa a queda.

 

Encurta a frase,

abre espaço

antes do meneio.

 

Nada circula à vista,

ainda assim,

há trânsito:

um fica inteiro,

o outro

vai ficando menos.

 

Não é escolha,

é hábito do músculo.

 

Até que já não se distingue

ceder

de ser.

 

Um permanece.

O outro

já não mexe.

 

 

 

Sem Sombra

Luz direta na cara,

os olhos ardem

e não conseguem fixar-se.

 

Tudo exposto:

a mesa,

a pele,

o interior da boca

quando falas.

 

A luz demora-se na pele,

e um lado do rosto sua primeiro.

A camisa cola,

o ar não circula.

Os movimentos encurtam,

ganham rigidez.

 

Endireitas o corpo,

puxas a manga,

ajeitas a gola,

limpas as mãos

num gesto que volta.

 

Nada pode ficar fora.

 

Mas há zonas que cedem:

atrás do joelho,

entre os dedos,

na nuca.

 

Ali o suor acumula,

fica preso.

Respiras mais curto,

e o peito não abre todo.

 

E continuas,

sem onde recuar,

até o corpo começar

a ceder.

 

 

Sem lição

Não ensina.

 

A dor entra

sem contorno

e toma.

 

O corpo reage primeiro:

ombros sobem,

a respiração encurta,

a boca fecha

antes de haver palavra.

 

Não há escuta,

mas desvio.

 

O que encurta o ar

muda de lugar:

do peito para a nuca,

da nuca para a mão

que repete um trajeto

sem função.

 

Volta

em pequenas variações,

como som

que não encontra saída.

 

Às vezes

fica mais perto.

 

Encosta, não abre.

 

O corpo sustém

o que não passa.

 

E continua,

com peso desigual,

até que o peito

cede

não por força,

nem por decisão,

mas porque já não cabe

na mesma forma.

 

 

 

Campo Interno

Self

 

Não aparece,

mas reorganiza

o peso dos objetos

na sala.

 

A chávena

não está onde estava,

embora ninguém a tenha movido.

 

Há um centro,

mas desloca-se

quando tentas fixá-lo.

 

O que falta

faz inclinar o resto.

 

E o conjunto

nunca coincide

consigo mesmo.

 

 

Ego

 

Diz:

é isto.

 

Mas a frase

já vem usada,

como copo com marcas

de boca.

 

Endireita o mundo

com gestos pequenos:

alinha a cadeira,

alisa o vinco,

repete o nome.

 

Por um instante,

resulta.

 

Depois

o mesmo gesto repete-se

sem necessidade.

 

E a forma fica

presa ao próprio esforço.

 

 

Sombra

 

Não entra,

mas infiltra.

 

Uma nódoa leve

na luz da parede,

um cheiro antigo

que reaparece sem origem.

 

O que foi cortado

não desaparece:

gruda.

 

Passa por baixo

do que é dito,

e altera a textura

daquilo que parece limpo.

 

 

Persona

 

Chega antes.

 

Testa a voz,

mede a distância,

escolhe o ângulo da cara.

 

Tudo encaixa

no primeiro olhar.

 

As respostas

não hesitam.

 

Mas há momentos

em que a fala continua

mesmo sem destinatário.

 

E o corpo sustém

o excesso de forma

como roupa apertada.

 

 

Anima / Animus

 

Não entra,

atravessa.

 

Muda a temperatura

de uma frase

sem tocar nela.

 

Um gesto começa

noutro lugar.

 

E entre dois movimentos

o mesmo corpo

não coincide consigo.

 

Fica a sensação

de ter sido tocado

sem contacto.

 

 

Herói

 

Avança.

 

Mas o caminho

repete-se em versões ligeiramente diferentes.

 

O mesmo esforço

abre portas que já estavam abertas

de outra forma.

 

O corpo continua

mesmo quando não há direção.

 

E o movimento

já não leva,

acumula.

 

 

Velho Sábio

 

Fala pouco,

mas interrompe.

 

Não responde,

inverte o peso da pergunta.

 

Às vezes

fica em silêncio

demasiado tempo

para ser só silêncio.

 

E nessa pausa

o sentido perde estabilidade.

 

 

Trickster

 

Não erra.

 

Repete.

 

Um gesto feito duas vezes

com diferença mínima.

 

Uma palavra correta

fora do lugar certo.

 

Nada quebra.

 

Mas o sistema

começa a funcionar

como se já tivesse falhado.