Tudo funciona.
As contas batem certo,
os números crescem,
o sistema ajusta-se.
Nada falha.
E, ainda assim,
há quem fique de fora,
não conte,
e desapareça
sem erro registado.
Tudo funciona.
Menos o que importa.
Arte
Tudo funciona.
As contas batem certo,
os números crescem,
o sistema ajusta-se.
Nada falha.
E, ainda assim,
há quem fique de fora,
não conte,
e desapareça
sem erro registado.
Tudo funciona.
Menos o que importa.
Falam de um destino
como se já estivesse escrito.
Repetem nomes,
sinais,
antigas promessas,
como quem precisa
de acreditar em algo maior.
Mas um país não é profecia;
é gente,
erro,
acaso.
E nenhuma história passada
garante futuro algum.
Não era amor,
era espera.
Cada gesto teu
tornava-se resposta,
mesmo quando nada dizias.
O silêncio
pesava mais
que qualquer palavra.
E quanto menos havia,
mais eu inventava.
O mundo chama,
e muitos atendem
apenas para sobreviver.
Mas há quem escute
um som mais sutil,
uma voz que não cessa,
que não pede nada
além de ser seguida.
A verdadeira profissão
não é escolha ou obrigação:
é missão
que arde no peito
e move o corpo
sem buscar aplauso.
Ninguém vê o som.
Mas quando uma nota nasce
o ar move-se
como água tocada por pedra.
Ondas atravessam o espaço
à procura de silêncio
onde repousar.
A música passa
por dentro das coisas
sem deixar rasto.
Ainda assim
algo se organiza no invisível.
Talvez o mundo inteiro
seja apenas
uma forma
que o som desenha
enquanto respiramos.
O debate que deveria ser claro
morre entre gritos.
A mentira veste aplausos,
o absurdo dança nos corredores,
e a violência corre nua
como ímpeto que não pede permissão.
As vozes ponderadas
afundam-se em silêncio,
o entendimento perde peso,
o coração observa
e não encontra eco.
Podem estudar o Homem,
medir-lhe gestos,
traçar mapas de passos.
Podem conhecer
o peso das multidões
e a lógica dos dias.
Mas há sempre alguém
que se levanta
contra o cálculo
e mantém o coração.
A tecnologia pode compreender o mundo,
mas o Homem ainda é capaz de o sentir.
À mesa
não havia mulheres.
O vinho corria
e as vozes também.
Riam-se uns dos outros
com provocações antigas,
sempre no mesmo lugar
da linguagem.
Os risos batiam
como copos vazios.
Fiquei ali
entre sorrisos breves,
sem saber
se era jogo
ou cansaço
de homens.
Às vezes
o riso mais alto
é o mais inquieto.
Alguns caminham
com duas sombras.
Uma vem de trás,
cheia de nomes
que já passaram.
Outra vem da frente,
feita de coisas
que ainda não existem.
Entre ambas
a vida fica estreita.
Mas o dia
não pede memória
nem presságios.
Pede apenas
um passo limpo
sobre a terra.
Durante muito tempo
ninguém pensou no retrato.
Mas algures
numa sala que não visitamos
o rosto ia mudando.
Quando finalmente
nos voltámos para ele
já era o nosso.
Durante anos
repetiram as mesmas palavras.
Aprenderam-nas bem,
como quem decora
uma oração.
Ninguém nada questionava.
Até que um dia
alguém quis saber
de onde vinham as frases.
Foi nesse momento
que o silêncio da sala
se tornou perigoso.
Antes das leis,
alguém ensinava
a justiça ao coração.
Sem isso,
mil códigos
não seguram nada.
No conflito, surge a ferida.
Não é a arma que corta,
mas o impulso sem consciência.
Cada choque deixa cicatriz,
cada decisão traz clareza.
A dor transforma,
se for vista.
Quando o machado entrou na floresta,
as árvores não temeram a cabeça.
Reconheceram primeiro
o cabo.
Era feito da mesma madeira.
E foi então
que compreenderam
como começa toda a destruição.
Passaste a vida
vigiando inimigos.
Aprendeste a reconhecer
ruídos e rostos de ameaça.
No fim
descobres
que o destino raramente vem
de onde o medo aponta.
Muitas vezes
é a mão que protege
quem decide
o fim.
Houve cidades onde a alegria era inteira,
o medo não tinha casa,
e o pudor não ditava lei.
Ali, cada gesto era sagrado,
cada riso, solto,
cada instante, inteiro.
Mas olhos invejosos vigiaram,
línguas contaram pecados inexistentes,
e mãos acreditaram ser justiça.
Onde o dedo tocou,
o mundo murchou,
o riso silenciou,
e o gesto se enrijeceu.
O que era natural tornou-se suspeita,
o prazer virou crime,
e a abundância despertou temor.
Ainda assim,
nos cantos intocados,
a alegria cresce selvagem,
e a liberdade dança sem medo.
O tempo corre sem aprisionar,
o instante permanece inteiro;
nada externo pode tocar
o que é verdadeiramente humano.
Onde houver liberdade verdadeira,
ali sobrevive o que nenhum dedo pode corromper,
e ali, o paraíso não é esquecido.
E quem é feliz
jamais será cruel.
Vi uma criança
com as mãos em concha
a tentar beber o mundo.
E o mundo
tinha pólvora na garganta.
Senti o fogo antigo,
a indignação justa,
esse aço que protege o inocente.
Mas logo atrás
vinha outra chama,
mais escura,
à procura de um rosto para odiar,
de um nome para culpar,
como se isso fechasse feridas.
Disseram-me:
há culpados.
Há.
Disseram-me:
há inocentes.
Também.
Mas entre o dedo que dispara
e o corpo que cai
há histórias que não cabem
numa frase talhada em pedra.
Se eu sentir pena do culpado,
estarei a trair a criança?
Ou estarei apenas
a reconhecer
que a mão que mata
é feita da mesma carne
que aprende a chorar?
A justiça pede firmeza,
a dor pede vingança,
e a consciência pede o mais difícil:
olhar sem cegar,
condenar sem desumanizar,
proteger sem nos tornarmos
aquilo que combatemos.
Todos somos humanos,
dizem.
Mas que humanidade é esta
que aceita viver
entre o grito
e a lucidez?
Se eu partilhar a imagem,
acordo consciências
ou multiplico o horror?
Se me calar,
sou cúmplice
ou guardião de um silêncio necessário?
No fim, resta isto:
uma criança que queria água,
um adulto que escolheu disparar,
e eu,
longe,
a vigiar a minha própria sombra
para que a revolta
não me desfigure por dentro.
A dependência
não nasce do prazer;
nasce do frio
que ninguém viu.
A criança aprende
a calar a dor
e procura algo
que a aqueça.
Chamam-lhe vício
mais tarde.
Mas é só
um pedido antigo
de colo.
Curar
é ficar
quando a vontade
é fugir.
Ergue-se sobre outros,
mas é apenas sombra;
humilha, reduz, projeta medo,
como se, apagando outros,
pudesse brilhar.
A verdadeira grandeza
não precisa de degrau
nem de vítima;
surge silenciosa, inteira,
onde ninguém diminui
alguém para existir.
Não é preciso fogo;
mas houve um tempo
em que ele iluminava bibliotecas
enquanto as palavras gritavam em silêncio.
Rolos, códices, mapas do céu,
reduzidos a clarão
na noite satisfeita dos conquistadores.
Hoje é diferente;
a chama é fria.
Uma mão escreve
sobre outra escrita apagada,
raspa o pergaminho,
alisa a superfície
até que o passado pareça liso.
Chamam-lhe atualização,
revisão necessária,
maturidade histórica.
Mas a lâmina que raspa o texto
não apaga apenas tinta;
afina a memória
até caber num discurso.
Há sempre uma biblioteca a arder
quando um facto é dobrado
até servir,
e um códice rasgado
quando a complexidade incomoda.
E nós assistimos
com a serenidade dos bem-informados,
partilhando versões polidas
como se fossem originais.
O passado torna-se um palimpsesto dócil:
por baixo da nova caligrafia
ainda pulsa a antiga,
mas já ninguém a ensina a ler.
O perigo não é a mentira isolada.
É a mentira arquivada,
catalogada,
curricular.
É quando a fogueira
se transforma em método.
E o mais inquietante
não é a cinza;
é o silêncio limpo
onde ninguém sabe
que falta alguma coisa.
Caminho sem apagar ninguém,
escuto antes de julgar,
duvido antes de crer,
e abraço a compaixão
como minha verdadeira força.