Seguidores

terça-feira, 7 de abril de 2026

Funciona

Tudo funciona.

 

As contas batem certo,

os números crescem,

o sistema ajusta-se.

 

Nada falha.

 

E, ainda assim,

há quem fique de fora,

não conte,

e desapareça

sem erro registado.

 

Tudo funciona.

 

Menos o que importa.

 

Desígnio

Falam de um destino

como se já estivesse escrito.

 

Repetem nomes,

sinais,

antigas promessas,

como quem precisa

de acreditar em algo maior.

 

Mas um país não é profecia;

é gente,

erro,

acaso.

 

E nenhuma história passada

garante futuro algum.

 

 

Sinais

Não era amor,

era espera.

 

Cada gesto teu

tornava-se resposta,

mesmo quando nada dizias.

 

O silêncio

pesava mais

que qualquer palavra.

 

E quanto menos havia,

mais eu inventava.

 

 

Chamamento

O mundo chama,

e muitos atendem

apenas para sobreviver.

 

Mas há quem escute

um som mais sutil,

uma voz que não cessa,

que não pede nada

além de ser seguida.

 

A verdadeira profissão

não é escolha ou obrigação:

é missão

que arde no peito

e move o corpo

sem buscar aplauso.

 

Geometria

Ninguém vê o som.

 

Mas quando uma nota nasce

o ar move-se

como água tocada por pedra.

 

Ondas atravessam o espaço

à procura de silêncio

onde repousar.

 

A música passa

por dentro das coisas

sem deixar rasto.

 

Ainda assim

algo se organiza no invisível.

 

Talvez o mundo inteiro

seja apenas

uma forma

que o som desenha

enquanto respiramos.

 

O Ruído

O debate que deveria ser claro

morre entre gritos.

 

A mentira veste aplausos,

o absurdo dança nos corredores,

e a violência corre nua

como ímpeto que não pede permissão.

 

As vozes ponderadas

afundam-se em silêncio,

o entendimento perde peso,

o coração observa

e não encontra eco.

 

 

Coração

Podem estudar o Homem,

medir-lhe gestos,

traçar mapas de passos.

 

Podem conhecer

o peso das multidões

e a lógica dos dias.

 

Mas há sempre alguém

que se levanta

contra o cálculo

e mantém o coração.

 

A tecnologia pode compreender o mundo,

mas o Homem ainda é capaz de o sentir.

À Mesa

À mesa

não havia mulheres.

 

O vinho corria

e as vozes também.

 

Riam-se uns dos outros

com provocações antigas,

sempre no mesmo lugar

da linguagem.

 

Os risos batiam

como copos vazios.

 

Fiquei ali

entre sorrisos breves,

sem saber

se era jogo

ou cansaço

de homens.

 

Às vezes

o riso mais alto

é o mais inquieto.

 

Peso Inútil

Alguns caminham

com duas sombras.

 

Uma vem de trás,

cheia de nomes

que já passaram.

 

Outra vem da frente,

feita de coisas

que ainda não existem.

 

Entre ambas

a vida fica estreita.

 

Mas o dia

não pede memória

nem presságios.

 

Pede apenas

um passo limpo

sobre a terra.

 

O Retrato

Durante muito tempo

ninguém pensou no retrato.

 

Mas algures

numa sala que não visitamos

o rosto ia mudando.

 

Quando finalmente

nos voltámos para ele

 

já era o nosso.

 

 

A Lição

Durante anos

repetiram as mesmas palavras.

 

Aprenderam-nas bem,

como quem decora

uma oração.

 

Ninguém nada questionava.

 

Até que um dia

alguém quis saber

de onde vinham as frases.

 

Foi nesse momento

que o silêncio da sala

se tornou perigoso.

 

O Peso Invisível

Antes das leis,

alguém ensinava

a justiça ao coração.

 

Sem isso,

mil códigos

não seguram nada.

 

O Ferimento do Guerreiro

No conflito, surge a ferida.

 

Não é a arma que corta,

mas o impulso sem consciência.

 

Cada choque deixa cicatriz,

cada decisão traz clareza.

 

A dor transforma,

se for vista.

 

 

O Cabo

Quando o machado entrou na floresta,

as árvores não temeram a cabeça.

 

Reconheceram primeiro

o cabo.

 

Era feito da mesma madeira.

 

E foi então

que compreenderam

como começa toda a destruição.

 

 

Medos

Passaste a vida

vigiando inimigos.

 

Aprendeste a reconhecer

ruídos e rostos de ameaça.

 

No fim

descobres

que o destino raramente vem

de onde o medo aponta.

 

Muitas vezes

é a mão que protege

quem decide

o fim.

 

Oráculo do Toque e da Liberdade

Houve cidades onde a alegria era inteira,

o medo não tinha casa,

e o pudor não ditava lei.

 

Ali, cada gesto era sagrado,

cada riso, solto,

cada instante, inteiro.

 

Mas olhos invejosos vigiaram,

línguas contaram pecados inexistentes,

e mãos acreditaram ser justiça.

 

Onde o dedo tocou,

o mundo murchou,

o riso silenciou,

e o gesto se enrijeceu.

 

O que era natural tornou-se suspeita,

o prazer virou crime,

e a abundância despertou temor.

 

Ainda assim,

nos cantos intocados,

a alegria cresce selvagem,

e a liberdade dança sem medo.

 

O tempo corre sem aprisionar,

o instante permanece inteiro;

nada externo pode tocar

o que é verdadeiramente humano.

 

Onde houver liberdade verdadeira,

ali sobrevive o que nenhum dedo pode corromper,

e ali, o paraíso não é esquecido.

 

E quem é feliz

jamais será cruel.

 

 

Consciência

Vi uma criança

com as mãos em concha

a tentar beber o mundo.

 

E o mundo

tinha pólvora na garganta.

 

Senti o fogo antigo,

a indignação justa,

esse aço que protege o inocente.

 

Mas logo atrás

vinha outra chama,

mais escura,

à procura de um rosto para odiar,

de um nome para culpar,

como se isso fechasse feridas.

 

Disseram-me:

há culpados.

 

Há.

 

Disseram-me:

há inocentes.

 

Também.

 

Mas entre o dedo que dispara

e o corpo que cai

há histórias que não cabem

numa frase talhada em pedra.

 

Se eu sentir pena do culpado,

estarei a trair a criança?

 

Ou estarei apenas

a reconhecer

que a mão que mata

é feita da mesma carne

que aprende a chorar?

 

A justiça pede firmeza,

a dor pede vingança,

e a consciência pede o mais difícil:

 

olhar sem cegar,

condenar sem desumanizar,

proteger sem nos tornarmos

aquilo que combatemos.

 

Todos somos humanos,

dizem.

 

Mas que humanidade é esta

que aceita viver

entre o grito

e a lucidez?

 

Se eu partilhar a imagem,

acordo consciências

ou multiplico o horror?

 

Se me calar,

sou cúmplice

ou guardião de um silêncio necessário?

 

No fim, resta isto:

uma criança que queria água,

um adulto que escolheu disparar,

e eu,

longe,

a vigiar a minha própria sombra

para que a revolta

não me desfigure por dentro.

 

 


Colo Antigo

A dependência

não nasce do prazer;

nasce do frio

que ninguém viu.

 

A criança aprende

a calar a dor

e procura algo

que a aqueça.

 

Chamam-lhe vício

mais tarde.

 

Mas é só

um pedido antigo

de colo.

 

Curar

é ficar

quando a vontade

é fugir.

 

Sombra de Poder

Ergue-se sobre outros,

mas é apenas sombra;

 

humilha, reduz, projeta medo,

como se, apagando outros,

pudesse brilhar.

 

A verdadeira grandeza

não precisa de degrau

nem de vítima;

surge silenciosa, inteira,

onde ninguém diminui

alguém para existir.

 

 

 

Manual para Queimar Memórias

Não é preciso fogo;

mas houve um tempo

em que ele iluminava bibliotecas

enquanto as palavras gritavam em silêncio.

 

Rolos, códices, mapas do céu,

reduzidos a clarão

na noite satisfeita dos conquistadores.

 

Hoje é diferente;

a chama é fria.

 

Uma mão escreve

sobre outra escrita apagada,

raspa o pergaminho,

alisa a superfície

até que o passado pareça liso.

 

Chamam-lhe atualização,

revisão necessária,

maturidade histórica.

 

Mas a lâmina que raspa o texto

não apaga apenas tinta;

afina a memória

até caber num discurso.

 

Há sempre uma biblioteca a arder

quando um facto é dobrado

até servir,

e um códice rasgado

quando a complexidade incomoda.

 

E nós assistimos

com a serenidade dos bem-informados,

partilhando versões polidas

como se fossem originais.

 

O passado torna-se um palimpsesto dócil:

por baixo da nova caligrafia

ainda pulsa a antiga,

mas já ninguém a ensina a ler.

 

O perigo não é a mentira isolada.

É a mentira arquivada,

catalogada,

curricular.

É quando a fogueira

se transforma em método.

 

E o mais inquietante

não é a cinza;

é o silêncio limpo

onde ninguém sabe

que falta alguma coisa.

 

 

Mantra da Empatia e da Dúvida

Caminho sem apagar ninguém,

escuto antes de julgar,

duvido antes de crer,

e abraço a compaixão

como minha verdadeira força.