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sábado, 1 de agosto de 2026

Tudo

Tudo

está

dentro

de tudo

 

 

Desabrigo

O que dói

não é

o fim.

 

É acordar

onde já não mora

o que em nós

nos sonhava.

 

Despertar

Todos celebram

o despertar.

 

Poucos conhecem

o ofício

da noite.

 

É nela

que o olhar

se desfaz,

que o nome

falha,

que o silêncio

amadurece.

 

Nada ali

brilha.

Tudo

aprende.

 

E quando

a luz chega,

já vem

escrita

no escuro.

 

O amanhecer

não começa

no dia.

 

Começa

naquilo

que atravessou

a noite.

 

 

 

Resistência

Escrevo

porque a solidão

nem sempre

permite

presença.

 

Cada poema

é uma pequena

desobediência.

 

Não dissolve

o escuro.

 

Mas abre

uma fenda

onde respiro.

 

 

Entre

Disseram

quem eu

era.

 

Nenhuma voz

ficou

o tempo

necessário.

 

Fui vidro

baço

entre mãos.

 

Há sempre

qualquer coisa

que escapa

ao olhar

de passagem.

 

Longe

Quem bebeu

do mar

já não confunde

a sede

com o mundo.

 

Há rios

imensos

para olhos

que nunca

viram

o longe.

 

Conhecer

a largura

da água

é dar

ao medo

outra

margem.

 

 

 

 

Medida

Não me julgues

pelos dias

em que

me calo.

 

Nem todo

o silêncio

é ausência

de amor.

 

Há invernos

que falam

mais baixo.

 

Se algum dia

me procurares,

vem

quando

menos

me reconheço.

 

É aí

que mais

preciso

de ti.

 

 

Lugar vazio

Basta

um lugar

ficar vazio

 

para que alguém

o encha

com uma história.

 

Nem sempre

sobre quem partiu.

 

Quase sempre

sobre quem ficou.

 

 

Idade

Não foi

o tempo

que me

envelheceu.

 

Foi o dia

em que deixei

de esperar

pela manhã.

 

Enquanto

arder

uma centelha

a abrir

a noite

por dentro,

 

a idade

passará

por mim

como quem

olha,

hesita

e segue.

 

 

Fio

Quis

chegar

depressa.

 

Foi o tempo

que me

demorou.

 

Enquanto

aprendia

o corte,

aprendia

a mão

que o guiava.

 

Só depois

percebi:

não era

a árvore

que resistia.

 

Era eu

que ainda

não sabia

cortar.

 

 

Início

Não me foi dado

o caminho.

 

Apenas

o próximo

passo.

 

Só mais tarde

compreendi

que era

tudo

o que precisava.

 

 

Eco

Procurei

o meu nome

na voz

dos outros.

 

Julguei

tê-lo

encontrado.

 

Mas o eco

vive

apenas

enquanto

há distância.

 

Só o silêncio

conhece

o regresso.

 

Só a voz

que volta

a si

deixa

de procurar

o próprio

nome.

 

 

Brasa

Quase

me perco.

 

O peso

já conhece

todos

os caminhos

da casa.

 

Mas,

sem aviso,

uma luz

muito antiga

levanta

a cabeça.

 

Não traz

força.

É ela

a força.

 

Tem

os olhos

da criança

que fui.

 

Olha

o mundo

como se

a dor

ainda

não tivesse

aprendido

o meu nome.

 

É por ela

que continuo

a acreditar

que nem tudo

em mim

aceitou

a noite.

 

 

Olhar

A certeza

chegou

de mãos

fechadas.

 

Sabia

o nome

de tudo.

 

Passou

ao lado

do que

não se

anunciava.

 

A intuição

vinha

devagar.

 

Não trazia

respostas.

 

Parava

onde

os outros

não

paravam.

 

Foi aí

que encontrou

o essencial.

 

 

Jogo

Alguns

seguem

o rumor.

 

Eu

escuto

uma folha

a cair.

 

O mundo

permanece

inteiro.

 

Cada um

aprende

uma língua

para chegar

a si.

 

Há quem

regresse

cantando,

 

e quem

regresse

com uma palavra.

 

Ambos

procuravam

casa.

 

 

Tempo

Demorei

tanto

a chegar

que, por vezes,

duvido

do caminho.

 

Ainda ouço

os sonhos

que ficaram

à minha espera:

 

casas acesas

onde nunca

entrei.

 

Passo

por elas

devagar.

 

As janelas

já não

me reconhecem.

 

Talvez

a perda

não seja

o que não vivi,

 

mas continuar

a falar

com quem

imaginei

vir a ser.

 

Mesmo assim,

há uma palavra

que insiste

em abrir

caminho.

 

É por ela

que sigo

a chegar.

 

 

Sombra

Tudo

o que nego

em mim

procura

um rosto.

 

Quando

o encontra,

habita-o

e chama-lhe

outro.

 

 

Rosto

Fui eu

que pintei

o teu rosto

com as cores

que me doem.

 

Depois

chamei-te

inimigo.

 

Nunca

desconfiei

das minhas mãos.

 

 

Alvo

Passei anos

a afiar

flechas

com o teu nome.

 

Só depois

percebi:

 

o arco

que as lançava

tinha a corda

presa

ao meu peito.

 

 

Presença

Se tudo

me faltasse,

 

ainda

me restaria

saber

 

que existo,

sem prova.

 

 

 

Porta

Dores

não desaparecem

quando as fechamos.

 

Aprendem

outra língua.

 

A porta

que não abrimos

continua

a existir.