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sexta-feira, 27 de março de 2026

Quando Cede

Não começa com o fogo,

mas no aperto das margens,

no ar que falha,

no silêncio

que já não é vazio.

 

Algo cede

antes de partir;

há um ponto

em que recuar

deixa de existir.

 

E então,

um gesto:

breve,

irreversível.

 

O resto segue

como o que arde:

sem direção,

nem medida.

 

No fim,

não há vitória;

só o que ficou

por destruir.

 

 

(Poema inspirado num período de intensificação e ruptura, marcado por uma forte concentração simbólica de energia em Carneiro (09/20 Abril). A presença acentuada de Marte reforça essa dinâmica, sugerindo contextos em que a ação precede a reflexão e a tensão tende a escalar.)

 

 


quinta-feira, 12 de março de 2026

Primavera Vermelha

O ar arde,

o mundo treme

nas suas próprias certezas.

 

Ventos de mudança atravessam cidades

e campos,

erguendo medo,

coragem,

impulsos repentinos.

 

Movem-se mãos invisíveis,

vozes que pressionam,

que confrontam,

estruturas vacilam,

pontes se abrem,

pontes se fecham.

 

No meio da fúria,

uma vida teima em crescer,

intacta,

selvagem,

pronta para respirar

de novo.

 

Oráculo do Tempo que Vem

Um novo ciclo levanta-se

sobre brasas antigas.

 

Não será tempo de repouso.

 

Os alicerces do mundo

serão provados pelo fogo,

e muitas certezas

mostrarão ser apenas poeira

erguida pelo hábito dos homens.

 

Erguer-se-ão vozes,

punhos

e sonhos de domínio.

 

Alguns chamarão a isso ordem,

outros chamarão destino.

 

Mas o tempo,

que não pertence a reis nem a impérios,

avançará silencioso,

desfazendo máscaras

e pedindo verdade.

 

Haverá inquietação nas cidades:

decisões à pressa,

caminhos abertos

onde antes havia muralhas.

 

Porque todo início verdadeiro

exige ruptura.

 

E todo renascimento

passa primeiro pela prova.

 

Assim fala o tempo:

 

não temais o estremecer do mundo.

 

Temei apenas

que o coração humano

não aprenda nada

quando o destino bate à porta.

 

 

(Poema inspirado no mapa simbólico levantado para Greenwich, referente ao início do novo ano astrológico, dia 20 de março às 14h46, quando o Sol atinge o ponto vernal.)

 

Quando o Trovão Sobe à Torre

Há momentos

em que o céu envia

um choque às torres

onde os homens pensam

governar o tempo.

 

Então o chão começa

a mover-se

sob os pés daquele

que aprendeu a viver

no centro da multidão.

 

O fogo que o elevou

ergue-se agora contra ele,

como um espelho

de chama.

 

As muralhas do ouro

e das promessas

tornam-se bruma,

e o vento atravessa

cofres, bandeiras

e palavras antigas.

 

Não é o ódio que derruba

os tronos,

mas o instante

em que o mundo decide

mudar de pele.

 

E nesse momento

até os homens feitos de palco

e relâmpago

descobrem que o trovão

não pertence a ninguém.

 

 

 

 

Oráculo do Limiar

O mundo aproxima-se de uma porta estreita.

Atrás dela dormem séculos antigos

e pactos que já não sabem respirar.

 

As casas dos poderosos ainda estão de pé,

mas suas fundações escutam passos vindos de longe.

 

Alianças que pareciam eternas

começam a olhar-se com desconfiança,

como irmãos que de súbito

descobrem ter herdado a mesma espada.

 

Os povos inquietam-se,

não por fome apenas,

nem por guerra apenas,

mas porque sentem no sangue

que o tempo mudou de curso.

 

Velhas promessas dissolvem-se

como sal que se perde na água.

 

Outras, mais duras,

tentam erguer-se do pó.

 

No alto das torres,

uma força súbita atravessa o céu,

derrubando certezas

que pareciam feitas de pedra.

 

Nada do que foi seguro

permanece intacto.

 

Quando os mundos envelhecem

não caem de uma vez.

 

Primeiro tremem fronteiras,

depois palavras,

depois sonhos.

 

Mas no lugar onde os sistemas se quebram

abre-se sempre uma clareira invisível.

 

Ali,

longe do ruído das bandeiras

e da vaidade dos impérios,

o humano reaprende lentamente

o gesto antigo da liberdade.

 

Pois nenhuma era termina

sem que outra

comece a respirar.

 

quinta-feira, 5 de março de 2026

Teoria da Cadeira

Há pessoas

que não chegam para ficar,

chegam como quem procura assento

numa sala já habitada.

 

Testam o conforto,

e encostam o corpo

à estabilidade que não construíram.

 

Enquanto a madeira sustenta,

permanecem.

 

Confundimos peso com presença,

frequência com raiz

e palavra com permanência.

 

Mas quem ocupa

não atravessa tempestades,

não segura a mesa

quando o chão treme,

nem repara rachaduras.

 

Levanta-se

quando o ambiente aquece,

como se nada ali

lhe pertencesse.

 

Não é maldade;

é ausência de intenção.

 

Há quem queira casa

e quem queira apenas abrigo.

 

Aprender a diferença

é deixar de implorar

que alguém permaneça sentado

onde nunca desejou criar raízes.

 

A cadeira não arde por abandono,

arde por lucidez.

 

E quando o fogo passa,

fica o espaço livre

para quem não teme o calor

de permanecer.