Seguidores

terça-feira, 26 de maio de 2026

Par

O corpo reconhece

mais de um fogo.

 

Mas há mãos

que permanecem

mesmo depois do desejo

mudar de direção.

 

Nenhum animal

constrói promessas.

 

Somos nós

que inventamos duração

para proteger

o que não sabe ficar.

 

Ainda assim,

há noites

em que o desejo

olha para longe

como se a distância

também fosse uma forma

de memória.

 

Escala

Um sinal mínimo

abre o espaço inteiro.

 

Nada é pequeno

quando entra sem limite.

 

O que era leve

ganha peso de pedra

sem mudar de forma.

 

E o mundo encurta-se

até ao instante

em que nada

pára.

 

Há dias em que o olhar

não mede

e amplia.

 

E tudo o que passa

não se vai.

 

 

Raízes

Nunca tive raízes

profundas.

 

No início,

acreditei na força

das árvores maiores,

mas os troncos

também cediam por dentro.

 

Aprendi cedo

a escutar o vento

antes da tempestade.

 

Não fiquei.

 

Fui passando entre sombras

provisórias,

amparando‑me

a sombras de raízes

que ainda resistiam.

 

Houve árvores breves,

lugares onde o corpo abrandava

por instantes,

antes de voltar ao movimento.

 

Talvez por isso

nunca tenha aprendido

a fixar‑me.

 

Criar raízes

sempre parecia

outra forma de perigo.

 

E há dias

em que o cansaço

já não procura abrigo:

 

às vezes quero

deixar que me leve,

outras vezes

o vento move‑me

como galho solto.

 

Sem margem

Há uma ferida

por baixo dos passos.

 

Nenhum caminho

aprende o meu peso.

 

À noite imagino paredes,

um lugar onde o vento

não atravessasse o corpo.

 

Mas o dia abre‑se sempre

como rua sem margem.

 

E sigo entre rostos

que se acendem e se apagam,

movido pela corrente

que me percorre sem ficar.

 

 

Fratura

O homem aprende

a ferir

e a estender a mão.

 

Nenhum gesto

cancela o outro.

 

Às vezes chama beleza

ao instante breve

em que consegue

não obedecer

ao pior de si.

 

Estado de Exceção

No início

a morte pesa.

 

Os corpos interrompem o discurso,

as imagens ferem,

há nomes

que não atravessam a garganta.

 

Depois, o hábito

reorganiza a visão;

o horror deixa de ser horror

para passar a contexto.

 

As ruínas tornam-se cenário,

as crianças, número.

 

O sangue aprende

a circular na linguagem;

há um momento

em que a violência já não precisa

de justificar-se.

 

Basta repetir

que o perigo permanece.

 

Então o mundo divide-se

entre vidas protegidas

e vidas atravessáveis.

 

E talvez seja aí

que a consciência falha mais:

 

não quando o ódio começa,

mas quando o sofrimento do outro

deixa de interromper

o funcionamento do dia.

 

 

Prevenção

Começa devagar.

 

Uma recusa pequena,

um desvio,

o cuidado de não tocar

no que regressa.

 

Depois vêm os cálculos,

as rotas alternativas,

as palavras evitadas

como portas interditas.

 

A mente aprende

a vigiar antes do impacto;

constrói distância,

organiza silêncio,

reduz o mundo

ao que não ameaça.

 

Mas o que era proteção

vai alterando o espaço.

 

Os dias passam a mover-se

dentro de margens estreitas.

 

E há momentos

em que já não se sofre

pelo que feriu,

 

mas pelo esforço contínuo

de manter fechada

a mesma passagem.

 

 

Intervalo

A mente não erra,

força.

 

Ergue imagens,

já condenadas;

sabe.

 

Não para iludir;

ferir o real

com o que ainda nele

não cabe.

 

A lucidez intervém:

nomeia,

reduz,

corrige.

 

O desejo não cessa;

recomeça

no mesmo ponto

onde é desmentido.

 

Entre ambos,

desgaste:

um espaço

sem concessão;

um insiste em fechar,

o outro, rasgar.

 

E é aí

que se vive,

não entre o que é

e o que falta,

mas no atrito contínuo

 

de um mundo suficiente

para negar

e insuficiente

para calar.

 

 

Padrão Instável

O pensamento escava

a origem

no mínimo da matéria,

como se um ponto

pudesse conter o mundo.

 

A consciência

não se fixa:

emerge entre formas,

habita o provisório,

acende-se

onde o padrão falha.

 

Continuidade Oculta

Não é apenas a morte

que aproxima.

 

Há falhas

partilhadas

sob nomes

que variam.

 

O corpo adoece,

o pensamento rompe,

o impulso excede

a ordem que o contém.

 

Cada sociedade

distribui fronteiras

para separar o desvio.

 

Mas o que exclui

permanece possível

em todos.

 

O que se separa

continua.

 

O humano

não se divide totalmente

entre ordem

e ruptura.

 

Continuidade

O que subsiste

não se torna outro.

 

A vida

não recomeça;

prossegue.

 

Há instruções antigas

em matéria nova.

 

O que produz,

divide,

recompõe,

não nasce do zero;

persiste.

 

As diferenças

assentam no que veio antes.

 

O novo

não anula

o que fica.

 

Há continuidade

sem consciência de si.

 

O corpo humano

não rompe

a sequência;

prolonga-a.

 

Cada existência

transporta vestígios

de outras.

 

O tempo

não separa

o que evolui;

reorganiza.

 

Regime de Discordância

Há verdades fora do consenso

e consensos cegos ao que excluem.

 

O que se estabelece

antecipa o que pode ser visto,

o que diverge

permanece sem lugar.

 

Entre autoridade e real há desvio.

Entre recusa e lucidez, também.

 

O risco

não é discordar,

mas tomar a discordância

por verdade.

Língua do Limite

Tudo o que cresce depressa

aprende, sem saber,

a língua do limite.

 

O calor acelera

a vida

até que o auge

se torna limiar.

 

Depois,

o impulso

começa a desfazer.

 

Há um ponto invisível

onde prosperar

já é começar a cair.

 

Nos lugares

estáveis,

a vida aproxima-se

da sua margem.

 

Qualquer desvio

reduz o possível.

 

A adaptação

não é fuga,

mas negociação

com o estreito.

 

Ajustar-se demais

é perder

a folga de existir.

 

Nem todo avanço sustenta,

nem todo ápice perdura.

 

Há um excesso

que rompe

a continuidade

em silêncio.

 

 

 

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Dupla Moral

Palavras erguem

fachada de virtude.

 

Atos seguem

outra lei,

silenciosa.

 

Leis para exibição,

usos para o real.

 

O que se condena

permanece em uso.

 

Há formas de ordem

que se mantêm

no que se cala.

 

O mundo roda

sobre o indizível,

e finge não saber.

O que se evita

O que se evita

não desaparece.

 

Fica

onde não se olha,

antes de surgir.

 

O que se encara

nem sempre termina.

Muda de lugar.

 

Há o que regressa

sem se mostrar.

 

E o que passa

não é fim;

o mesmo

noutro lugar.

Dor sem nome

O que se repete

não nasce da escolha.

 

formas de suspensão

onde cessa

sem cessar.

 

O corpo prolonga

o que ficou

onde o passado

não terminou.

 

Não se interrompe

o que continua.

 

O que começa na falta

continua ativo

onde já não há origem.

 

Projeção

O que se ajoelha

nem sempre toca o divino.

 

Há pedidos

que regressam

ao lugar de origem.

 

Nem toda a entrega

abandona o centro.

 

O que procura proteção

continua ligado

ao que teme perder.

 

Há deuses

erguidos

na medida da falta.

 

E formas de fé

que não se abrem ao invisível;

prolongam o humano.