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quinta-feira, 16 de julho de 2026

Confissão

Nem sempre

aquilo que dizemos

fala do mundo.

 

Muitas vezes,

fala

do lugar

de onde

o olhamos.

 

 

Mirí

Pela escotilha

via-se tudo:

 

o mar,

o fogo,

as mães,

as crianças.

 

O mais difícil

não foi olhar,

 

foi continuar

sem ver.

 

(Em memória de Tomé Lopes, que deixou escrito: «lembrarei toda a minha vida».)

 

 

 

A Amizade

A amizade é isto.

 

Não caminhar à frente

para mostrar o caminho.

 

Nem atrás

para empurrar.

 

Mas ao lado,

até que o caminho

volte

a reconhecer-nos.

 

 

A Caverna

É possível que ainda nos habite

uma caverna.

 

Um lugar antigo

onde o estranho

veste a forma

do perigo.

 

Mas há também

uma janela.

 

E foi por ela

que a humanidade aprendeu,

devagar,

a reconhecer um irmão

onde antes via

apenas

o escuro de um rosto.

Espera

A existência não desaparece

quando nos faltam as forças.

 

Apenas se recolhe

para um lugar mais fundo,

onde o silêncio aprende

a esperar.

 

Há dias em que o corpo

baixa a voz.

 

E, ainda assim,

algo em nós

permanece

de pé,

quieto,

à escuta

do que há de voltar.

 

 

 

A Luz

Não é o amor que mais nos assusta.

 

É a luz que ele acende sobre quem somos.

 

Amar é tornar visível

uma parte de nós

 

que já não consegue esconder-se.

 

 

O Regresso

O passado não nos chama.

Somos nós que regressamos.

 

Até que um dia a consciência se senta ao lado da memória

 

e lhe fala como quem pousa a mão sobre uma ferida:

 

"Já não precisas de abrir esta história para saber que ela é tua."

 

Tradução

Não somos vistos.

Somos traduzidos.

Cada olhar reescreve-nos

na linguagem de quem olha.

 

Por isso,

não procures habitar

a imagem que fazem de ti.

 

Habita apenas

a verdade

com que te ofereces.

 

O resto

pertence ao mistério

de cada encontro.

 

Manhã

Manhãs que não trazem respostas.

Trazem apenas

uma nova oportunidade

de fazer

a mesma pergunta

com um coração

mais tranquilo.

Os hábitos

Os hábitos não vivem apenas nas mãos.

 

Moram no movimento antigo do corpo.

 

Aprendem o ritmo das nossas alegrias.

 

E também o da dor.

 

O corpo não os larga.

 

Não porque os ame.

 

Mas porque, durante tanto tempo,

 

foram eles que conheciam

 

o caminho de regresso a casa.

 

 

O Príncipe e o Poeta

Entrei numa livraria.

 

Um príncipe esperava-me há cinco séculos.

 

Peguei-lhe nas mãos.

 

Li-lhe o silêncio.

 

E voltei a pousá-lo.

 

Ainda não.

 

Talvez noutro dia.

 

Disseram-me que governar é conservar o reino.

 

Mas pensei:

 

quem veste uma coroa não deveria vestir também a alma do povo?

 

De que servem as muralhas intactas,

 

se, por dentro,

 

as consciências desabam?

 

Governar talvez seja

 

o mais solitário dos ofícios.

 

Escolher

 

quando nenhuma escolha permanece inteira.

 

Responder

 

por vidas que nunca caberão na própria vida.

 

Então alguém perguntou:

 

— Que espécie de homem te tornarias enquanto governasses?

 

Não soube responder.

 

Talvez porque algumas perguntas não procuram resposta.

 

Apenas uma vida.

 

Sorri.

 

E disse:

 

prefiro ser poeta.

 

Não porque os poetas sejam mais puros,

 

mas porque lhes é permitido continuar a perguntar

 

quando os príncipes

 

já não podem adiar a decisão.

 

Ainda acredito

 

que houve governantes que serviram antes de mandar,

 

que compreenderam

 

que nenhuma fronteira delimita a humanidade.

 

Mas sei também

 

que o poder pesa mais do que as mãos.

 

Por isso

 

fico.

 

Entre os livros.

 

À espera

 

de um verso

 

que governe

 

o pequeno reino

 

da consciência.

 

 

 

 

Ao Fim da Rua

O tempo não anda: respira.

 

Por vezes, estende-se como sombra cansada;

 

outras, foge, ave súbita, das mãos distraídas.

 

Dentro de nós, alguém o torce:

 

faz dele um fio tenso quando dói,

 

ou um sopro breve quando arde de luz.

 

E caminhamos.

 

Sempre caminhamos.

 

Até que a rua se esgota nos olhos,

 

e ficamos diante do invisível,

 

como quem chega

 

sem nunca ter deixado de partir.

 

Depois

Não te apresses a voltar a quem eras.

 

Os tempos difíceis também nos esculpem.

 

E, quando passam, nem sempre nos devolvem,

 

deixam-nos alguém que aprende o mundo com um pouco mais de ternura.

 

 

Fragmento

Os deuses envelhecem quando deixamos de acreditar neles.

 

Os mitos permanecem porque continuam a acreditar em nós.

 

Porque continuamos a precisar de Zeus, de Ísis, de Orfeu ou de Prometeu para falar de nós?

 

E se os mitos tiverem sido inventados não apenas para explicar o mundo,

 

mas para impedir que nos esquecêssemos de quem somos?

 

 

 

Disponibilidade

Não te esperarei.

 

Esperar conta o tempo.

 

Permanecerei disponível.

 

Porque há regressos que não interrompem a ausência.

 

Mostram apenas que o caminho nunca deixou de existir.

 

 

 

Regresso

Não é a luz que fica.


Somos nós que, muito tempo depois, ainda sabemos o caminho até ela.

 

Janela

Há conversas que terminam.

 

Outras permanecem em nós como a luz numa janela depois de nos afastarmos da casa.

Co-visão

Nunca

vemos sozinhos.

 

Há sempre

um olhar alheio

a completar o nosso.

 

Antes do Nome

No princípio,

ninguém pertencia a ninguém.

 

Havia apenas o frio, a fome, o nascimento e a morte.

 

O fogo reunia os corpos,

a noite igualava os rostos.

 

Depois,

aprendemos a contar

as colheitas,

os animais,

a terra,

os filhos.

 

E, sem percebermos,

começámos a contar também as pessoas.

 

Foi então que a força se confundiu com o direito

e o amor, com a posse.

 

Inventámos deuses.

 

Alguns ensinaram a compaixão,

outros aprenderam a falar a voz do poder.

 

Não eram eles que exigiam.

 

Éramos nós.

 

Porque o medo procura sempre uma eternidade que o proteja.

 

Desde então,

o homem e a mulher

olham-se através de séculos

que ainda não terminaram.

 

Mas, por vezes,

uma criança estende a mão sem perguntar quem deve ir primeiro.

 

Talvez

a história não avance quando inventa novas máquinas.

 

Talvez avance

quando alguém deixa de precisar de estar acima

para finalmente caminhar ao lado.

Vestígio

Nem todas as perguntas procuram respostas;

algumas apenas nos habitam.

Passamos a vida a dar nome àquilo que somos, como se uma palavra pudesse conter uma existência.

Talvez não tenhamos vindo para chegar,

apenas para sermos vestígio.

 

Entre o primeiro sopro e o último silêncio,

passamos.

 

Sei apenas que, por um breve instante, a matéria encontrou em mim uma forma de se olhar.

 

Procurei-me

nos caminhos,

nas palavras,

nos silêncios,

nos rostos.

 

Restaram sinais.

 

Continuo a pergunta.

 

 

Cartografia

Nascemos

sem mapa.

 

Primeiro, aprendemos

o frio do calor,

a fome do pão,

o abrigo da tempestade.

 

Muito depois,

descobrimos que sobreviver

não respondia.

 

Então demos nomes

às estrelas,

ao tempo,

ao amor,

aos deuses.

 

Como se nomear

diminuísse o mistério.

 

Mas o mistério

não recuou:

aprendeu

a caminhar connosco.

 

Houve quem procurasse o sentido

no alto das montanhas,

nos livros,

no futuro.

 

Houve quem o visse, por um instante,

na água

que reflectia o céu

sem o guardar.

 

Talvez o sentido

nunca tenha sido

um lugar.

 

Talvez seja

a forma como atravessamos o desconhecido

sem deixar de reconhecer

que a mesma luz

habita

a folha,

a pedra,

o rosto,

a estrela.

 

Quando o caminho terminar,

não sei o que permanecerá.

 

Gostaria apenas

que o silêncio

reconhecesse

que passei

sem estreitar o mundo.

 

 

Passagem

Não escolhemos a primeira pergunta.

Ela chega antes da boca, antes do nome.

Passamos a vida
a aprender uma língua
capaz de a suportar.

Alguns chamam-lhe filosofia,
outros, ciência,
outros, oração.

Eu
inclinei-me para a poesia.

Hospedagem

As palavras acolhem-nos.

 

A vida abriga-nos.

 

O tempo contém-nos.

 

Nunca fomos donos de nada.

 

Fomos sempre hóspedes.