Seguidores

sábado, 20 de junho de 2026

Liberdade

És livre.

E isso não te conduz.

 

Não há chão.

 

Caminhos desaparecem

quando ninguém os aponta.

 

O que sobra

não é direção.

 

É espaço.

 

Perdes-te.

Sem resistência.

 

Leitura

Não é número.

É o que fica

depois de fechar.

 

Páginas passam.

Outras ficam

a trabalhar por dentro.

 

Alguns livros

não se acabam:

continuam em silêncio.

 

 

 

Impulso

Não foi surpresa.

O gesto já me habitava.

Antes da escolha,

já lhe conhecia a sombra.

 

Mas há margens

que só se alcançam confiando.

 

E, ainda assim,

soltei o trinco.

 

Há coisas que não regressam.

Regressam-nos.

 

 

 

 

Valor

Quanto mais se mostra,

menos fica por descobrir.

 

E há coisas que vivem

do que não se diz.

 

Crescem em silêncio.

 

Outras murcham à vista.

 

 

 

Perceção

O objeto está ali.

 

Mas o olhar

não chega limpo.

 

Recria.

 

Escolhe.

 

E chama mundo

ao que consegue ver.

 

 

 

De Pé

Nem sempre é força.

 

Às vezes

é apenas

continuar de pé.

 

Quando seria mais fácil

ceder ao chão.

 

 

 

Economia

Nem toda discordância

merece voz.

 

Há silêncios

que chegam antes.

 

 

Casa

Nem toda a porta dá para uma sala.

 

Algumas abrem-se para uma ferida.

 

Quando alguém te deixa entrar,

deixa do lado de fora

os olhos do julgamento

e a voz da praça.

 

 

 

Projeto

Não há vazio no mundo.

 

Há apenas alguém

que ainda não acabou de se olhar.

 

 

Governo

Quem decide por todos

deveria desconfiar

das próprias certezas.

 

Pois há convicções

capazes de mudar o mundo,

e nem todas

o melhoram.

 

 

 

 

Consequência

Expulsaram o que temiam.

E o medo ficou.

 

Mas não veio sozinho.

 

Trouxe consigo

aquilo que ninguém viu chegar.

 

 

 

Desculpa

Há quem diga

que nada muda

e se sente.

 

Mas nem todo o escuro

é desistência.

 

Às vezes

é apenas

a maneira

como a noite vê.

 

 

 

 

Vestígio

Não escrevo para ser poeta.

 

Escrevo para que alguma coisa permaneça.

 

Nem que seja apenas

um pensamento

a mudar de lugar.

 

 

 

Manhã

A manhã chega,

mas não entra.

 

Fica à porta,

à espera.

 

O corpo levanta-se

e cumpre gestos.

 

A vida continua

sem se reconhecer.

 

 

Persistência

Há dias

em que atravessar uma sala

parece excessivo.

 

E, no entanto,

o corpo chega

ao outro lado.

 

Ninguém vê.

 

Mas também isso

é uma forma de resistência.

 

 

 

Integração

Passamos anos a afastar-nos,

não por erro,

por necessidade.

 

Até que algo em nós

começa a chamar pelo nome antigo.

 

Regressamos,

não ao que fomos,

mas ao que ficou à espera.

 

 

Interlocutor

Nem sempre procuro razão.

 

Procuro alguém

que permaneça à mesa

mesmo depois da certeza.

 

Alguém capaz

de trocar uma resposta

por uma pergunta.

 

Porque há ideias

que só acontecem

entre duas vozes.

 

 

 

 

Tempo

Não falta tempo.

 

Falta presença.

 

O resto

chama-se distração.

 

 

 

Morada

Uma palavra pesa.

 

Outra

nem tanto.

 

Não por diferença,

mas pelo lugar

onde repousa.

 

 

Göbekli Tepe

Antes da história,

 

alguém ergueu pedras

para dizer: estive aqui.

 

Depois,

cobriu-as de terra.

 

E a terra guardou

essa frase

durante dez mil anos.

 

Nas pedras reunidas,

alguém procurava

o que não se toca.

 

 

 

Ritmo

Nem todos caminham na mesma luz.

 

Há quem avance,

há quem resista.

 

De longe,

parecem só mais lentos.

 

Mas a distância

não sabe

o peso que cada um traz.

 

 

Quase Nada

Sou uma presença breve.

 

O mundo não depende de mim.

 

Enquanto existo, altero uma pequena parte.

 

Para o universo, quase nada.

 

Para quem a habita, tudo.

Escritura

Recebemos um nome antes de o escolher.

 

Uma história antes de a ouvir por inteiro.

 

Aprendemos o já dito.

 

Durante séculos,

mãos passaram mãos,

vozes passaram vozes.

 

Umas quiseram compreender,

outras impor caminho.

 

O texto cresceu:

ganhou margens, comentários, altares.

 

O homem ficou ao fundo.

 

Cada geração deixou a sua camada.

 

E houve um tempo

em que já não distinguíamos memória de leitura,

nem o rosto da luz que o envolvia.

 

Então começámos a ler de outro modo:

não para desfazer a herança,

mas para tocar o que nela persiste.

 

 

 

 

Limiar

Às vezes, o erro abre a porta e entramos.

 

Outras, a porta abre-se e ficamos fora.

 

Nem toda a cegueira vem da noite.

 

Há quem se perca a seguir uma sombra.

 

Há quem se perca por recusar a luz.

 

 

Regresso

Passamos anos a escolher, uma coisa em vez de outra; uma voz, um caminho, um modo de estar.

 

O que fica de fora parece perder-se, mas subsiste.

 

Não como perda, como parte.

 

Chega um momento em que já não perguntamos quem queremos ser, apenas o que recusamos em nós.

 

Então regressamos, não ao passado;

 

a uma inteireza que não sabíamos existir.

 

 

Mesa

Lemos para compreender.

 

Aprendemos nomes, datas, ideias que atravessam séculos.

 

Reconhecemos a injustiça nos livros.

 

Identificamos o erro à distância.

 

Mas nem sempre escutamos o que sofre ao lado.

 

O pensamento alcança continentes.

 

Às vezes, não atravessa a mesa.

 

Sabemos da fragilidade em teoria.

 

A proximidade pede outra aprendizagem.

 

Compreender não se mede pelo que sabemos dizer,

 

mas pelo que fazemos quando a vida real interrompe a certeza.

 

 

 

 

Durante muito tempo procurámos a ponta.

 

Acreditávamos que todo o enredo escondia um início, e que bastava encontrá-lo.

 

Mas alguns nós crescem de tal modo dentro das coisas que já não pertencem a quem os fez.

 

Passam de mão em mão, de nome em nome, até parecerem a própria forma do caminho.

 

Há quem os corte.

 

O gesto é rápido.

 

A dificuldade desaparece.

 

Mas nem sempre o que desaparece é o problema.

 

Às vezes, o nó guardava apenas o percurso.

 

E é depois do corte que nos perdemos.

 

 

Barranco

Há lugares onde a terra aprende a guardar peso.

 

Não se diz o que lá aconteceu, porque o dizer chega sempre tarde.

 

Chegam primeiro as ordens, depois os passos, depois o modo de fazer caber o que já não cabe em ninguém.

 

A voz que chama nomes não os chama como nomes, só como ausência de resposta.

 

Há roupas no chão que já não são roupas, apenas forma interrompida de alguém.

 

A manhã não distingue. A luz percorre o mesmo caminho sobre tudo.

 

E ainda assim, o mundo continua a usar palavras limpas para organizar o que não tem limpeza.

 

Há sempre uma margem onde o que foi humano deixa de ter contorno e passa a ser apenas registo.

 

Depois, quando o silêncio regressa, não regressa inteiro.

 

Fica preso entre o que se conta e o que não pode ser contado.

 

E é aí que a terra continua a lembrar, sem linguagem, o que a linguagem não conseguiu deter.

 

 

 

Raiz

Há quem parta cedo.

 

Há quem fique junto da mesma sombra.

 

Não por falta de caminho, mas porque certas raízes continuam a crescer depois da árvore.

 

A casa não termina nas paredes.

 

Segue na voz, na memória, no olhar.

 

Durante anos, julgamos habitar um lugar.

 

Só mais tarde percebemos que o lugar também nos habitava.

 

E que partir não era abandonar a terra,

 

mas descobrir onde ela acabava.

 

 

Contagem

Os adultos trazem mapas.

 

Traçam linhas, apontam razões, erguem nomes para o que fazem.

 

A terra aprende novas fronteiras, as palavras novas defesas.

 

Mas uma criança não cabe num argumento;

não sabe o tamanho de um Estado, nem a idade de uma disputa.

 

Conhece uma janela, um copo, uma voz que regressa ao fim do dia.

 

Depois vêm os números.

 

Sobem, descem, ocupam lugares nos relatórios.

 

E a contagem continua.

 

Mas há sempre algo que fica de fora:

 

o peso de um caderno por abrir,

 

uma cadeira que guarda a forma de um corpo,

 

um nome que deixa de responder.

 

Os adultos continuam a explicar.

 

A criança, essa, permanece

 

onde todas as explicações terminam.

 

 

Escala

O céu abre-se

e julgamo-nos

pequenos.

 

Uma luz

atravessa milhões de anos

até chegar aos olhos.

 

Pensamos:

não somos nada.

 

Mas há mundos

que não conhecem

o mesmo céu;

vivem sob a pele,

entre correntes invisíveis,

percorrendo distâncias

que não têm nome.

 

Para eles,

somos o território.

 

Nenhum deles

verá a curva da Terra,

nem a noite

cheia de galáxias.

 

Como nós,

também habitam

o limite

do que alcançam.

 

Talvez o erro

não esteja na medida,

mas na procura

de uma medida

final.

 

O que nos excede

chama-nos ínfimos;

o que nos habita

vê-nos imensos.

 

E entre uma escala

e outra,

continuamos sem saber

o tamanho

que temos.