Seguidores

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Antes do silêncio

Primeiro,

as palavras.

 

Ainda não eram violência,

mas já tinham deixado

de procurar entendimento.

 

Depois,

as respostas.

 

Cada uma,

um pouco mais perto

do confronto.

 

Quem tinha poder

quis mostrá-lo.

 

Quem o disputava

não recuou.

 

Entre ambos,

levantaram-se limites

que ninguém sabia

se seriam respeitados.

 

E o poder

tornou-se ameaça.

 

O mundo continuou.

 

As ruas encheram-se

de vozes,

as casas

de notícias,

os ecrãs

de números

que depressa

deixaram de ser números.

 

E então,

alguém sentiu.

 

O medo.

A raiva.

A perda.

 

Aquilo que durante dias

pertencera aos outros

entrou em casa.

 

Ninguém sabia

onde terminaria.

 

Foi esse

o momento

em que deixámos

de compreender.

 



(Poema inspirado no céu entre 2 e 5 de outubro 2026)

 

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Regresso

A morte chegou

sem me perguntar.

 

Por um instante,

não havia nada

a decidir.

 

Depois,

alguém chamou

o meu corpo de volta.

 

Renasci.

 

Não sabia

que regressar

também podia ser

uma forma de ficar.

 

A vida esperava-me

onde a deixara

 

mas já não era a mesma.

 

Havia coisas para fazer,

pessoas para cuidar,

dias para atravessar.

 

E eu,

que tinha estado morto,

voltei a perguntar

o que fazia cá.

 

Talvez a medicina

saiba devolver

um coração.

 

Não sabe

o que fazer

com quem regressa.

 

E continuo.

 

Não por ter escolhido.

Apenas porque escolheram.

 

 


À parte

Entrei em muitos lugares.

 

Ouvi quem falava

como quem sabia.

 

Fiquei.

 

Escutei as palavras,

os aplausos,

o silêncio

de quem já tinha escolhido.

 

Depois saí.

 

Nunca quis

uma verdade

que precisasse

de todos.

 

Talvez porque saiba

que também eu

posso acreditar.

 

E quando isso acontece,

já não sou eu

a decidir.

 

Há sempre alguém

que conhece o caminho.

 

O perigo começa

quando deixamos

de perguntar

para onde vai.

 

 

Autobiografia

Para escrever a minha vida

precisaria

de outra vida.

 

A primeira

já não me cabia.

 

Faltavam nomes,

dias,

coisas que aconteceram

e que a memória apaga.

 

Começaria

pelo que ainda recordo.

 

Depois,

pelo que imagino

ter acontecido.

 

E, enquanto escrevesse,

outra vida

iria nascendo.

 

Nunca chegaria ao fim.

 

Seria o escritor

de um homem

que já não sou.

 

E teria de escrever

também essa história.

 

 

 

Caminho

Conhecíamos

o caminho mais curto.

 

Sabíamos onde virar,

onde não entrar.

 

Mesmo assim,

voltávamos sempre

pelo mesmo trajeto.

 

O medo

de nos perdermos

era maior

do que a vontade

de chegar.

 

Um dia,

já não sabíamos

se estávamos perdidos

 

ou apenas

onde sempre estivemos.

 

 

Distância

Estamos longe

de tudo.

 

A estrela mais próxima

leva anos

a chegar até nós.

 

E, no entanto,

todas as noites,

o céu parece imóvel.

 

Julgamo-nos parados

porque não vemos

o movimento.

 

A Terra gira.

O Sol atravessa

a galáxia.

 

E nós,

sem sairmos do mesmo sítio,

vamos passando

por tudo.

 

 

 

Circunstância

Hoje sei

o que não faria.

 

Amanhã,

não sei.

 

Entre um dia

e o outro,

há o medo,

a fome,

o poder,

alguém que depende de mim.

 

Uma pessoa

começa por ceder

sem dar por isso.

 

Cede pouco.

Depois, mais um pouco.

 

Até que já não sabe

qual das mãos

começou a obedecer.

 

 

 

O chão

A árvore conhecia

a força das raízes.

 

A casa,

a profundidade

da fundação.

 

Debaixo de ambas,

a terra continuava

a mover-se.

 

Uma noite,

o monte cedeu.

 

Ninguém perguntou

ao chão

se ainda era chão.

 

Na manhã seguinte,

nada ficou

onde antes

havia lugar.

 

 

 

 

A pedra

Alguém atirou uma pedra.

 

O outro

devolveu-a.

 

Depois,

já ninguém sabia

quem começara.

 

Cada um guardava

um morto

para justificar

o seguinte.

 

A pedra passou

de mão em mão.

 

Os que a atiravam

já não eram

os mesmos.

 

Mas a pedra

continuava.

 

 

Quem sou

Passei anos

a aprender o meu nome.

 

Reconheci-me

no espelho,

nas fotografias,

nas palavras

que me escreveram por dentro.

 

Fui juntando

certezas.

 

Até descobrir

que algumas

não eram minhas.

 

Procurei-me

mais fundo.

 

Quanto mais avançava,

mais espaço

encontrava.

 

E quanto mais me aproximava,

menos sabia

quem procurava.

 

 

De Onde Olhar

Julgávamos conhecer

o lugar onde estávamos.

 

Medíamos a distância,

dávamos nome ao desconhecido.

 

Chamávamos verdade

ao que conseguíamos alcançar.

 

Um dia,

alguém há de descobrir

uma porta

onde tomávamos por certo

apenas um rochedo.

 

E nós,

mais uma vez,

sem saber

de onde olhar.

 

 

Um nome

Fica depois de nós.

 

Escrevem-no

em pedras,

livros,

memórias.

 

Fica o que interessa

aos vivos.

 

Contam a vida

como quem escolhe

o que deve ser dito.

 

Ninguém conta

o que não viu.

 

O medo escondido,

a palavra calada.

Aquilo que só aconteceu

por dentro.

 

A vida foi outra coisa.

 

O que ninguém soube,

nem poderá saber.

 

Restou um nome

e uma história

que já não tem

quem a corrija.

 

 

Depois

Quando a minha avó morreu,

eu ainda era

quem a podia perder.

 

Durante muito tempo,

a ausência

teve o seu lugar.

 

Hoje,

se a encontrasse,

não saberia

o que dizer.

 

Ela ficou

na idade em que partiu.

 

Atravessei 

outros medos,

outras perdas.

 

E a mulher

que guardei comigo

foi mudando

sem envelhecer.

 

Os mortos

não envelhecem.

 

Somos nós

que os mudamos

sempre que voltamos

a lembrá-los.

 

Ficamos

diante de alguém

que a memória

já não devolve.

 

 

Aqui jaz

Aqui jaz

o Engenheiro.

 

O nome vem depois.

 

Antes dele,

o título.

 

Na pedra,

a profissão ainda o acompanha.

 

Parece que ninguém soube

como deixá-la

do outro lado.

 

Debaixo da terra,

já não há obras,

nem projectos,

nem assinaturas.

 

Ficou a pedra.

 

E nela,

 

Engenheiro

 

 

 

O que ficou

Havia coisas

que eram nossas.

 

Falávamos

sem precisar

de as explicar.

 

Depois,

a vida foi levando

cada um

por outros caminhos.

 

Vieram outros

tempos,

pessoas,

maneiras de olhar.

 

Quando nos reencontrámos,

ainda sabíamos

os nomes um do outro.

 

Mas já não sabíamos

o que fazer

com o silêncio entre eles.

 

Nada tinha acontecido.

 

Apenas deixámos

de chegar

aos mesmos lugares.

 

E foi ficando,

entre nós,

uma distância

que ninguém via.

 

Um dia

percebemos:

 

já não havia

onde nos encontrarmos.