A lei é uma porta, dizem.
Mas nem todos chegam
com a mesma chave.
Alguns entram cedo,
outros esperam anos.
O processo cresce
como algo vivo.
E há quem fique
antes da decisão.
Não é a regra que varia.
É o corpo
que atravessa.
Arte
A lei é uma porta, dizem.
Mas nem todos chegam
com a mesma chave.
Alguns entram cedo,
outros esperam anos.
O processo cresce
como algo vivo.
E há quem fique
antes da decisão.
Não é a regra que varia.
É o corpo
que atravessa.
Não é o brilho,
mas o modo como o susténs.
Há quem erga luz
como quem tapa uma fenda,
e quem a deixe cair
sem urgência de provar.
O excesso denuncia-se
não pelo ouro,
mas pelo gesto repetido
de o mostrar.
Vi mãos cheias
a falar baixo,
e outras vazias
a bater no peito,
como se fosse preciso
convencer o ar.
Talvez a medida
não esteja no que se vê,
mas no intervalo
entre mostrar
e precisar que vejam.
Uma porta não pergunta
de quem são as mãos
que a empurram.
A casa nem sempre sabe
de onde vem o nome que a sustenta.
Há mãos que chegam depois
e ainda assim seguram
o que não lhes pertence
como se fosse chão.
E há palavras antigas
que tentam fixar o sangue
num mapa demasiado pequeno
para caber o que muda.
No meio,
alguém fala de origem
como se fosse destino.
Mas a origem é móvel,
como tudo o que respira.
E há vínculos
que não pedem prova,
nem raiz,
nem assinatura.
Só presença.
Há quem transborde
e quem procure preencher.
Ambos parecem iguais
de longe.
Mas um nasce do excesso,
outro da falta.
Nem tudo o que excede
vem da ausência.
Às vezes é forma
sem contenção.
E ficamos entre isso:
o que tenta caber
e o que não cabe.
Por vezes,
tudo parece encaixar.
Um movimento encontra resposta,
o oculto cede,
algo persiste
onde foi deixado.
Mas não dura.
Há desvios sem retorno,
o que é falso permanece,
e o esforço dispersa-se
sem deixar rasto.
Fica um espaço limpo,
sem regra,
sem promessa.
E ainda assim,
continuamos
a desenhar linhas no que escapa,
como se bastasse
traçá-las
para que existam.
Ele senta-se antes de chegar,
em silêncio,
como se já tivesse estado ali.
Encosta-se ao dia
e mede-lhe os movimentos
antes de existirem.
Há uma luz que se adianta
e torna tudo mais nítido
do que o instante consegue acompanhar.
O presente fica um pouco atrás,
sem protesto,
apenas fora de alcance.
E as mãos fazem coisas
que ainda não foram pedidas
pelo momento.
No meio,
algo respira devagar
e esquece-se de si
por instantes repetidos.
Não é o amanhã que cansa,
mas a sua presença antecipada.
No início não havia forma,
apenas tensão.
Algo aprendeu a vibrar,
e tornou o mundo audível.
Tudo o que parece sólido
é frequência lenta.
Corpo, nome, matéria;
suspensos.
Se uma corda cessasse,
não cairíamos.
Desaparecíamos.
Não é o alto
que te testa,
é o fundo.
A luz não exige coragem,
apenas exposição,
e descer
é outra coisa.
Há nomes que evitas,
hábitos que não reconheces
e, ainda assim,
repetes.
Crescer
não é subir,
mas deixar de mentir.
Toda a altura
cobra em profundidade
e se queres o claro,
aceita isto:
suja as mãos
no que negaste.
Depois disso,
talvez,
o que fazes
não seja inércia.
Ninguém manda,
e, no entanto,
ninguém pára.
Cada um carrega a sua exigência
com mãos próprias,
e chama-lhe vontade.
Há luz em todas as janelas
mesmo quando não há ninguém em casa.
Corpos sentados,
mentes em produção contínua.
Dizem:
é escolha,
e acreditam.
Os dias não têm arestas,
escorrem uns nos outros
como horas sem peso
que exigem tudo.
Descansar tornou-se suspeito,
uma falha no sistema,
uma dissonância a corrigir.
E assim avançam,
não empurrados,
mas puxados por dentro,
como máquinas delicadas
que aprenderam a desejar
o próprio desgaste.
Ninguém manda,
e, no entanto,
ninguém pára.
Há quem fale
para conter o medo
e quem escute
para não ficar sozinho.
Palavras simples
servem de guia
quando tudo cede.
A entrega acontece
antes da dúvida,
não por cegueira,
mas por cansaço.
Depois já não se distingue
quem conduz
e quem segue.
Há coisas que não chegam:
aparecem.
Antes de existir corpo,
já ocupam espaço.
O que não existe
não precisa de caminho.
Surge sem matéria
e atravessa o possível.
O pensamento, quando percebe,
já responde ao que ainda não ocorreu.
Não é o real que corre.
É o possível.
O que acontece
não é o centro.
É o que ainda não tomou forma.
O pensamento antecipa
o que não chegou.
Há um ponto
onde deixa de procurar
e começa a circular.
Não aproxima nem afasta.
Mantém.
E o corpo aprende
antes do tempo
o que talvez nunca venha.
Dizes que amas
como quem oferece
o que não usa.
Há palavras que chegam
sem corpo,
como promessas
que não se fixam.
Não é falta de vontade,
é ausência de suporte.
Quem não se mantém
não partilha,
transfere peso.
E o outro aprende tarde
que não recebeu,
apenas segurou
o que ainda não era de ninguém.
Há ofertas que parecem dar,
mas pedem sem dizer.
E há uma forma de cuidado
que começa antes do outro:
ficar de pé
sem precisar de apoio.
Há o que decide
antes de chegar a ti.
Um movimento começa
sem forma
e já está em curso
quando o reconheces.
Aparece
como se fosse teu
mas vem de trás
de um lugar sem nome.
Ainda assim,
há um instante breve,
não segues.
E nesse intervalo
quase invisível,
fica suspenso
sem se mostrar.
Não é escolha inteira
nem ausência dela.
É o que passa por ti
e permanece.
Há coisas que não digo
porque não sei.
E fico
à margem,
a ouvir
certezas cheias.
Mas o silêncio
também engana:
protege,
prende.
Entre errar
e calar,
há um fio estreito.
Falo,
não porque saiba,
mas porque procuro.
Calar sempre
é ficar
no mesmo lugar.
Uma metade fala
como se soubesse.
A outra sabe
e não fala.
Entre ambas
fica o ruído.
Certeza sem peso
contra peso sem voz.
E a verdade
não se deixa escolher.
Não é ficar fora,
mas ver
e não sustentar o peso
de escolher.
Há um ponto
em que o silêncio
deixa de ser pausa
e passa a ser lado.
Não por dizer,
mas por ficar.
Falamos
como quem corta o excesso,
até sobrar o que pesa.
Nem tudo precisa de resposta,
algumas coisas
apenas se dizem
para ficarem mais claras.
E no fim
não há conclusão,
só um pouco mais de silêncio
entre o que se pensa
e o que se vê.
Não é a pressa.
Há dias
em que o caminho
mal se move,
ainda assim
algo insiste.
Não no destino,
mas no gesto
de não parar.
Não é o número.
É o que cedo
quando fico.
A maioria
não pesa.
Pesa o silêncio
onde me perco.
Posso estar
e não ceder,
ouvir
e não seguir,
ou ficar
sem sair de mim.