Tudo
está
dentro
de tudo
Todos celebram
o despertar.
Poucos conhecem
o ofício
da noite.
É nela
que o olhar
se desfaz,
que o nome
falha,
que o silêncio
amadurece.
Nada ali
brilha.
Tudo
aprende.
E quando
a luz chega,
já vem
escrita
no escuro.
O amanhecer
não começa
no dia.
Começa
naquilo
que atravessou
a noite.
Escrevo
porque a solidão
nem sempre
permite
presença.
Cada poema
é uma pequena
desobediência.
Não dissolve
o escuro.
Mas abre
uma fenda
onde respiro.
Disseram
quem eu
era.
Nenhuma voz
ficou
o tempo
necessário.
Fui vidro
baço
entre mãos.
Há sempre
qualquer coisa
que escapa
ao olhar
de passagem.
Quem bebeu
do mar
já não confunde
a sede
com o mundo.
Há rios
imensos
para olhos
que nunca
viram
o longe.
Conhecer
a largura
da água
é dar
ao medo
outra
margem.
Não me julgues
pelos dias
em que
me calo.
Nem todo
o silêncio
é ausência
de amor.
Há invernos
que falam
mais baixo.
Se algum dia
me procurares,
vem
quando
menos
me reconheço.
É aí
que mais
preciso
de ti.
Basta
um lugar
ficar vazio
para que alguém
o encha
com uma história.
Nem sempre
sobre quem partiu.
Quase sempre
sobre quem ficou.
Não foi
o tempo
que me
envelheceu.
Foi o dia
em que deixei
de esperar
pela manhã.
Enquanto
arder
uma centelha
a abrir
a noite
por dentro,
a idade
passará
por mim
como quem
olha,
hesita
e segue.
Quis
chegar
depressa.
Foi o tempo
que me
demorou.
Enquanto
aprendia
o corte,
aprendia
a mão
que o guiava.
Só depois
percebi:
não era
a árvore
que resistia.
Era eu
que ainda
não sabia
cortar.
Não me foi dado
o caminho.
Apenas
o próximo
passo.
Só mais tarde
compreendi
que era
tudo
o que precisava.
Procurei
o meu nome
na voz
dos outros.
Julguei
tê-lo
encontrado.
Mas o eco
vive
apenas
enquanto
há distância.
Só o silêncio
conhece
o regresso.
Só a voz
que volta
a si
deixa
de procurar
o próprio
nome.
Quase
me perco.
O peso
já conhece
todos
os caminhos
da casa.
Mas,
sem aviso,
uma luz
muito antiga
levanta
a cabeça.
Não traz
força.
É ela
a força.
Tem
os olhos
da criança
que fui.
Olha
o mundo
como se
a dor
ainda
não tivesse
aprendido
o meu nome.
É por ela
que continuo
a acreditar
que nem tudo
em mim
aceitou
a noite.
A certeza
chegou
de mãos
fechadas.
Sabia
o nome
de tudo.
Passou
ao lado
do que
não se
anunciava.
A intuição
vinha
devagar.
Não trazia
respostas.
Parava
onde
os outros
não
paravam.
Foi aí
que encontrou
o essencial.
Alguns
seguem
o rumor.
Eu
escuto
uma folha
a cair.
O mundo
permanece
inteiro.
Cada um
aprende
uma língua
para chegar
a si.
Há quem
regresse
cantando,
e quem
regresse
com uma palavra.
Ambos
procuravam
casa.
Demorei
tanto
a chegar
que, por vezes,
duvido
do caminho.
Ainda ouço
os sonhos
que ficaram
à minha espera:
casas acesas
onde nunca
entrei.
Passo
por elas
devagar.
As janelas
já não
me reconhecem.
Talvez
a perda
não seja
o que não vivi,
mas continuar
a falar
com quem
imaginei
vir a ser.
Mesmo assim,
há uma palavra
que insiste
em abrir
caminho.
É por ela
que sigo
a chegar.
Fui eu
que pintei
o teu rosto
com as cores
que me doem.
Depois
chamei-te
inimigo.
Nunca
desconfiei
das minhas mãos.
Passei anos
a afiar
flechas
com o teu nome.
Só depois
percebi:
o arco
que as lançava
tinha a corda
presa
ao meu peito.
Dores
não desaparecem
quando as fechamos.
Aprendem
outra língua.
A porta
que não abrimos
continua
a existir.