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sábado, 16 de maio de 2026

Margem de Ascensão

À medida que um corpo cresce,

o espaço à volta

começa a estreitar.

 

Não pelo movimento,

mas pelo modo como é visto.

 

O receio chega antes do impacto,

instala-se nas vigilâncias,

nas distâncias,

na forma como uma presença

passa a ser medida.

 

Há forças

que se tornam ameaça

antes de tocar o chão.

 

E há muros

erguidos contra o futuro,

como se a mudança

pudesse ser contida.

 

O confronto começa, às vezes,

quando dois movimentos

aprendem a observar-se

como inevitáveis.

 

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Três movimentos

O nervo conduz

o impulso.

 

A dor bloqueia

a passagem.

 

A memória descentra

a origem.

 

E o corpo não repete

o mesmo estado.

 

 

Margem

O outro não chega

onde não há saída.

 

Nada atravessa.

 

O corpo mantém-se

no mesmo perímetro.

 

Os passos repetem

o traçado.

 

Uma margem cresce

sem abrir.

 

E o outro

não entra.

 

 

Outra forma

Não é mais.

Muda.

 

O que se força

fecha.

 

Há um ponto

em que insistir

já não move.

 

Insiste.

 

Ponto zero

Sem clarão visível,

no ponto exato

o tempo não chega.

 

O calor atravessa

antes de haver corpo.

 

O ar fecha-se

e deixa de devolver.

 

Tudo o que era

deixa de ser.

 

Mais longe,

a pressão chega.

Vidro, estrutura,

órgão,

cedem.

 

A pele abre

sem aviso.

 

Há distâncias

onde o fogo não toca,

mas persiste.

 

Depois,

o invisível

entra,

fixa-se,

desfaz por dentro.

 

Não cessa:

horas,

dias.

 

O corpo perde

o que o mantinha inteiro.

 

Mais longe ainda,

o pó levanta-se

e desloca-se.

 

Assenta,

mistura-se,

permanece

na água,

no solo,

na respiração.

 

Quem não viu

recebe.

 

 

Antes do motivo

Um sinal surge

antes de haver motivo.

 

Repete-se

em intervalos regulares.

 

No espaço aberto,

uma direção é evitada

sem indicação visível.

 

O ar altera-se,

como se algo ocupasse lugar.

 

As pessoas ajustam o passo

sem combinar entre si.

 

Algumas portas fecham

antes de qualquer contacto.

 

O movimento continua,

mas já não é livre.

 

Corpo fixo.

O que não se vê

define o percurso.

 

E não se confirma.

 

 

Escala

No caminho,

uma sombra atravessa a relva.

 

Mais abaixo,

a terra abre-se

em galerias frágeis.

 

Um passo aproxima-se.

O solo cede

onde não chega.

 

Um bico desce

e interrompe

o que não se expunha.

 

Uma massa atravessa o campo

sem tocar a luz.

Mas tudo o resto

desloca-se antes.

 

O ar move-se primeiro.

 

Acima,

o céu mantém-se amplo.

 

Abaixo,

o espaço reduz-se

até ao limite.

 

Nada muda de forma.

Só a medida

em que cada coisa alcança.

 

Já não há centro.

 

 

Sem Confirmação

A sala mantém a claridade

quando se entra.

 

A luz incide

no mesmo ângulo de sempre.

 

Na mesa,

os objetos não mudam de lugar.

 

Uma cadeira fora do alinhamento

introduz uma diferença.

 

O copo na borda

inclina-se

e o equilíbrio

já não se mantém.

 

A porta abre

além do habitual

e suspende-se.

 

Pó sobre o tampo

desenha um círculo irregular,

vestígio de algo

sem confirmação.

 

Só depois

isso.

 

O olhar regressa

para tentar confirmar.

 

Falha.

 

Nada se move.

Nada se corrige.

Nada confirma

o que foi visto.

 

O que está

persiste sem prova

e não se distingue

do que nunca chegou

a ser confirmado.

 

 

Sem saída anunciada

O dia abre

sem prometer nada.

 

O quarto não muda.

 

O corpo está

onde ficou.

 

Nenhum sinal

chega.

 

As coisas permanecem:

uma mesa,

um copo vazio,

luz sem direção.

 

O tempo passa

sem alterar o contorno.

 

Não há voz

que nomeie outro lugar.

 

E mesmo assim

o que existe

não desaparece de imediato.

 

E nada o toca. 

 

 

Sem nome depois

O corpo não insiste.

Encosta-se ao que ficou.

 

A luz continua

sobre o que já não responde.

 

Há um peso que não se distingue

do lugar onde esteve.

 

Coisas mínimas ficam:

poeira,

um objeto sem uso,

o contorno de uma presença antiga.

 

Nada decide o que fica.

 

A terra não apressa.

A cinza não conclui.

 

O que foi nomeado

perde nitidez

sem ponto de corte.

 

E em lugar sem centro

o mundo fica

sem chamar ninguém.

 

 

 

Equilíbrio

Não é paz sem fissura,

nem ausência de conflito.

 

O corpo permanece

quando estremece

e não se fecha.

 

A dor atravessa

sem romper o que ainda segura.

 

O peso não cai,

distribui-se devagar

por dentro.

 

O olhar fica

onde dói.

 

 

 

 

Nada chama

A luz insiste

como quem erra o nome.

 

Nada responde.

 

O corpo ficou aqui,

como um objeto esquecido.

 

Respira.

Ainda acontece.

 

Há um quase:

quase levantar,

quase dizer.

 

Mas o quase

não pesa.

 

É só

um começo que se desfaz

antes de existir.

 

E assim o dia atravessa,

raso,

como o que não encontra rosto.

 

 

 

Abertura mínima

A luz entra.

O quarto não cede.

 

O ar mantém a distância.

 

Na mesa, um objeto.

 

Nada chama.

Nada empurra.

 

E no entanto

o olhar fixa,

o peso cede,

um músculo ajusta.

 

Quase nada.

 

Não pára.

 

 

Instância

Não há lugar acima

onde o mundo seja julgado.

 

As coisas acontecem

sem se anunciarem,

como um objeto que se solta

num quarto vazio.

 

O que cai

já vinha cedendo,

fibra por fibra.

 

O que parte

trazia a linha antiga

dentro,

quase invisível.

 

Não há mão escondida

a corrigir o que falha,

nem atraso,

nem segunda tentativa.

 

Há apenas o encontro

entre o que vem

e o que resiste,

como duas superfícies

que não sabem ceder.

 

E nesse encontro

não há explicação,

só peso,

o som seco

do que se cumpre.

 

O sentido não chega pronto.

Surge tarde,

quando já não serve

para travar nada.

 

Depois disso

fica o que ficou,

um resto sem pergunta.

 

E nada observa.

 

 

Tolerância

Tentamos fechar o que ficou aberto,

encostar as margens

até parecer inteiro.

 

Mas há sempre um desvio mínimo,

quase nada,

o suficiente para não ser.

 

Voltamos a medir:

repete-se o valor,

mantém-se.

 

Ajustamos os gestos,

afinamos o tom,

e é aí que muda,

não o erro,

mas o ponto que abre.

 

Por fora, alinha:

a superfície aprende

a não denunciar.

 

Por dentro,

a leitura falha,

hesita.

 

Cabe dentro do limite.

 

Mas resta

um ponto

que não coincide.

 

 

Matéria fora de uso

Não é sempre corpo.

Às vezes é vidro,

frio, demasiado certo.

Outras, madeira,

fibra tensa,

desvio antigo.

 

A falha começa

sem origem.

 

No vidro, estala.

No metal, vibra.

Na pedra, abre.

No tecido, prende.

Na madeira, torce.

 

Muda o suporte,

não muda o corte.

 

Os outros são marcados,

entram na ordem

e seguem.

Este não.

 

O que sustenta

já vem com desvio.

 

Há sempre um ponto

onde não encaixa.

 

Corrige-se,

o erro desloca-se.

 

Nomeia-se de outro modo.

 

O tempo passa por cima,

não atravessa.

 

E prossegue.