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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Peregrino

Caminhou

como quem

espera

uma nascente.

 

Bebeu

em muitas

mãos.

 

Nenhuma

lhe matou

a sede.

 

Não

porque

faltasse

água.

 

Mas porque

procurava

um rosto

onde

o mundo

repousasse.

 

Aprendeu

que ninguém

transporta

inteiro

o abrigo

que imaginamos.

 

Mesmo assim,

não voltou

atrás.

 

Há passos

que deixam

de procurar

um paraíso

e passam

apenas

a merecê-lo.

 

Herança

Nomes não pertencem a uma só vida.

 

Alguns atravessam o tempo, de voz em voz, como se recusassem o esquecimento.

 

Primeiro, alguém os pronuncia.

 

Depois, outros os recordam.

 

Por fim, alguém os transporta, sem nunca ter conhecido o primeiro rosto.

 

A memória não vive apenas nos retratos,

mas naquilo que continua a ser dito.

 

Enquanto houver uma voz para os dizer,

ninguém parte inteiramente.

 

 

(Este poema é dedicado a Manuel da Rosalina, guitarrista português nascido na segunda metade do século XIX, cuja arte permaneceu na memória de quem o escutou.)

 

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Ao Lado

A morte

deitou-se

a meu lado.

 

Perguntou

se queria,

de facto,

abraçá-la.

 

Adormeci

sem

responder.

 

Quando

abri

os olhos,

 

estava

nos braços

da vida.

 

 

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Diário

Escrever

foi

a última

fresta.

 

Não

para fugir,

 

mas

para impedir

que o medo

fosse

a única

língua.

 

 

(A 4 de agosto de 1944, Anne Frank e a sua família foram detidas pela Gestapo, em Amesterdão, após mais de dois anos escondidas num anexo secreto. Anne Frank viria a morrer, meses mais tarde, no campo de concentração de Bergen-Belsen.)

 

domingo, 2 de agosto de 2026

Espelho

Cada ferramenta

que criamos

acaba

por perguntar

quem

a criou.

 

 

Consciência

Somos

o breve

momento

em que

o universo

se torna

pergunta.

 

 

Limite

O mundo

nunca

cabe

no olhar.

 

Vemos

o que

aprendemos

a ver.

 

Pertencer

O universo

não precisou

de nos explicar

o lugar.

 

Fomos nós

que passámos

a vida

à procura

dele.

 

 

Lugar

Passei

a vida

a pensar

que havia

um lugar

onde eu

coubesse.

 

Hoje,

já não sei

se existe.

 

Ainda

procuro

instantes

em que

o mundo

me pese

menos.

 

 

Restos

Crescemos.

 

Mas nem tudo

cresce

connosco.

 

Às vezes,

fala

o que julgávamos

ter deixado

para trás.

 

 

 

Presença

O que

finalmente

olhamos

deixa

de andar

atrás de nós,

 

como quem

espera

ser visto.

 

 

 

Distância

Entre

o que pensamos

ser

e o que fazemos

vai

a distância

de uma vida.

 

 

O que Fica

Não somos

apenas

aquilo

que nos aconteceu.

 

Somos também

o que fazemos

do que ficou.

 

 

 

Dúvida

Não é

o que não sabemos

que mais

nos perde.

 

É aquilo

que deixámos

de pôr

em dúvida. 

 

 

 

Herança

O primeiro

deus

raramente

é escolhido.

 

É herdado

como a língua,

o nome,

a casa.

 

Depois,

cada um

decide

se permanece

ou parte.

 

 

Convicção

A razão

não destrói

as crenças.

 

Apenas

lhes pergunta

se conseguem

caminhar.

 

Umas

cruzam a dúvida

como quem atravessa

a noite.

 

Outras

ficam imóveis,

à espera

que o mundo

as confirme.

 

 

 

Impermanência

Tudo

passa.

Até aquilo

que julgávamos

ser.

 

A morte

desfaz

o que

tomámos

por duração.

 

 

 

Olhar

Quem vê

o mundo

como ele é

caminha

em silêncio.

 

As coisas

não pedem

resposta.

Estão.

 

Quem precisa

que o mundo

lhe confirme

o que já trazia

consigo

nomeia

o que passa,

confunde

o reflexo

com a origem.

 

Depois,

já não distingue

o que veio

do mundo

do que nasceu

em si.

 

 

Figura

Não é o outro

que nos fere.

É a figura

que erguemos

dentro de nós.

 

A dor

abre-se

na distância

entre o que são

e o lugar

onde nunca estiveram.

 

 

O Desconhecido

Nada

precede

o que chega

sem palavra.

 

Primeiro,

é rumor

na casa

do hábito.

 

Depois,

ninguém sabe

se mudou

o mundo

ou apenas

o olhar.

 

 

 

Mudança

Um dia,

ninguém percebeu

que eu tinha mudado.

 

Apenas

deixaram

de me reconhecer.

 

Eu

continuava aqui.

 

Mas já não cabia

no lugar

onde me tinham posto.

 

 

 

Resistência

Não sabemos

o tamanho

da nossa resistência.

 

Só ela

nos mede

quando o chão

cede.

 

E então

descobrimos

que havia em nós

mais força

do que voz.

 

 

Sede

Não procuro

o que sei.

 

Nem

o que ignoro.

 

Caminho

até que

alguma coisa

me reconheça.

 

Primeiro,

vem

a sede.

 

 

Desejo

Querer

dói.

 

Mas deixar

de querer

não é viver.

 

Nem todo

o desejo

pede

posse.

 

Há quem

queira

apenas

compreender.

 

 

O Amor

Não chega

quando o chamamos.

 

Chega

sem aviso,

sem pedir

lugar.

 

O resto

são nomes

que lhe damos

para não dizer

que trememos.

 

 

Travessia

Havia

uma margem.

E uma promessa.

 

No meio

do rio,

cada um

foi

o que era.

 

 

 

Desvio

um instante

em que o olhar

se cansa

dos desvios.

 

Depois disso,

o mundo

continua igual.

 

Quem muda

é o lugar

de onde vê.

 

 

Inacabado

Não procuro vencer

o que fui.

 

Procuro compreender

o que em mim

ainda vive.

 

O que fui

não ficou atrás.

 

Move-se

na sombra

do que faço.

 

Às vezes,

fala

sem voz.

 

Não procuro

calá-lo.

 

Escuto

até que

o silêncio

se diga.