Seguidores

sábado, 27 de junho de 2026

Depois do Ruído

Quando o palco

fica vazio,

 

e a última luz

se demora

sobre a madeira,

 

começa

 

o trabalho

que ninguém vê.

 

Fico

 

com a palavra

que resistiu ao silêncio.

 

As outras

 

partem

 

como o pó

 

que a porta aberta

leva consigo.

 

Há vozes

 

que passam.

 

Outras

 

ficam apenas

o tempo suficiente

 

para ensinar

uma respiração,

 

um silêncio,

 

um verso.

 

Depois

 

também se calam.

 

Volto.

 

Sempre volto.

 

Ao mesmo poema.

 

À mesma procura.

 

Não para o dizer melhor.

 

Mas para chegar

 

um pouco mais perto

 

da verdade.

 

Porque amanhã

 

não desejo

 

mais aplausos.

 

Desejo apenas

 

merecer

 

a voz

 

que ainda procuro.

 

 

quarta-feira, 24 de junho de 2026

D. Aurora

Havia uma casa onde a campainha não tocava;

acendia-se a luz.

Talvez por isso a criança gostasse tanto dela.

 

Dentro morava uma senhora surda que ouvia melhor do que muita gente.

Entre jogadas de damas, falavam de política, de religião, de pobres e de ricos,

de verdades que mudavam de lugar conforme quem as contava.

Às vezes, um papagaio interrompia a conversa,

noutras, a senhora pedia palavras que rimassem com amor.

A criança procurava-as como quem procura conchas na areia,

não sabendo ainda o que estava a aprender.

 

Um dia bateu à porta,

a luz acendeu-se,

mas foi outra mulher que apareceu.

Conduziu-a por um corredor até um quarto silencioso.

A senhora estava deitada.

Parecia cansada,

mas sorriu.

 

Disse apenas que estava doente e que não voltasse enquanto estivesse assim.

Depois apertou-lhe a mão

com força,

como quem entrega um segredo sem o dizer.

 

A criança foi embora.

Dias mais tarde, soube da sua morte.

Durante muito tempo pensou ter perdido uma amiga.

 

Só muitos anos depois compreendeu:

 

há pessoas que partem,

mas deixam a luz acesa.

 

 

sábado, 20 de junho de 2026

Liberdade

És livre.

E isso não te conduz.

 

Não há chão.

 

Caminhos desaparecem

quando ninguém os aponta.

 

O que sobra

não é direção.

 

É espaço.

 

Perdes-te.

Sem resistência.

 

Leitura

Não é número.

É o que fica

depois de fechar.

 

Páginas passam.

Outras ficam

a trabalhar por dentro.

 

Alguns livros

não se acabam:

continuam em silêncio.

 

 

 

Impulso

Não foi surpresa.

O gesto já me habitava.

Antes da escolha,

já lhe conhecia a sombra.

 

Mas há margens

que só se alcançam confiando.

 

E, ainda assim,

soltei o trinco.

 

Há coisas que não regressam.

Regressam-nos.

 

 

 

 

Valor

Quanto mais se mostra,

menos fica por descobrir.

 

E há coisas que vivem

do que não se diz.

 

Crescem em silêncio.

 

Outras murcham à vista.

 

 

 

Perceção

O objeto está ali.

 

Mas o olhar

não chega limpo.

 

Recria.

 

Escolhe.

 

E chama mundo

ao que consegue ver.

 

 

 

De Pé

Nem sempre é força.

 

Às vezes

é apenas

continuar de pé.

 

Quando seria mais fácil

ceder ao chão.

 

 

 

Economia

Nem toda discordância

merece voz.

 

Há silêncios

que chegam antes.

 

 

Casa

Nem toda a porta dá para uma sala.

 

Algumas abrem-se para uma ferida.

 

Quando alguém te deixa entrar,

deixa do lado de fora

os olhos do julgamento

e a voz da praça.

 

 

 

Projeto

Não há vazio no mundo.

 

Há apenas alguém

que ainda não acabou de se olhar.

 

 

Governo

Quem decide por todos

deveria desconfiar

das próprias certezas.

 

Pois há convicções

capazes de mudar o mundo,

e nem todas

o melhoram.

 

 

 

 

Consequência

Expulsaram o que temiam.

E o medo ficou.

 

Mas não veio sozinho.

 

Trouxe consigo

aquilo que ninguém viu chegar.

 

 

 

Desculpa

Há quem diga

que nada muda

e se sente.

 

Mas nem todo o escuro

é desistência.

 

Às vezes

é apenas

a maneira

como a noite vê.

 

 

 

 

Vestígio

Não escrevo para ser poeta.

 

Escrevo para que alguma coisa permaneça.

 

Nem que seja apenas

um pensamento

a mudar de lugar.

 

 

 

Manhã

A manhã chega,

mas não entra.

 

Fica à porta,

à espera.

 

O corpo levanta-se

e cumpre gestos.

 

A vida continua

sem se reconhecer.

 

 

Persistência

Há dias

em que atravessar uma sala

parece excessivo.

 

E, no entanto,

o corpo chega

ao outro lado.

 

Ninguém vê.

 

Mas também isso

é uma forma de resistência.

 

 

 

Integração

Passamos anos a afastar-nos,

não por erro,

por necessidade.

 

Até que algo em nós

começa a chamar pelo nome antigo.

 

Regressamos,

não ao que fomos,

mas ao que ficou à espera.

 

 

Interlocutor

Nem sempre procuro razão.

 

Procuro alguém

que permaneça à mesa

mesmo depois da certeza.

 

Alguém capaz

de trocar uma resposta

por uma pergunta.

 

Porque há ideias

que só acontecem

entre duas vozes.

 

 

 

 

Tempo

Não falta tempo.

 

Falta presença.

 

O resto

chama-se distração.

 

 

 

Morada

Uma palavra pesa.

 

Outra

nem tanto.

 

Não por diferença,

mas pelo lugar

onde repousa.

 

 

Göbekli Tepe

Antes da história,

 

alguém ergueu pedras

para dizer: estive aqui.

 

Depois,

cobriu-as de terra.

 

E a terra guardou

essa frase

durante dez mil anos.

 

Nas pedras reunidas,

alguém procurava

o que não se toca.

 

 

 

Ritmo

Nem todos caminham na mesma luz.

 

Há quem avance,

há quem resista.

 

De longe,

parecem só mais lentos.

 

Mas a distância

não sabe

o peso que cada um traz.

 

 

Quase Nada

Sou uma presença breve.

 

O mundo não depende de mim.

 

Enquanto existo, altero uma pequena parte.

 

Para o universo, quase nada.

 

Para quem a habita, tudo.

Escritura

Recebemos um nome antes de o escolher.

 

Uma história antes de a ouvir por inteiro.

 

Aprendemos o já dito.

 

Durante séculos,

mãos passaram mãos,

vozes passaram vozes.

 

Umas quiseram compreender,

outras impor caminho.

 

O texto cresceu:

ganhou margens, comentários, altares.

 

O homem ficou ao fundo.

 

Cada geração deixou a sua camada.

 

E houve um tempo

em que já não distinguíamos memória de leitura,

nem o rosto da luz que o envolvia.

 

Então começámos a ler de outro modo:

não para desfazer a herança,

mas para tocar o que nela persiste.

 

 

 

 

Limiar

Às vezes, o erro abre a porta e entramos.

 

Outras, a porta abre-se e ficamos fora.

 

Nem toda a cegueira vem da noite.

 

Há quem se perca a seguir uma sombra.

 

Há quem se perca por recusar a luz.

 

 

Regresso

Passamos anos a escolher, uma coisa em vez de outra; uma voz, um caminho, um modo de estar.

 

O que fica de fora parece perder-se, mas subsiste.

 

Não como perda, como parte.

 

Chega um momento em que já não perguntamos quem queremos ser, apenas o que recusamos em nós.

 

Então regressamos, não ao passado;

 

a uma inteireza que não sabíamos existir.

 

 

Mesa

Lemos para compreender.

 

Aprendemos nomes, datas, ideias que atravessam séculos.

 

Reconhecemos a injustiça nos livros.

 

Identificamos o erro à distância.

 

Mas nem sempre escutamos o que sofre ao lado.

 

O pensamento alcança continentes.

 

Às vezes, não atravessa a mesa.

 

Sabemos da fragilidade em teoria.

 

A proximidade pede outra aprendizagem.

 

Compreender não se mede pelo que sabemos dizer,

 

mas pelo que fazemos quando a vida real interrompe a certeza.