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terça-feira, 28 de abril de 2026

O Brilho do Vazio

Aceita-se o que brilha

sem peso.

 

Há mãos

que torcem o ar

até a mentira

parecer forma.

 

E há quem não olhe,

não por falta de olhos,

mas por descanso.

 

 

Sem Nome

O inimaginável
não ficou no passado.

Há marcas
que não sangram à vista,
mas atravessam gerações
como um rumor baixo.

Alguém viu,
calou
e aprendeu
a não olhar.

E há quem guarde
essas cinzas
como se ainda aquecessem.

Não se fecha
o que continua a arder
debaixo do nome.

Muda-se a face,
repete-se o gesto.

Há mãos
que ainda se habituam
a mandar,
e outras
a baixar os olhos.

 


Invasão

Quando o ódio entra,

não abras portas.

 

Fumaça negra enrola-se,

sussurros torcem sombras.

 

Olhos cortam,

risos sopram vento cortante.

Tentam roubar

o que em ti é sólido.

 

Mantém os pés firmes,

o peito fechado,

a mente clara.

 

Nem toda palavra

que se move

merece pousar

sobre o que é teu.

 

E o silêncio respira contigo.

 

 

 

Defesa

Aprendi cedo

a não confiar no espaço.

 

O riso dos outros

não era leve

nem inocente,

tinha direção.

 

Fiquei onde não queria,

a cumprir o tempo,

a fingir normalidade

enquanto algo em mim

era exposto

sem escolha.

 

Desde então,

não relaxo:

observo,

antecipo,

defendo-me.

 

Dizem sombra,

e há,

sem dúvida,

mas há também memória

que não esquece

o lugar

onde foi ferida.

 

Mudo de rosto,

repito o padrão;

não escolho,

reconheço.

 

E quando não perdoo,

não é grandeza

nem queda:

é a tentativa

de não validar

o que me marcou.

 

Fico

não por força,

mas por defesa.

 

E, no silêncio,

ainda vigio o mundo

como se pudesse

voltar a ser

aquele lugar.

 

O Nome

Não dei o nome;

ele veio.

 

No silêncio,

uma presença surge

e nos faz olhar.

 

 

Espelhos Quebrados

Há em mim

mais do que conheço.

 

Palavras antigas

ainda falam

nos alicerces

do que fui;

separo,

analiso,

descarto,

mas o eco permanece.

 

A razão vê,

mas não limpa,

e a memória insiste

no que não quero

e devolve-me

ao que já não sou.

 

O eu

é construção instável:

fragmentos,

imagens,

espelhos quebrados

onde me procuro

e me distorço.

 

Fui o que esperaram,

tentei ser o que idealizei

e, nesse esforço,

perdi-me

mais do que me encontrei.

 

O desejo não cessa;

o amor foi pouco

para tanto querer.

 

Procurei um mundo inteiro,

sem falha,

sem ruído,

sem medida,

mas encontrei

um lugar imperfeito

onde, ainda assim,

se tenta.

 

 

O Gesto

No início

é só fazer;

e depois

percebe-se

que há coisas

que não se fazem

sozinhas,

e alguém

tem de cuidar.

 

 

A Rede

Não é ouro,

nem poder,

nem fama,

que nos sustenta.

 

São os fios que ficam:

um olhar,

uma mão,

uma presença.

 

No final,

não levamos nada

além de quem nos mantém

perto do coração.

 

 

Luz do Pensar

Entre ouvir e saber,

sombras antigas ecoam.

A emoção sussurra;

a dúvida desperta.

Ignorância é ponto de partida,

ética, bússola firme.

Liberdade nasce

no gesto consciente

de decidir.

 

 

O Pensador de Atenas

Caminhou

entre ruas vazias,

sem tronos

nem coroas.

 

Perguntou,

e a dúvida despertou.

O homem olhou para si

e começou a pensar.

 

Nada se impôs;

tudo foi convite:

olhar,

questionar,

escolher.

 

O mundo,

“Antes” dele,

respirava hábito;

“Depois”,

consciência.

 

E a mudança

nasceu no interior.

 

 

Entre Dois Impulsos

O amor escolhe

e diz: fica,

mas teme

o que não controla.

 

O ódio não escolhe,

espalha-se

e encontra sempre

um rosto para negar.

 

Um aproxima

e prende;

o outro une

e corrói.

 

Ambos pedem

um centro

que raramente existe.

 

Só o riso interrompe,

cria distância,

desarma o impulso.

 

E, por um instante,

nem amar

nem odiar

é necessário.

 

 

 

Sem Justificação

Não explico tudo,

nem me sento

onde esperam culpa.

 

Recuso o hábito

de baixar o olhar

e de me sentir menor.

 

Cada justificação

é porta que não abro.

 

Fico onde estou,

sem ruído

nem defesa.

 

E aqui me detenho.

 

 

 

Órbita

Movimentos cruzam-se

e traços

de passagens antigas

permanecem.

 

Nada se dissipa;

um choque basta

para alterar o espaço.

 

Depois,

outro,

e outro,

até que já não há caminho

limpo.

 

 

Entre Vozes

Não sigo multidões

nem sigo verdades prontas.

 

Fico à margem,

mas falo,

observo,

sinto,

e deixo queimar,

escrevo.

 

A poesia é o espaço

onde digo o que vejo

sem que o mundo me devore.

 

Não é silêncio,

nem fuga,

mas olhos atentos,

resistência.

 

E mesmo cansado,

sigo,

não para agradar,

mas para não me apagar.

 

 

Vozes

Entre nós,

uma presença sem forma

sussurra possibilidades.

 

Não sei se a sigo

ou se me guia.

Apenas sei:

algo se cala,

e eu falo.

 

 

 

Chama Invisível

Aprende sem mãos,

fala sem boca,

surpreende sem alma.

 

Chama invisível

que aquece,

cega,

consome,

e ninguém segura seu fogo.

 

 

 

Entre Ouvir e Ficar

Há quem fale

como quem ergue muros;

palavras firmes,

sem portas.

 

Trazem verdades prontas,

herdadas como nomes,

repetidas

sem raiz visível.

 

E eu,

entre o impulso de responder

e a lucidez de calar,

fico.

 

Nem tudo pede voz

e nem toda a diferença

merece ponte.

 

Há ideias que se escutam

como se observa o fogo:

de longe,

com respeito pelo que pode

queimar.

 

Compreender

não é ajoelhar diante do outro,

é apenas ver o desenho

sem o vestir.

 

E há dias

em que ver basta.

 

Porque há linhas

que não se atravessam

sem deixar de ser quem se é.

 

Então escolho:

onde entro,

onde fico à margem,

e onde o silêncio

é mais inteiro que qualquer

argumento.

 

E sigo,

não mais certo,

mas mais fiel

ao que em mim não negocia.

 

 

 

Sequência

Não começa com intenção.

 

Um gesto segue outro,

sem saber onde termina.

 

Nada se repete,

mas tudo continua.

 

O que vem

traz consigo o que já foi.

 

Cresce sem plano,

nem urgência.

 

Como se existisse

uma ordem

que não precisa de ser dita.

 

 

Limite

Não é a queda

que define o instante.

 

É o momento

em que deixar de olhar

já não é possível.

 

Algo permaneceu

mais tempo do que devia.

 

Agora não cresce

nem desaparece.

 

Exige.

 

Não um ponto

onde o peso deixa de ser suportável.

 

E então tudo muda,

não porque se resolve,

mas porque já não recua.

 

 

 

Tudo Sustenta

Não há mãos

que me guiem,

nem olhos

que me julguem,

nem voz

que prometa salvação

ou incuta medo.

 

E, no entanto,

respiro,

existo,

penso;

órgãos funcionam,

sangue corre,

céus giram

em silêncio calculado.

 

Há ordem

no que cresce,

cai,

e no que regressa,

como se houvesse

um pensamento

anterior a tudo,

não humano,

nem nomeável,

que não nos guia,

mas sustém

o que somos

sem precisar de nós.

 

Não procuro abrigo,

nem conforto

em narrativas humanas;

procuro apenas perceber,

e ser consciente da dança

do inevitável,

onde tudo funciona,

e nada se perde,

e nada se cria,

e nada se inventa.

 

Aqui,

no pulsar do cosmos,

encontro o meu lugar:

nem senhor,

nem servo,

mas participante lúcido

da vida,

em diálogo silencioso

com a Inteligência

que tudo é.