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segunda-feira, 29 de junho de 2026

Mortais Pecados

Olho-me ao espelho,

debruado, a talha

luminosamente esculpida,

dourada.

E pergunto-me,

pelo espanto das respostas,

na assumida personagem

de rainha má:

quem sou,

para o que dou?

Quem me dá?

 

Miro-me

na volumetria das imagens,

cobertas por peles enrugadas,

vincadamente marcadas

por exageros expressivos;

de choros,

por entre risos,

plantados

nos ansiosos ritmos do tempo.

 

Profundos e negros pontos.

Poros

de milimétricos diâmetros.

Sombras cinzentas.

Castanhos pêlos.

Brancas,

perdidas entre cabelos.

Perfil

de perfeita raiz de grego.

Boca carnuda,

gretada de secura,

sedenta

de saudosos

e sugados beijos;

de línguas entrelaçadas,

lambidelas

bem salivadas.

 

Contemplo-me,

fixado

no meu próprio olhar,

de cor baça-tristeza,

desfocando

a máscara

de pálido cansaço.

E não resisto

ao embaraço

de Narciso.

Sou o deus

que procurei

e amei,

em cumprimento

do milagre,

ou o mal

que,

de tanto

me obrigar,

não reneguei?

 

Sou

o miraculoso encantador

a quem me dei,

ou a raposa velha,

vaidosa,

vestida de egoísta,

com estola

de alva ovelha,

falsa de altruísta?

 

No meu lamento,

a amargura

por quem matei.

Sangrando a vítima,

trucidei-a

num ranger de molares.

Saboreei,

com as papilas gustativas,

variados paladares,

viciado

no prazer da gula,

como instintivo porco,

omnívoro.

 

Rezo baixinho,

cantarolando

beatas ladainhas

de pecador,

que rouba

e se perdoa

a cem anos

de encarceramento.

 

No aliciamento,

cobiçante

por belas coxas,

pertença

de quem

constantemente

me enfrenta,

competindo

com as mesmas forças.

Traindo-me

na existência

do meu possuir.

Viradas as costas,

acabamos sempre

por fingir.

 

Entendo

velhos e sábios ditados,

não os querendo

surdinar

em consciência.

 

Penso de mim

a importância

demasiada,

que outros

possam entender

como comuns mortais.

 

Minha é

a inteligente certeza

de querer

enganar

e vencer.

 

Sadicamente,

esbofeteio

a rechonchuda face

do idealista tímido,

que acredita

e se deixa humilhar.

Dá-me a outra,

para também

a avermelhar.

 

Vendo-me

a infinitas

e elegantes riquezas,

luxúrias terrenas,

orgias bacantes,

incestuosas,

sedas,

glamour,

jóias preciosas,

tudo o que tenha

etiqueta de marca,

marcantemente conotada,

que pavoneie

a intensa profundidade

da minha alma.

Ah! Ah!

 

Salvas rebuscadas,

brilhantes,

de prata,

pesadas,

riscadas

de branco

e fino pó.

 

Prostituo-me

ao preço

da mais-valia.

Excita-me,

de travesti Madalena,

ter um guru

para me defumar,

benzer

e perdoar,

sem que me caia

uma pedra

na cauda.

 

Adoro

o teatro espectacular,

encenado

e ensaiado

em vida.

Mas faço sempre

de pobre amador,

sendo

um resistente actor.

 

Escancaro

a garganta

para trautear,

sem saber,

nem sequer,

solfejar.

E gargarejo

a seiva da videira,

que me escorre

pelo escapismo

do meu engano,

querendo,

audaciosamente,

brilhar,

descontrolando

o encarrilhar

do instrumento

das cordas da glote

com o

do fole pulmonar.

E desafino

o doce

e melódico hino.

 

Sou,

no vedetismo,

a mediocridade

que se desfaz

com o tempo,

até ser capaz

de timbrar,

sem ser pateado.

 

Acelero

nas viagens

que caminham

até mim.

Fujo do lento

e travo

demasiado.

Curvas perigosas,

apertadas,

que me inundam de adrenalina

na fronteira

do abismo.

 

Fumo,

bebo

em excesso

e converso

temas banais,

por entre ondas móveis,

que me encurtam

a pomposa solidão.

 

Mas nada

é em vão.

 

Tenho na dicção

um tom vibrado

e estudado,

de dizer bem

as palavras

que sinto.

Mas,

premeditadamente,

minto

e digo,

de propósito,

sempre

o errado.

 

Sou mal-educado,

demasiado carente,

enfadonho,

que ressona

e grunhe

durante o sono.

 

Tenho sempre

o apressado intuito

de saber,

de querer,

arrogantemente,

chamar a atenção,

por me achar,

condignamente,

o melhor,

um senhor,

sem noção

do que são

a razão

e o ridículo.

 

Digo não

quando deveria

pronunciar

sim.

 

Teimosamente,

rancoroso,

tolo,

alucinado,

perverso,

mal-humorado,

vejo em tudo

a maldade

do pecado.

 

Digo não

quando deveria

embelezar

a afirmação.

 

Minto,

digo

e desfaço-me,

propositadamente,

em negação.

 

Mas fiz

a gloriosa descoberta

do meu crescer.

Tenho

uma virtuosa

e única

qualidade.

Alguém,

pacientemente,

gosta muito

de mim.

 

Obrigado.

 

Tenho

que descansar.

 

 

(Mortais Pecados foi escrito em 2003 e publicado, pela primeira vez, em 2006, no livro (Re)cantos da Lua.

Ao relê-lo hoje, preferi preservar-lhe a voz. As únicas alterações introduzidas dizem respeito à pontuação e a pequenas correções gramaticais.

Cada poema nasce de um tempo.

Este permanece como testemunho desse tempo.)