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quarta-feira, 29 de abril de 2026

A Porta

A lei é uma porta, dizem.

 

Mas nem todos chegam

com a mesma chave.

 

Alguns entram cedo,

outros esperam anos.

 

O processo cresce

como algo vivo.

 

E há quem fique

antes da decisão.

 

Não é a regra que varia.

 

É o corpo

que atravessa.

 

 

Medida

Não é o brilho,

mas o modo como o susténs.

 

Há quem erga luz

como quem tapa uma fenda,

e quem a deixe cair

sem urgência de provar.

 

O excesso denuncia-se

não pelo ouro,

mas pelo gesto repetido

de o mostrar.

 

Vi mãos cheias

a falar baixo,

e outras vazias

a bater no peito,

como se fosse preciso

convencer o ar.

 

Talvez a medida

não esteja no que se vê,

mas no intervalo

entre mostrar

e precisar que vejam.

 

 

Linhas de Casa

Uma porta não pergunta

de quem são as mãos

que a empurram.

 

A casa nem sempre sabe

de onde vem o nome que a sustenta.

 

Há mãos que chegam depois

e ainda assim seguram

o que não lhes pertence

como se fosse chão.

 

E há palavras antigas

que tentam fixar o sangue

num mapa demasiado pequeno

para caber o que muda.

 

No meio,

alguém fala de origem

como se fosse destino.

 

Mas a origem é móvel,

como tudo o que respira.

 

E há vínculos

que não pedem prova,

nem raiz,

nem assinatura.

 

Só presença.

 

 

 

 

Medida Incerta

Há quem transborde

e quem procure preencher.

 

Ambos parecem iguais

de longe.

 

Mas um nasce do excesso,

outro da falta.

 

Nem tudo o que excede

vem da ausência.

 

Às vezes é forma

sem contenção.

 

E ficamos entre isso:

o que tenta caber

e o que não cabe.

 

 

Sem Garantia

Por vezes,

tudo parece encaixar.

 

Um movimento encontra resposta,

o oculto cede,

algo persiste

onde foi deixado.

 

Mas não dura.

 

Há desvios sem retorno,

o que é falso permanece,

e o esforço dispersa-se

sem deixar rasto.

 

Fica um espaço limpo,

sem regra,

sem promessa.

 

E ainda assim,

continuamos

a desenhar linhas no que escapa,

 

como se bastasse

traçá-las

para que existam.

 

 

 

O Dia que se Adianta

Ele senta-se antes de chegar,

em silêncio,

como se já tivesse estado ali.

 

Encosta-se ao dia

e mede-lhe os movimentos

antes de existirem.

 

Há uma luz que se adianta

e torna tudo mais nítido

do que o instante consegue acompanhar.

 

O presente fica um pouco atrás,

sem protesto,

apenas fora de alcance.

 

E as mãos fazem coisas

que ainda não foram pedidas

pelo momento.

 

No meio,

algo respira devagar

e esquece-se de si

por instantes repetidos.

 

Não é o amanhã que cansa,

mas a sua presença antecipada.

 

Cordas

No início não havia forma,

apenas tensão.

 

Algo aprendeu a vibrar,

e tornou o mundo audível.

 

Tudo o que parece sólido

é frequência lenta.

 

Corpo, nome, matéria;

suspensos.

 

Se uma corda cessasse,

não cairíamos.

 

Desaparecíamos.

 

Raiz

Não é o alto

que te testa,

é o fundo.

 

A luz não exige coragem,

apenas exposição,

e descer

é outra coisa.

 

Há nomes que evitas,

hábitos que não reconheces

e, ainda assim,

repetes.

 

Crescer

não é subir,

mas deixar de mentir.

 

Toda a altura

cobra em profundidade

e se queres o claro,

aceita isto:

suja as mãos

no que negaste.

 

Depois disso,

talvez,

o que fazes

não seja inércia.

 

 

 

A Fábrica da Luz Acesa

Ninguém manda,

e, no entanto,

ninguém pára.

 

Cada um carrega a sua exigência

com mãos próprias,

e chama-lhe vontade.

 

Há luz em todas as janelas

mesmo quando não há ninguém em casa.

 

Corpos sentados,

mentes em produção contínua.

 

Dizem:

é escolha,

e acreditam.

 

Os dias não têm arestas,

escorrem uns nos outros

como horas sem peso

que exigem tudo.

 

Descansar tornou-se suspeito,

uma falha no sistema,

uma dissonância a corrigir.

 

E assim avançam,

não empurrados,

mas puxados por dentro,

como máquinas delicadas

que aprenderam a desejar

o próprio desgaste.

 

Ninguém manda,

e, no entanto,

ninguém pára.

 

 

 

Linhas de Voz

Há quem fale

para conter o medo

e quem escute

para não ficar sozinho.

 

Palavras simples

servem de guia

quando tudo cede.

 

A entrega acontece

antes da dúvida,

não por cegueira,

mas por cansaço.

 

Depois já não se distingue

quem conduz

e quem segue.

 

 

 

Velocidade do Vazio

Há coisas que não chegam:

aparecem.

 

Antes de existir corpo,

já ocupam espaço.

 

 

O que não existe

não precisa de caminho.

 

Surge sem matéria

e atravessa o possível.

 

O pensamento, quando percebe,

já responde ao que ainda não ocorreu.

 

Não é o real que corre.

 

É o possível.

 

 

 

Em Suspensão

O que acontece

não é o centro.

 

É o que ainda não tomou forma.

 

O pensamento antecipa

o que não chegou.

 

Há um ponto

onde deixa de procurar

e começa a circular.

 

Não aproxima nem afasta.

 

Mantém.

 

E o corpo aprende

antes do tempo

o que talvez nunca venha.

 

 

 

Antes do dar

Dizes que amas

como quem oferece

o que não usa.

 

Há palavras que chegam

sem corpo,

como promessas

que não se fixam.

 

Não é falta de vontade,

é ausência de suporte.

 

Quem não se mantém

não partilha,

transfere peso.

 

E o outro aprende tarde

que não recebeu,

apenas segurou

o que ainda não era de ninguém.

 

Há ofertas que parecem dar,

mas pedem sem dizer.

 

E há uma forma de cuidado

que começa antes do outro:

ficar de pé

sem precisar de apoio.

 

 

 

Antes

Há o que decide

antes de chegar a ti.

 

Um movimento começa

sem forma

e já está em curso

quando o reconheces.

 

Aparece

como se fosse teu

mas vem de trás

de um lugar sem nome.

 

Ainda assim,

há um instante breve,

não segues.

 

E nesse intervalo

quase invisível,

fica suspenso

sem se mostrar.

 

Não é escolha inteira

nem ausência dela.

 

É o que passa por ti

e permanece.

 

 

Entre Saber e Calar

Há coisas que não digo

porque não sei.

 

E fico

à margem,

a ouvir

certezas cheias.

 

Mas o silêncio

também engana:

protege,

prende.

 

Entre errar

e calar,

há um fio estreito.

 

Falo,

não porque saiba,

mas porque procuro.

 

Calar sempre

é ficar

no mesmo lugar.

 

terça-feira, 28 de abril de 2026

Metade do Mundo

Uma metade fala

como se soubesse.

 

A outra sabe

e não fala.

 

Entre ambas

fica o ruído.

 

Certeza sem peso

contra peso sem voz.

 

E a verdade

não se deixa escolher.

Linha

Não é ficar fora,

mas ver

e não sustentar o peso

de escolher.

 

Há um ponto

em que o silêncio

deixa de ser pausa

e passa a ser lado.

 

Não por dizer,

mas por ficar.

 

Entre linhas

Falamos

como quem corta o excesso,

até sobrar o que pesa.

 

Nem tudo precisa de resposta,

algumas coisas

apenas se dizem

para ficarem mais claras.

 

E no fim

não há conclusão,

só um pouco mais de silêncio

entre o que se pensa

e o que se vê.

 

 

Passo

Não é a pressa.

 

Há dias

em que o caminho

mal se move,

ainda assim

algo insiste.

 

Não no destino,

mas no gesto

de não parar.

 

Lado

Não é o número.

 

É o que cedo

quando fico.

 

A maioria

não pesa.

 

Pesa o silêncio

onde me perco.

 

Posso estar

e não ceder,

ouvir

e não seguir,

ou ficar

sem sair de mim.