Nem sempre
aquilo que dizemos
fala do mundo.
Muitas vezes,
fala
do lugar
de onde
o olhamos.
Nem sempre
aquilo que dizemos
fala do mundo.
Muitas vezes,
fala
do lugar
de onde
o olhamos.
Pela escotilha
via-se tudo:
o mar,
o fogo,
as mães,
as crianças.
O mais difícil
não foi olhar,
foi continuar
sem ver.
(Em memória de Tomé Lopes, que deixou escrito:
«lembrarei toda a minha vida».)
A amizade é isto.
Não caminhar à frente
para mostrar o caminho.
Nem atrás
para empurrar.
Mas ao lado,
até que o caminho
volte
a reconhecer-nos.
É possível que ainda nos habite
uma caverna.
Um lugar antigo
onde o estranho
veste a forma
do perigo.
Mas há também
uma janela.
E foi por ela
que a humanidade aprendeu,
devagar,
a reconhecer um irmão
onde antes via
apenas
o escuro de um rosto.
A existência não desaparece
quando nos faltam as forças.
Apenas se recolhe
para um lugar mais fundo,
onde o silêncio aprende
a esperar.
Há dias em que o corpo
baixa a voz.
E, ainda assim,
algo em nós
permanece
de pé,
quieto,
à escuta
do que há de voltar.
Não é o amor que mais nos assusta.
É a luz que ele acende sobre quem somos.
Amar é tornar visível
uma parte de nós
que já não consegue esconder-se.
O passado não nos chama.
Somos nós que regressamos.
Até que um dia a consciência se senta ao lado da
memória
e lhe fala como quem pousa a mão sobre uma ferida:
"Já não precisas de abrir esta história para
saber que ela é tua."
Não somos vistos.
Somos traduzidos.
Cada olhar reescreve-nos
na linguagem de quem olha.
Por isso,
não procures habitar
a imagem que fazem de ti.
Habita apenas
a verdade
com que te ofereces.
O resto
pertence ao mistério
de cada encontro.
Manhãs que não trazem respostas.
Trazem apenas
uma nova oportunidade
de fazer
a mesma pergunta
com um coração
mais tranquilo.
Os hábitos não vivem apenas nas mãos.
Moram no movimento antigo do corpo.
Aprendem o ritmo das nossas alegrias.
E também o da dor.
O corpo não os larga.
Não porque os ame.
Mas porque, durante tanto tempo,
foram eles que conheciam
o caminho de regresso a casa.
Entrei numa livraria.
Um príncipe esperava-me há cinco séculos.
Peguei-lhe nas mãos.
Li-lhe o silêncio.
E voltei a pousá-lo.
Ainda não.
Talvez noutro dia.
Disseram-me que governar é conservar o reino.
Mas pensei:
quem veste uma coroa não deveria vestir também a alma
do povo?
De que servem as muralhas intactas,
se, por dentro,
as consciências desabam?
Governar talvez seja
o mais solitário dos ofícios.
Escolher
quando nenhuma escolha permanece inteira.
Responder
por vidas que nunca caberão na própria vida.
Então alguém perguntou:
— Que espécie de homem te tornarias enquanto
governasses?
Não soube responder.
Talvez porque algumas perguntas não procuram resposta.
Apenas uma vida.
Sorri.
E disse:
prefiro ser poeta.
Não porque os poetas sejam mais puros,
mas porque lhes é permitido continuar a perguntar
quando os príncipes
já não podem adiar a decisão.
Ainda acredito
que houve governantes que serviram antes de mandar,
que compreenderam
que nenhuma fronteira delimita a humanidade.
Mas sei também
que o poder pesa mais do que as mãos.
Por isso
fico.
Entre os livros.
À espera
de um verso
que governe
o pequeno reino
da consciência.
O tempo não anda: respira.
Por vezes, estende-se como sombra cansada;
outras, foge, ave súbita, das mãos distraídas.
Dentro de nós, alguém o torce:
faz dele um fio tenso quando dói,
ou um sopro breve quando arde de luz.
E caminhamos.
Sempre caminhamos.
Até que a rua se esgota nos olhos,
e ficamos diante do invisível,
como quem chega
sem nunca ter deixado de partir.
Não te apresses a voltar a quem eras.
Os tempos difíceis também nos esculpem.
E, quando passam, nem sempre nos devolvem,
deixam-nos alguém que aprende o mundo com um pouco
mais de ternura.
Os deuses envelhecem quando deixamos de acreditar neles.
Os mitos permanecem porque
continuam a acreditar em nós.
Porque continuamos a precisar de
Zeus, de Ísis, de Orfeu ou de Prometeu para falar de nós?
E se os mitos tiverem sido
inventados não apenas para explicar o mundo,
mas para impedir que nos
esquecêssemos de quem somos?
Não te esperarei.
Esperar conta o tempo.
Permanecerei disponível.
Porque há regressos que não
interrompem a ausência.
Mostram apenas que o caminho nunca
deixou de existir.
Há conversas que terminam.
Outras permanecem em nós como a luz
numa janela depois de nos afastarmos da casa.
No princípio,
ninguém pertencia a ninguém.
Havia apenas o frio, a fome, o
nascimento e a morte.
O fogo reunia os corpos,
a noite igualava os rostos.
Depois,
aprendemos a contar
as colheitas,
os animais,
a terra,
os filhos.
E, sem percebermos,
começámos a contar também as
pessoas.
Foi então que a força se confundiu
com o direito
e o amor, com a posse.
Inventámos deuses.
Alguns ensinaram a compaixão,
outros aprenderam a falar a voz do
poder.
Não eram eles que exigiam.
Éramos nós.
Porque o medo procura sempre uma
eternidade que o proteja.
Desde então,
o homem e a mulher
olham-se através de séculos
que ainda não terminaram.
Mas, por vezes,
uma criança estende a mão sem
perguntar quem deve ir primeiro.
Talvez
a história não avance quando
inventa novas máquinas.
Talvez avance
quando alguém deixa de precisar de
estar acima
para finalmente caminhar ao lado.
Nem todas as perguntas procuram respostas;
algumas apenas nos habitam.
Passamos a vida a dar nome àquilo que somos, como se
uma palavra pudesse conter uma existência.
Talvez não tenhamos vindo para
chegar,
apenas para sermos vestígio.
Entre o primeiro sopro e o último
silêncio,
passamos.
Sei apenas que, por um breve
instante, a matéria encontrou em mim uma forma de se olhar.
Procurei-me
nos caminhos,
nas palavras,
nos silêncios,
nos rostos.
Restaram sinais.
Continuo a pergunta.
Nascemos
sem mapa.
Primeiro, aprendemos
o frio do calor,
a fome do pão,
o abrigo da tempestade.
Muito depois,
descobrimos que sobreviver
não respondia.
Então demos nomes
às estrelas,
ao tempo,
ao amor,
aos deuses.
Como se nomear
diminuísse o mistério.
Mas o mistério
não recuou:
aprendeu
a caminhar connosco.
Houve quem procurasse o sentido
no alto das montanhas,
nos livros,
no futuro.
Houve quem o visse, por um
instante,
na água
que reflectia o céu
sem o guardar.
Talvez o sentido
nunca tenha sido
um lugar.
Talvez seja
a forma como atravessamos o
desconhecido
sem deixar de reconhecer
que a mesma luz
habita
a folha,
a pedra,
o rosto,
a estrela.
Quando o caminho terminar,
não sei o que permanecerá.
Gostaria apenas
que o silêncio
reconhecesse
que passei
sem estreitar o mundo.
Não escolhemos a primeira pergunta.
Ela chega antes da boca, antes do nome.
Passamos a vida
a aprender uma língua
capaz de a suportar.
Alguns chamam-lhe filosofia,
outros, ciência,
outros, oração.
Eu
inclinei-me para a poesia.
As palavras acolhem-nos.
A vida abriga-nos.
O tempo contém-nos.
Nunca fomos donos de nada.
Fomos sempre hóspedes.