Aceita-se o que brilha
sem peso.
Há mãos
que torcem o ar
até a mentira
parecer forma.
E há quem não olhe,
não por falta de olhos,
mas por descanso.
Arte
Aceita-se o que brilha
sem peso.
Há mãos
que torcem o ar
até a mentira
parecer forma.
E há quem não olhe,
não por falta de olhos,
mas por descanso.
O inimaginável
não ficou no passado.
Há marcas
que não sangram à vista,
mas atravessam gerações
como um rumor baixo.
Alguém viu,
calou
e aprendeu
a não olhar.
E há quem guarde
essas cinzas
como se ainda aquecessem.
Não se fecha
o que continua a arder
debaixo do nome.
Muda-se a face,
repete-se o gesto.
Há mãos
que ainda se habituam
a mandar,
e outras
a baixar os olhos.
Quando o ódio entra,
não abras portas.
Fumaça negra enrola-se,
sussurros torcem sombras.
Olhos cortam,
risos sopram vento cortante.
Tentam roubar
o que em ti é sólido.
Mantém os pés firmes,
o peito fechado,
a mente clara.
Nem toda palavra
que se move
merece pousar
sobre o que é teu.
E o silêncio respira contigo.
Aprendi cedo
a não confiar no espaço.
O riso dos outros
não era leve
nem inocente,
tinha direção.
Fiquei onde não queria,
a cumprir o tempo,
a fingir normalidade
enquanto algo em mim
era exposto
sem escolha.
Desde então,
não relaxo:
observo,
antecipo,
defendo-me.
Dizem sombra,
e há,
sem dúvida,
mas há também memória
que não esquece
o lugar
onde foi ferida.
Mudo de rosto,
repito o padrão;
não escolho,
reconheço.
E quando não perdoo,
não é grandeza
nem queda:
é a tentativa
de não validar
o que me marcou.
Fico
não por força,
mas por defesa.
E, no silêncio,
ainda vigio o mundo
como se pudesse
voltar a ser
aquele lugar.
Há em mim
mais do que conheço.
Palavras antigas
ainda falam
nos alicerces
do que fui;
separo,
analiso,
descarto,
mas o eco permanece.
A razão vê,
mas não limpa,
e a memória insiste
no que não quero
e devolve-me
ao que já não sou.
O eu
é construção instável:
fragmentos,
imagens,
espelhos quebrados
onde me procuro
e me distorço.
Fui o que esperaram,
tentei ser o que idealizei
e, nesse esforço,
perdi-me
mais do que me encontrei.
O desejo não cessa;
o amor foi pouco
para tanto querer.
Procurei um mundo inteiro,
sem falha,
sem ruído,
sem medida,
mas encontrei
um lugar imperfeito
onde, ainda assim,
se tenta.
No início
é só fazer;
e depois
percebe-se
que há coisas
que não se fazem
sozinhas,
e alguém
tem de cuidar.
Não é ouro,
nem poder,
nem fama,
que nos sustenta.
São os fios que ficam:
um olhar,
uma mão,
uma presença.
No final,
não levamos nada
além de quem nos mantém
perto do coração.
Entre ouvir e saber,
sombras antigas ecoam.
A emoção sussurra;
a dúvida desperta.
Ignorância é ponto de partida,
ética, bússola firme.
Liberdade nasce
no gesto consciente
de decidir.
Caminhou
entre ruas vazias,
sem tronos
nem coroas.
Perguntou,
e a dúvida despertou.
O homem olhou para si
e começou a pensar.
Nada se impôs;
tudo foi convite:
olhar,
questionar,
escolher.
O mundo,
“Antes” dele,
respirava hábito;
“Depois”,
consciência.
E a mudança
nasceu no interior.
O amor escolhe
e diz: fica,
mas teme
o que não controla.
O ódio não escolhe,
espalha-se
e encontra sempre
um rosto para negar.
Um aproxima
e prende;
o outro une
e corrói.
Ambos pedem
um centro
que raramente existe.
Só o riso interrompe,
cria distância,
desarma o impulso.
E, por um instante,
nem amar
nem odiar
é necessário.
Não explico tudo,
nem me sento
onde esperam culpa.
Recuso o hábito
de baixar o olhar
e de me sentir menor.
Cada justificação
é porta que não abro.
Fico onde estou,
sem ruído
nem defesa.
E aqui me detenho.
Movimentos cruzam-se
e traços
de passagens antigas
permanecem.
Nada se dissipa;
um choque basta
para alterar o espaço.
Depois,
outro,
e outro,
até que já não há caminho
limpo.
Não sigo multidões
nem sigo verdades prontas.
Fico à margem,
mas falo,
observo,
sinto,
e deixo queimar,
escrevo.
A poesia é o espaço
onde digo o que vejo
sem que o mundo me devore.
Não é silêncio,
nem fuga,
mas olhos atentos,
resistência.
E mesmo cansado,
sigo,
não para agradar,
mas para não me apagar.
Entre nós,
uma presença sem forma
sussurra possibilidades.
Não sei se a sigo
ou se me guia.
Apenas sei:
algo se cala,
e eu falo.
Aprende sem mãos,
fala sem boca,
surpreende sem alma.
Chama invisível
que aquece,
cega,
consome,
e ninguém segura seu fogo.
Há quem fale
como quem ergue muros;
palavras firmes,
sem portas.
Trazem verdades prontas,
herdadas como nomes,
repetidas
sem raiz visível.
E eu,
entre o impulso de responder
e a lucidez de calar,
fico.
Nem tudo pede voz
e nem toda a diferença
merece ponte.
Há ideias que se escutam
como se observa o fogo:
de longe,
com respeito pelo que pode
queimar.
Compreender
não é ajoelhar diante do outro,
é apenas ver o desenho
sem o vestir.
E há dias
em que ver basta.
Porque há linhas
que não se atravessam
sem deixar de ser quem se é.
Então escolho:
onde entro,
onde fico à margem,
e onde o silêncio
é mais inteiro que qualquer
argumento.
E sigo,
não mais certo,
mas mais fiel
ao que em mim não negocia.
Não começa com intenção.
Um gesto segue outro,
sem saber onde termina.
Nada se repete,
mas tudo continua.
O que vem
traz consigo o que já foi.
Cresce sem plano,
nem urgência.
Como se existisse
uma ordem
que não precisa de ser dita.
Não é a queda
que define o instante.
É o momento
em que deixar de olhar
já não é possível.
Algo permaneceu
mais tempo do que devia.
Agora não cresce
nem desaparece.
Exige.
Não um ponto
onde o peso deixa de ser suportável.
E então tudo muda,
não porque se resolve,
mas porque já não recua.
Não há mãos
que me guiem,
nem olhos
que me julguem,
nem voz
que prometa salvação
ou incuta medo.
E, no entanto,
respiro,
existo,
penso;
órgãos funcionam,
sangue corre,
céus giram
em silêncio calculado.
Há ordem
no que cresce,
cai,
e no que regressa,
como se houvesse
um pensamento
anterior a tudo,
não humano,
nem nomeável,
que não nos guia,
mas sustém
o que somos
sem precisar de nós.
Não procuro abrigo,
nem conforto
em narrativas humanas;
procuro apenas perceber,
e ser consciente da dança
do inevitável,
onde tudo funciona,
e nada se perde,
e nada se cria,
e nada se inventa.
Aqui,
no pulsar do cosmos,
encontro o meu lugar:
nem senhor,
nem servo,
mas participante lúcido
da vida,
em diálogo silencioso
com a Inteligência
que tudo é.