Um desvio
nasce sem aviso,
como uma maré
a puxar por dentro.
As paredes sabem primeiro,
encolhem ligeiramente,
o corpo encontra resistência
no mais simples:
uma chávena pousada com força a mais,
um silêncio que não encaixa.
As palavras tropeçam
antes de chegarem à boca,
e quando chegam
já vêm armadas.
Um impulso súbito
de dizer tudo de uma vez,
como quem atira fósforos
sem escolher onde.
Mas nada arde,
apenas range.
No meio desse ranger,
tenta-se suavizar o ar,
alisar o que não cede,
fazer caber o que insiste em crescer.
Por instantes, quase resulta:
um ajuste mínimo,
um acordo breve,
como luz a atravessar água turva.
Mas a instabilidade infiltra-se,
percorre o que parecia calmo.
As vozes sobem,
e aquilo que era só um movimento
cresce.
No fim,
fica a dúvida suspensa:
se houve proteção
ou apenas ampliação.
(Poema desenvolvido a partir da leitura de aspetos
astrológicos de 22 de abril de 2026.)