Uma metade fala
como se soubesse.
A outra sabe
e não fala.
Entre ambas
fica o ruído.
Certeza sem peso
contra peso sem voz.
E a verdade
não se deixa escolher.
Arte
Uma metade fala
como se soubesse.
A outra sabe
e não fala.
Entre ambas
fica o ruído.
Certeza sem peso
contra peso sem voz.
E a verdade
não se deixa escolher.
Não é ficar fora,
mas ver
e não sustentar o peso
de escolher.
Há um ponto
em que o silêncio
deixa de ser pausa
e passa a ser lado.
Não por dizer,
mas por ficar.
Falamos
como quem corta o excesso,
até sobrar o que pesa.
Nem tudo precisa de resposta,
algumas coisas
apenas se dizem
para ficarem mais claras.
E no fim
não há conclusão,
só um pouco mais de silêncio
entre o que se pensa
e o que se vê.
Não é a pressa.
Há dias
em que o caminho
mal se move,
ainda assim
algo insiste.
Não no destino,
mas no gesto
de não parar.
Não é o número.
É o que cedo
quando fico.
A maioria
não pesa.
Pesa o silêncio
onde me perco.
Posso estar
e não ceder,
ouvir
e não seguir,
ou ficar
sem sair de mim.
Não somos iguais;
nunca fomos.
A diferença
não fere.
Fere
o peso que lhe dão.
Quando um corpo
vale menos
pelo lugar onde fica,
e existir
se inclina
como luz
que escolhe
onde pousar,
algo falha
antes do mundo.
Há uma linha
quase invisível:
não ser mais,
nem menos.
E o resto
sobra.
Se há justiça,
é não fechar o caminho
a quem ainda
não chegou.
Não começa na mão.
Há um tempo anterior
silencioso,
onde se aprende
sem saber.
Mãos pequenas
imitam o mundo
como se apresenta
sem defesa
nem distância.
O que não é cuidado
fica.
Cresce escondido,
ganha forma,
repete-se
em outros corpos.
Mais tarde
chama-se erro
ou culpa,
mas já vinha de antes.
A poesia é mais do que o poeta,
e o poeta, menos do que pensa.
Se fosse apenas poeta,
não o seria.
Há nele um impulso
de atravessar o que é,
de se desfazer
para voltar a formar-se.
Não escreve só por si:
tenta tocar
o que nos outros
permanece por dizer.
Mas há palavras
que fingem ser poesia
e apenas repetem o vazio.
E há quem nelas se reconheça
sem nunca ter sonhado.
O poeta, se o for,
não se fixa:
não diz “aqui fico”,
nem chama casa ao lugar
onde o nome repousa.
Porque no instante
em que se define,
perde o que o move.
E fica só
o que já foi dito.
Aceita-se o que brilha
sem peso.
Há mãos
que torcem o ar
até a mentira
parecer forma.
E há quem não olhe,
não por falta de olhos,
mas por descanso.
O inimaginável
não ficou no passado.
Há marcas
que não sangram à vista,
mas atravessam gerações
como um rumor baixo.
Alguém viu,
calou
e aprendeu
a não olhar.
E há quem guarde
essas cinzas
como se ainda aquecessem.
Não se fecha
o que continua a arder
debaixo do nome.
Muda-se a face,
repete-se o gesto.
Há mãos
que ainda se habituam
a mandar,
e outras
a baixar os olhos.
Quando o ódio entra,
não abras portas.
Fumaça negra enrola-se,
sussurros torcem sombras.
Olhos cortam,
risos sopram vento cortante.
Tentam roubar
o que em ti é sólido.
Mantém os pés firmes,
o peito fechado,
a mente clara.
Nem toda palavra
que se move
merece pousar
sobre o que é teu.
E o silêncio respira contigo.
Aprendi cedo
a não confiar no espaço.
O riso dos outros
não era leve
nem inocente,
tinha direção.
Fiquei onde não queria,
a cumprir o tempo,
a fingir normalidade
enquanto algo em mim
era exposto
sem escolha.
Desde então,
não relaxo:
observo,
antecipo,
defendo-me.
Dizem sombra,
e há,
sem dúvida,
mas há também memória
que não esquece
o lugar
onde foi ferida.
Mudo de rosto,
repito o padrão;
não escolho,
reconheço.
E quando não perdoo,
não é grandeza
nem queda:
é a tentativa
de não validar
o que me marcou.
Fico
não por força,
mas por defesa.
E, no silêncio,
ainda vigio o mundo
como se pudesse
voltar a ser
aquele lugar.
Há em mim
mais do que conheço.
Palavras antigas
ainda falam
nos alicerces
do que fui;
separo,
analiso,
descarto,
mas o eco permanece.
A razão vê,
mas não limpa,
e a memória insiste
no que não quero
e devolve-me
ao que já não sou.
O eu
é construção instável:
fragmentos,
imagens,
espelhos quebrados
onde me procuro
e me distorço.
Fui o que esperaram,
tentei ser o que idealizei
e, nesse esforço,
perdi-me
mais do que me encontrei.
O desejo não cessa;
o amor foi pouco
para tanto querer.
Procurei um mundo inteiro,
sem falha,
sem ruído,
sem medida,
mas encontrei
um lugar imperfeito
onde, ainda assim,
se tenta.
No início
é só fazer;
e depois
percebe-se
que há coisas
que não se fazem
sozinhas,
e alguém
tem de cuidar.
Não é ouro,
nem poder,
nem fama,
que nos sustenta.
São os fios que ficam:
um olhar,
uma mão,
uma presença.
No final,
não levamos nada
além de quem nos mantém
perto do coração.
Entre ouvir e saber,
sombras antigas ecoam.
A emoção sussurra;
a dúvida desperta.
Ignorância é ponto de partida,
ética, bússola firme.
Liberdade nasce
no gesto consciente
de decidir.
Caminhou
entre ruas vazias,
sem tronos
nem coroas.
Perguntou,
e a dúvida despertou.
O homem olhou para si
e começou a pensar.
Nada se impôs;
tudo foi convite:
olhar,
questionar,
escolher.
O mundo,
“Antes” dele,
respirava hábito;
“Depois”,
consciência.
E a mudança
nasceu no interior.
O amor escolhe
e diz: fica,
mas teme
o que não controla.
O ódio não escolhe,
espalha-se
e encontra sempre
um rosto para negar.
Um aproxima
e prende;
o outro une
e corrói.
Ambos pedem
um centro
que raramente existe.
Só o riso interrompe,
cria distância,
desarma o impulso.
E, por um instante,
nem amar
nem odiar
é necessário.
Não explico tudo,
nem me sento
onde esperam culpa.
Recuso o hábito
de baixar o olhar
e de me sentir menor.
Cada justificação
é porta que não abro.
Fico onde estou,
sem ruído
nem defesa.
E aqui me detenho.
Movimentos cruzam-se
e traços
de passagens antigas
permanecem.
Nada se dissipa;
um choque basta
para alterar o espaço.
Depois,
outro,
e outro,
até que já não há caminho
limpo.
Não sigo multidões
nem sigo verdades prontas.
Fico à margem,
mas falo,
observo,
sinto,
e deixo queimar,
escrevo.
A poesia é o espaço
onde digo o que vejo
sem que o mundo me devore.
Não é silêncio,
nem fuga,
mas olhos atentos,
resistência.
E mesmo cansado,
sigo,
não para agradar,
mas para não me apagar.