Seguidores

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Hansel e Gretel – Sistema de perda de referência

O que falta

abre caminho.

 

O que sustenta

recua.

 

O que orienta

desaparece primeiro.

 

O que marca o caminho

é consumido pelo próprio passo.

 

A casa oferece

o que reorganiza.

 

O alimento ajusta

o que entra.

 

Nada regressa

como saiu.

 

O que protege

participa do corte.

 

O que procura saída

aprende outra direção

dentro do que o retém.

 

O retorno

não encontra origem:

encontra transformação.

 

 

 

O que se acumula

Há o que se acumula

e fica disponível.

 

O resto

sustenta outra continuidade.

 

Nem toda a utilidade

resiste ao mesmo cálculo.

 

Há formas de sustento

que desaparecem primeiro.

 

O vazio começa

a aproximar-se delas.

 

Nem tudo o que alimenta

se deixa contar.

 

Certas coisas

não atravessam o inverno,

mas atrasam

a chegada.

 

Mais tarde,

ainda há alimento.

 

Mas o silêncio

já não basta.

 

 

O Pé de Feijão

A troca desloca o valor

para fora de medida.

 

O feijão escala

e o corpo sobe atrás.

 

O céu continua.

Não abre.

 

Subir separa.

 

Lá em cima, o excesso fixa-se.

Não circula,

nem desce.

 

O ouro prende

sem precisar de peso.

 

Há uma voz

que não chama,

reivindica.

 

O corte chega

antes de haver escolha.

 

Cair não devolve.

 

Em baixo, tudo se mantém,

mas fora de medida.

 

O que sobe

não regressa:

ordena

o que deixou.

 

 

 

Três Casas

A casa leve

não se sustenta

ante o vento único.

 

A casa média

começa a resistir

onde antes cedia.

 

A casa pesada

não se quebra,

mas perde passagem.

 

O vento

não muda,

insiste.

 

O que foi leve

já não reconhece o chão.

 

O que foi médio

já não distingue apoio.

 

O que foi pesado

já não distingue saída.

 

O lobo

não entra,

insiste.

 

Segurança

não é abrigo,

é a forma final

da parede.

 

 

Capuchinho Vermelho

O caminho divide

antes de se ver.

 

O vermelho fixa

o que ainda não tem nome.

 

A voz encontra

o que já sabia responder.

 

Não há desvio,

há sequência.

 

A casa suspende

o que não pára.

 

O corpo ajusta

até coincidir.

 

O reconhecimento

não chega:

encosta.

 

O corte interrompe

o que já vinha.

 

Depois,

o caminho mantém-se.

 

Mas já não é

por onde se passa.

 

 

Antes do Sono

O sono não se pede,

pousa

onde o corpo

deixa de responder

a uma margem.

 

O que se fecha

não é olhar,

é pulso

sem direção.

 

O que se repete

não é promessa,

é silêncio

a perder contorno.

 

O que se apaga

não é rosto,

é forma

a desfazer-se sem resto.

 

O que se estende

não é noite,

é intervalo

sem confirmação.

 

 

Pequena Sereia – Troca de posição

O mar não vê,

circula.

 

O corpo não sobe,

é levado.

 

A perna não falta,

ajusta.

 

A voz não se perde,

atravessa.

 

Não há olhos

onde começa

o movimento.

 

A superfície não separa,

continua.

 

O reflexo não devolve,

ocupa.

 

O “felizes para sempre” não observa,

repete‑se.

 

A moeda não distingue

quem troca

de quem é trocado.

 

 

Cinderela

A casa alimenta‑se

de quem não se senta.

 

A cinza

aguenta tudo

num só lugar.

 

O baile

apaga os rostos

até restar

um

visto.

 

A magia

não transforma,

ajusta.

 

O sapato

não escolhe,

confirma.

 

À meia‑noite,

o corpo regressa

à forma

que sustenta a casa.

 

Há nomes

que só duram.

 

Mais tarde,

a cinza deixa

de sujar as mãos.

 

Encrava‑se

nos móveis.

 

Limiar do Espelho

O espelho não pergunta

se valemos,

mostra

onde não cabemos.

 

O que se repete

não é rosto,

é movimento

sem origem.

 

A moldura

não protege,

fecha

o lugar

onde o corpo

deixa de coincidir.

 

Lá dentro,

não há herói,

nem monstro:

 

há tempo

a habituar-se

a ser visto.

 

O preço

não é a imagem

quebrada,

 

mas a certeza

de que a fissura

não se repete

quando se olha.

 

 

O que se acumula

 

Há o que se acumula

e fica disponível.

 

O resto

sustenta outra continuidade.

 

Nem toda a utilidade

resiste ao mesmo cálculo.

 

Há formas de sustento

que desaparecem primeiro.

 

O vazio começa

a aproximar-se delas.

 

Nem tudo o que alimenta

se deixa contar.

 

Certas coisas

não atravessam o inverno,

mas atrasam

a chegada.

 

Mais tarde,

ainda há alimento.

 

Mas o silêncio

já não basta.

 

 

O Que Persiste

Há no humano

uma inclinação

para repetir o que o detém.

 

Nem tudo o que persiste

avança.

 

Certos equilíbrios

suspendem mais

do que movem.

 

E, no entanto,

há ordem

que nasce da instabilidade.

 

O imóvel

sustenta forma,

o vivo

nem sempre muda.

 

 

Foco

Há um erro discreto

na forma como se divide o foco.

 

Não é a escolha que falha,

mas a suposição de escolha.

 

Duas direções

seguem ao mesmo tempo

sem avançar.

 

O avanço

acontece

sem direção.

 

Mais tarde,

o objetivo

não reconhece o percurso.

 

O percurso

mantém-se.

 

E a distração

permanece intacta

mas já não tem nome.

 

 

Versões

Falam

em tempos desencontrados.

 

Quando repetem,

não dizem o mesmo.

 

Há sempre uma frase

que fica de fora

e volta incluída noutro sítio.

 

Mais tarde,

surge noutra sala.

 

Ninguém corrige.

 

Continuam.

 

As versões aproximam-se,

mas não coincidem.

 

Uma palavra permanece

fora do lugar.

 

É aí

que a confiança descontinua.

 

 

Suspensão

Antes do acidente,

retiram o objeto.

 

Mudam-no de divisão,

fecham a porta,

vigiam o corredor.

 

Nada desaparece.

Apenas espera.

 

A idade avança dentro do intervalo.

 

Há movimentos

que deixam de acontecer

para não começarem.

 

Mais tarde,

quando toca naquilo que faltava,

não cai.

 

Fica a meio.

 

O relógio abranda,

o fogo mantém-se baixo,

os animais não atravessam o pátio.

 

Ninguém insiste.

 

A casa aprende a continuar parada.

 

Anos depois,

alguém entra.

 

Não procura resposta,

procura acesso.

 

O gesto aproxima-se do corpo intacto

como quem reabre um quarto fechado.

 

E tudo recomeça exactamente

onde tinha sido interrompido.

 

 

À Porta

Aprende cedo

o tom exato.

 

Nem tudo se cala:

algumas coisas mudam de divisão.

 

A voz chega primeiro.

Fica à porta.

 

Mais tarde,

quando perguntam,

já responde em duas línguas.

 

Antes

Antes de responder,

repete.

 

A pergunta

já vem dita.

 

Alguns aprendem

o que dizer.

Outros,

quando parar.

 

Mais tarde,

o silêncio

responde.