O barro
recebe
as primeiras mãos.
Nem por isso
fica
condenado
à primeira forma.
Não era
o rosto.
Era o olhar
que a ideia
lhe dava.
Enquanto
o pensamento
não se deslocava,
o inimigo
era o mesmo.
Cresceu
a acreditar
que o vento
soprava sempre
a favor.
Bastou
a primeira tempestade.
As guerras
não começam
com o primeiro tiro.
Começam
quando uma palavra
deixa
de chamar
alguém
pessoa.
O primeiro disparo
nunca
é de pólvora.
É de linguagem.
Aquilo
que negas
cresce no escuro.
O que aceitas
aprende a luz
do teu nome.
E tu,
és
a travessia.
Uma vida
não adoece apenas
pelo que sofre.
Corrói-se também
por tudo
o que nunca
ousou
viver.
Cada poeta
tem as suas palavras preferidas.
Mas o estilo
não nasce
de as repetir.
Nasce
de saber
quando as calar.
Uns empunham espadas.
Outros seguram papéis.
E, muitas vezes,
é essa luta silenciosa
que mais cansa.
Nem todas as batalhas
fazem ruído.
Algumas
cabem
na espera
de uma assinatura
capaz de devolver
um pouco
de descanso.
O mundo
não vive apenas
dos que o mudam.
Vive também
dos que, todos os dias,
não o deixam
desistir de si mesmo.
Respostas esgotam-se
Perguntas respiram.
O espanto não envelhece enquanto o escutamos.
Não foi a palavra que chegou.
Fui eu que, depois de tantos
caminhos, finalmente a reconheci.
E no entanto, sempre soube o meu
nome.
Algumas conversas terminam.
Outras permanecem em nós como a luz
numa janela depois de nos afastarmos da casa.
Não sei se a vida tem um sentido.
Sei apenas que perde um pouco do
mistério sempre que acreditamos tê-lo encontrado.
Talvez por isso a verdade caminha
devagar:
para que o espanto a acompanhe.
Quando voltares,
não tragas respostas.
Traz apenas
o lugar
onde a pergunta
viveu.
Entretanto
tudo mudou.
E nós
com ela.
As árvores mais antigas
não são as mais direitas.
São as que aprenderam a crescer
aceitando as curvas do vento.
Nenhum ramo
escolheu a tempestade.
Nenhuma raiz
pediu a seca.
E, apesar de tudo,
continuaram.
Há árvores
que o mundo
transforma
em madeira.
Outras
permanecem árvores,
porque nunca deixaram
de conversar
com o vento.
As oliveiras
não vencem o tempo.
Conversam com ele.
Cada inverno
retira-lhes um ramo.
Cada primavera
ensina-lhes
outra maneira
de dar fruto.
Continuam
a enraizar-se
enquanto
o vento
as muda.
Nem sempre
aquilo que dizemos
fala do mundo.
Muitas vezes,
fala
do lugar
de onde
o olhamos.
Pela escotilha
via-se tudo:
o mar,
o fogo,
as mães,
as crianças.
O mais difícil
não foi olhar,
foi continuar
sem ver.
(Em memória de Tomé Lopes, que deixou escrito:
«lembrarei toda a minha vida».)
A amizade é isto.
Não caminhar à frente
para mostrar o caminho.
Nem atrás
para empurrar.
Mas ao lado,
até que o caminho
volte
a reconhecer-nos.
É possível que ainda nos habite
uma caverna.
Um lugar antigo
onde o estranho
veste a forma
do perigo.
Mas há também
uma janela.
E foi por ela
que a humanidade aprendeu,
devagar,
a reconhecer um irmão
onde antes via
apenas
o escuro de um rosto.
A existência não desaparece
quando nos faltam as forças.
Apenas se recolhe
para um lugar mais fundo,
onde o silêncio aprende
a esperar.
Há dias em que o corpo
baixa a voz.
E, ainda assim,
algo em nós
permanece
de pé,
quieto,
à escuta
do que há de voltar.
Não é o amor que mais nos assusta.
É a luz que ele acende sobre quem somos.
Amar é tornar visível
uma parte de nós
que já não consegue esconder-se.
O passado não nos chama.
Somos nós que regressamos.
Até que um dia a consciência se senta ao lado da
memória
e lhe fala como quem pousa a mão sobre uma ferida:
"Já não precisas de abrir esta história para
saber que ela é tua."
Não somos vistos.
Somos traduzidos.
Cada olhar reescreve-nos
na linguagem de quem olha.
Por isso,
não procures habitar
a imagem que fazem de ti.
Habita apenas
a verdade
com que te ofereces.
O resto
pertence ao mistério
de cada encontro.
Manhãs que não trazem respostas.
Trazem apenas
uma nova oportunidade
de fazer
a mesma pergunta
com um coração
mais tranquilo.
Os hábitos não vivem apenas nas mãos.
Moram no movimento antigo do corpo.
Aprendem o ritmo das nossas alegrias.
E também o da dor.
O corpo não os larga.
Não porque os ame.
Mas porque, durante tanto tempo,
foram eles que conheciam
o caminho de regresso a casa.
Entrei numa livraria.
Um príncipe esperava-me há cinco séculos.
Peguei-lhe nas mãos.
Li-lhe o silêncio.
E voltei a pousá-lo.
Ainda não.
Talvez noutro dia.
Disseram-me que governar é conservar o reino.
Mas pensei:
quem veste uma coroa não deveria vestir também a alma
do povo?
De que servem as muralhas intactas,
se, por dentro,
as consciências desabam?
Governar talvez seja
o mais solitário dos ofícios.
Escolher
quando nenhuma escolha permanece inteira.
Responder
por vidas que nunca caberão na própria vida.
Então alguém perguntou:
— Que espécie de homem te tornarias enquanto
governasses?
Não soube responder.
Talvez porque algumas perguntas não procuram resposta.
Apenas uma vida.
Sorri.
E disse:
prefiro ser poeta.
Não porque os poetas sejam mais puros,
mas porque lhes é permitido continuar a perguntar
quando os príncipes
já não podem adiar a decisão.
Ainda acredito
que houve governantes que serviram antes de mandar,
que compreenderam
que nenhuma fronteira delimita a humanidade.
Mas sei também
que o poder pesa mais do que as mãos.
Por isso
fico.
Entre os livros.
À espera
de um verso
que governe
o pequeno reino
da consciência.