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terça-feira, 28 de abril de 2026

Metade do Mundo

Uma metade fala

como se soubesse.

 

A outra sabe

e não fala.

 

Entre ambas

fica o ruído.

 

Certeza sem peso

contra peso sem voz.

 

E a verdade

não se deixa escolher.

Linha

Não é ficar fora,

mas ver

e não sustentar o peso

de escolher.

 

Há um ponto

em que o silêncio

deixa de ser pausa

e passa a ser lado.

 

Não por dizer,

mas por ficar.

 

Entre linhas

Falamos

como quem corta o excesso,

até sobrar o que pesa.

 

Nem tudo precisa de resposta,

algumas coisas

apenas se dizem

para ficarem mais claras.

 

E no fim

não há conclusão,

só um pouco mais de silêncio

entre o que se pensa

e o que se vê.

 

 

Passo

Não é a pressa.

 

Há dias

em que o caminho

mal se move,

ainda assim

algo insiste.

 

Não no destino,

mas no gesto

de não parar.

 

Lado

Não é o número.

 

É o que cedo

quando fico.

 

A maioria

não pesa.

 

Pesa o silêncio

onde me perco.

 

Posso estar

e não ceder,

ouvir

e não seguir,

ou ficar

sem sair de mim.

 

 

Medida

Não somos iguais;

nunca fomos.

 

A diferença

não fere.

 

Fere

o peso que lhe dão.

 

Quando um corpo

vale menos

pelo lugar onde fica,

 

e existir

se inclina

como luz

que escolhe

onde pousar,

 

algo falha

antes do mundo.

 

Há uma linha

quase invisível:

 

não ser mais,

nem menos.

 

E o resto

sobra.

 

Se há justiça,

 

é não fechar o caminho

a quem ainda

não chegou.

 

Antes

Não começa na mão.

 

Há um tempo anterior

silencioso,

onde se aprende

sem saber.

 

Mãos pequenas

imitam o mundo

como se apresenta

sem defesa

nem distância.

 

O que não é cuidado

fica.

 

Cresce escondido,

ganha forma,

repete-se

em outros corpos.

 

Mais tarde

chama-se erro

ou culpa,

mas já vinha de antes.

 

 

Sem Morada

A poesia é mais do que o poeta,

e o poeta, menos do que pensa.

 

Se fosse apenas poeta,

não o seria.

 

Há nele um impulso

de atravessar o que é,

de se desfazer

para voltar a formar-se.

 

Não escreve só por si:

tenta tocar

o que nos outros

permanece por dizer.

 

Mas há palavras

que fingem ser poesia

e apenas repetem o vazio.

 

E há quem nelas se reconheça

sem nunca ter sonhado.

 

O poeta, se o for,

não se fixa:

não diz “aqui fico”,

nem chama casa ao lugar

onde o nome repousa.

 

Porque no instante

em que se define,

perde o que o move.

 

E fica só

o que já foi dito.

 

 

O Brilho do Vazio

Aceita-se o que brilha

sem peso.

 

Há mãos

que torcem o ar

até a mentira

parecer forma.

 

E há quem não olhe,

não por falta de olhos,

mas por descanso.

 

 

Sem Nome

O inimaginável
não ficou no passado.

Há marcas
que não sangram à vista,
mas atravessam gerações
como um rumor baixo.

Alguém viu,
calou
e aprendeu
a não olhar.

E há quem guarde
essas cinzas
como se ainda aquecessem.

Não se fecha
o que continua a arder
debaixo do nome.

Muda-se a face,
repete-se o gesto.

Há mãos
que ainda se habituam
a mandar,
e outras
a baixar os olhos.

 


Invasão

Quando o ódio entra,

não abras portas.

 

Fumaça negra enrola-se,

sussurros torcem sombras.

 

Olhos cortam,

risos sopram vento cortante.

Tentam roubar

o que em ti é sólido.

 

Mantém os pés firmes,

o peito fechado,

a mente clara.

 

Nem toda palavra

que se move

merece pousar

sobre o que é teu.

 

E o silêncio respira contigo.

 

 

 

Defesa

Aprendi cedo

a não confiar no espaço.

 

O riso dos outros

não era leve

nem inocente,

tinha direção.

 

Fiquei onde não queria,

a cumprir o tempo,

a fingir normalidade

enquanto algo em mim

era exposto

sem escolha.

 

Desde então,

não relaxo:

observo,

antecipo,

defendo-me.

 

Dizem sombra,

e há,

sem dúvida,

mas há também memória

que não esquece

o lugar

onde foi ferida.

 

Mudo de rosto,

repito o padrão;

não escolho,

reconheço.

 

E quando não perdoo,

não é grandeza

nem queda:

é a tentativa

de não validar

o que me marcou.

 

Fico

não por força,

mas por defesa.

 

E, no silêncio,

ainda vigio o mundo

como se pudesse

voltar a ser

aquele lugar.

 

O Nome

Não dei o nome;

ele veio.

 

No silêncio,

uma presença surge

e nos faz olhar.

 

 

Espelhos Quebrados

Há em mim

mais do que conheço.

 

Palavras antigas

ainda falam

nos alicerces

do que fui;

separo,

analiso,

descarto,

mas o eco permanece.

 

A razão vê,

mas não limpa,

e a memória insiste

no que não quero

e devolve-me

ao que já não sou.

 

O eu

é construção instável:

fragmentos,

imagens,

espelhos quebrados

onde me procuro

e me distorço.

 

Fui o que esperaram,

tentei ser o que idealizei

e, nesse esforço,

perdi-me

mais do que me encontrei.

 

O desejo não cessa;

o amor foi pouco

para tanto querer.

 

Procurei um mundo inteiro,

sem falha,

sem ruído,

sem medida,

mas encontrei

um lugar imperfeito

onde, ainda assim,

se tenta.

 

 

O Gesto

No início

é só fazer;

e depois

percebe-se

que há coisas

que não se fazem

sozinhas,

e alguém

tem de cuidar.

 

 

A Rede

Não é ouro,

nem poder,

nem fama,

que nos sustenta.

 

São os fios que ficam:

um olhar,

uma mão,

uma presença.

 

No final,

não levamos nada

além de quem nos mantém

perto do coração.

 

 

Luz do Pensar

Entre ouvir e saber,

sombras antigas ecoam.

A emoção sussurra;

a dúvida desperta.

Ignorância é ponto de partida,

ética, bússola firme.

Liberdade nasce

no gesto consciente

de decidir.

 

 

O Pensador de Atenas

Caminhou

entre ruas vazias,

sem tronos

nem coroas.

 

Perguntou,

e a dúvida despertou.

O homem olhou para si

e começou a pensar.

 

Nada se impôs;

tudo foi convite:

olhar,

questionar,

escolher.

 

O mundo,

“Antes” dele,

respirava hábito;

“Depois”,

consciência.

 

E a mudança

nasceu no interior.

 

 

Entre Dois Impulsos

O amor escolhe

e diz: fica,

mas teme

o que não controla.

 

O ódio não escolhe,

espalha-se

e encontra sempre

um rosto para negar.

 

Um aproxima

e prende;

o outro une

e corrói.

 

Ambos pedem

um centro

que raramente existe.

 

Só o riso interrompe,

cria distância,

desarma o impulso.

 

E, por um instante,

nem amar

nem odiar

é necessário.

 

 

 

Sem Justificação

Não explico tudo,

nem me sento

onde esperam culpa.

 

Recuso o hábito

de baixar o olhar

e de me sentir menor.

 

Cada justificação

é porta que não abro.

 

Fico onde estou,

sem ruído

nem defesa.

 

E aqui me detenho.

 

 

 

Órbita

Movimentos cruzam-se

e traços

de passagens antigas

permanecem.

 

Nada se dissipa;

um choque basta

para alterar o espaço.

 

Depois,

outro,

e outro,

até que já não há caminho

limpo.

 

 

Entre Vozes

Não sigo multidões

nem sigo verdades prontas.

 

Fico à margem,

mas falo,

observo,

sinto,

e deixo queimar,

escrevo.

 

A poesia é o espaço

onde digo o que vejo

sem que o mundo me devore.

 

Não é silêncio,

nem fuga,

mas olhos atentos,

resistência.

 

E mesmo cansado,

sigo,

não para agradar,

mas para não me apagar.