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quarta-feira, 15 de julho de 2026

Companhia

Foram mudando os nomes.

 

Uns vinham ao amanhecer,

outros à noite.

 

Alguns pousavam durante um tempo,

depois deixavam de servir.

 

A vida seguia.

 

Mudavam os corpos, as casas, os dias, mudava também o desejo.

 

Nem sempre na mesma direção,

nem sempre com explicação.

 

Houve quem procurasse uma palavra exata.

 

Eu não.

 

Bastou-me saber

quem me esperava quando voltava

e quem levava comigo quando partia.

 

Domingo

A relva aparada,

o carro lavado.

 

Um homem,

uma mulher,

dois filhos

e um cão.

 

Tudo quieto,

menos as mãos.

 

Só a vida,

a mexer-se por dentro.

 

 

 

 

Exemplo

Procuravam um exemplo.

 

Abriram o livro.

 

Encontraram uma expulsão, um irmão morto, um pai com mais de uma casa, um filho fora do nome, heranças em disputa, ciúmes, fugas, regressos.

 

E continuaram.

 

As páginas multiplicavam a família.

 

Nenhuma cabia inteira na moldura.

 

Fecharam o livro.

 

E salvaram, não a história, mas a palavra.

 

 

 

Costume

Primeiro, houve uma diferença.

 

Um corpo alcançava mais longe:

erguia peso, atravessava distância, regressava da caça.

 

O outro guardava o fogo, o alimento, os nomes.

 

As tarefas aprenderam o caminho.

 

Depois, vieram as casas, as cercas, as heranças.

 

Passou das mãos para os muros.

 

Entrou nas leis, nos livros, nas preces.

 

Durante séculos, ninguém reparou onde terminava o costume.

 

Até que alguém olhou de novo

 

e encontrou uma escolha onde todos viam o mundo.

 

Escolha

A mesa estava posta,

os lugares também

e havia nomes para cada cadeira.

 

A casa sabia o que esperava.

 

Durante muito tempo, foi assim.

 

Depois, sem ruído,

alguém escolheu onde se sentar.

 

A madeira não cedeu,

as paredes permaneceram.

 

Mas desde esse dia,

já não era a casa que decidia quem ficava.

 

Vestido

A bainha desce alguns centímetros.

 

Os comentários param.

 

Ninguém pergunta se ela tem frio.

 

A preocupação não está no corpo.

 

Está na distância

que ele percorre

sem autorização.

Prova

Ninguém a viu.

 

Ainda assim, passa de mão em mão.

 

Está na força do braço, na largura dos ombros, no tom da voz.

 

Mede o dinheiro, a coragem, o silêncio.

 

Muda de forma conforme a época.

 

Mas nunca desaparece.

 

Há quem cresça para dentro dela até perder o próprio passo.

 

Poucos perguntam quem a desenhou.

 

Menos ainda para que serve.

 

E, no entanto,

 

continua ali,

 

a medir homens antes mesmo de saberem o nome.

 

 

 

Imagem

Primeiro,

foi uma imagem.

 

Uma voz.

 

Um rosto suspenso sobre as cabeças.

 

Entrou

e não houve estranheza.

 

As crianças aprenderam o nome

antes da pergunta.

 

Depois vieram as pinturas,

os altares,

os livros.

 

A semelhança fez-se costume.

 

Os olhos repetiram-se na pedra,

na tinta,

na palavra.

 

Mais tarde, alguém perguntou:

 

se o céu não tem corpo,

quem lhe deu um homem?

 

 

Mordida

A mandíbula aperta,

a língua volta ao corte.

 

Durante um instante,

os dentes alinham-se.

 

Um cão morde.

 

A pele fecha,

o sinal acende nos dias de frio.

 

A cicatriz afasta-se.

 

O cão não.

 

E a mordida

fica onde aconteceu.

 

 

Diferença

O nome permanece.

 

Atravessa séculos,

muda de língua,

não desaparece.

 

Há templos,

livros,

vozes que o repetem.

 

Ninguém o encontra.

 

Um homem senta-se junto à janela;

a luz muda de lugar,

a poeira também,

a mão envelhece.

 

O nome permanece

 

O homem não sabe

o que sustém o mundo.

 

Mas sabe

qual dos dois deixa pegadas.

 

 

 

segunda-feira, 13 de julho de 2026

A Humanidade

Nenhuma Guerra

 

Nenhuma guerra explica

porque morre uma criança.

 

Nenhuma fronteira responde.

Nenhuma bandeira responde.

Nenhuma vitória responde.

 

Só fica

o silêncio

de um futuro

que já não será

o nosso.

 

 

 

Luto

 

Quando morre uma criança,

não morre apenas uma vida.

 

Morre também

uma forma de a humanidade

se reconhecer

viva.

 

 

 

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Em Nome da Pátria

Vestem-se de bandeira

como quem tapa a vergonha

de ter vendido a casa.

 

Ajoelham-se ao império

não por medo,

mas por cálculo.

 

Chamam patriotismo

à moeda suja da submissão,

à honra posta em leilão

por uma cela mais distante.

 

O preço foi imposto

e houve quem sorrisse

como se a pátria

fosse um bem herdado

e o povo

uma sombra útil.

 

Mas a história

não precisa de gritos.

 

Basta-lhe

a palavra certa

para deixar

os nomes

na lama.

 

terça-feira, 7 de julho de 2026

Enquanto

Há dias

em que não sabemos

se estamos a avançar.

 

Apenas continuamos.

 

Não porque a esperança

tenha falado mais alto,

mas porque alguém

precisa de nós

enquanto o dia

não aprende

a respirar de novo.

 

Talvez seja isso

a coragem:

 

não vencer a noite,

mas permanecer

inteiro

enquanto ela passa.

 

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Resto

Uma máscara

nunca sabe

que é máscara.

 

É o rosto

que, um dia,

esqueceu

de regressar.

 

O espelho

não inventa

ninguém.

 

Apenas

devolve

aquilo

que ficou.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Mortais Pecados

Olho-me ao espelho,

debruado, a talha

luminosamente esculpida,

dourada.

E pergunto-me,

pelo espanto das respostas,

na assumida personagem

de rainha má:

quem sou,

para o que dou?

Quem me dá?

 

Miro-me

na volumetria das imagens,

cobertas por peles enrugadas,

vincadamente marcadas

por exageros expressivos;

de choros,

por entre risos,

plantados

nos ansiosos ritmos do tempo.

 

Profundos e negros pontos.

Poros

de milimétricos diâmetros.

Sombras cinzentas.

Castanhos pêlos.

Brancas,

perdidas entre cabelos.

Perfil

de perfeita raiz de grego.

Boca carnuda,

gretada de secura,

sedenta

de saudosos

e sugados beijos;

de línguas entrelaçadas,

lambidelas

bem salivadas.

 

Contemplo-me,

fixado

no meu próprio olhar,

de cor baça-tristeza,

desfocando

a máscara

de pálido cansaço.

E não resisto

ao embaraço

de Narciso.

Sou o deus

que procurei

e amei,

em cumprimento

do milagre,

ou o mal

que,

de tanto

me obrigar,

não reneguei?

 

Sou

o miraculoso encantador

a quem me dei,

ou a raposa velha,

vaidosa,

vestida de egoísta,

com estola

de alva ovelha,

falsa de altruísta?

 

No meu lamento,

a amargura

por quem matei.

Sangrando a vítima,

trucidei-a

num ranger de molares.

Saboreei,

com as papilas gustativas,

variados paladares,

viciado

no prazer da gula,

como instintivo porco,

omnívoro.

 

Rezo baixinho,

cantarolando

beatas ladainhas

de pecador,

que rouba

e se perdoa

a cem anos

de encarceramento.

 

No aliciamento,

cobiçante

por belas coxas,

pertença

de quem

constantemente

me enfrenta,

competindo

com as mesmas forças.

Traindo-me

na existência

do meu possuir.

Viradas as costas,

acabamos sempre

por fingir.

 

Entendo

velhos e sábios ditados,

não os querendo

surdinar

em consciência.

 

Penso de mim

a importância

demasiada,

que outros

possam entender

como comuns mortais.

 

Minha é

a inteligente certeza

de querer

enganar

e vencer.

 

Sadicamente,

esbofeteio

a rechonchuda face

do idealista tímido,

que acredita

e se deixa humilhar.

Dá-me a outra,

para também

a avermelhar.

 

Vendo-me

a infinitas

e elegantes riquezas,

luxúrias terrenas,

orgias bacantes,

incestuosas,

sedas,

glamour,

jóias preciosas,

tudo o que tenha

etiqueta de marca,

marcantemente conotada,

que pavoneie

a intensa profundidade

da minha alma.

Ah! Ah!

 

Salvas rebuscadas,

brilhantes,

de prata,

pesadas,

riscadas

de branco

e fino pó.

 

Prostituo-me

ao preço

da mais-valia.

Excita-me,

de travesti Madalena,

ter um guru

para me defumar,

benzer

e perdoar,

sem que me caia

uma pedra

na cauda.

 

Adoro

o teatro espectacular,

encenado

e ensaiado

em vida.

Mas faço sempre

de pobre amador,

sendo

um resistente actor.

 

Escancaro

a garganta

para trautear,

sem saber,

nem sequer,

solfejar.

E gargarejo

a seiva da videira,

que me escorre

pelo escapismo

do meu engano,

querendo,

audaciosamente,

brilhar,

descontrolando

o encarrilhar

do instrumento

das cordas da glote

com o

do fole pulmonar.

E desafino

o doce

e melódico hino.

 

Sou,

no vedetismo,

a mediocridade

que se desfaz

com o tempo,

até ser capaz

de timbrar,

sem ser pateado.

 

Acelero

nas viagens

que caminham

até mim.

Fujo do lento

e travo

demasiado.

Curvas perigosas,

apertadas,

que me inundam de adrenalina

na fronteira

do abismo.

 

Fumo,

bebo

em excesso

e converso

temas banais,

por entre ondas móveis,

que me encurtam

a pomposa solidão.

 

Mas nada

é em vão.

 

Tenho na dicção

um tom vibrado

e estudado,

de dizer bem

as palavras

que sinto.

Mas,

premeditadamente,

minto

e digo,

de propósito,

sempre

o errado.

 

Sou mal-educado,

demasiado carente,

enfadonho,

que ressona

e grunhe

durante o sono.

 

Tenho sempre

o apressado intuito

de saber,

de querer,

arrogantemente,

chamar a atenção,

por me achar,

condignamente,

o melhor,

um senhor,

sem noção

do que são

a razão

e o ridículo.

 

Digo não

quando deveria

pronunciar

sim.

 

Teimosamente,

rancoroso,

tolo,

alucinado,

perverso,

mal-humorado,

vejo em tudo

a maldade

do pecado.

 

Digo não

quando deveria

embelezar

a afirmação.

 

Minto,

digo

e desfaço-me,

propositadamente,

em negação.

 

Mas fiz

a gloriosa descoberta

do meu crescer.

Tenho

uma virtuosa

e única

qualidade.

Alguém,

pacientemente,

gosta muito

de mim.

 

Obrigado.

 

Tenho

que descansar.

 

 

(Mortais Pecados foi escrito em 2003 e publicado, pela primeira vez, em 2006, no livro (Re)cantos da Lua.

Ao relê-lo hoje, preferi preservar-lhe a voz. As únicas alterações introduzidas dizem respeito à pontuação e a pequenas correções gramaticais.

Cada poema nasce de um tempo.

Este permanece como testemunho desse tempo.)