Paz no peito,
amor que existe,
abraço como a noite ao mar.
Presença que acolhe,
silenciosa,
sem nada exigir.
O mundo lá fora
pode rugir,
mas aqui
o tempo suspende
e basta o que se sente.
Arte
Paz no peito,
amor que existe,
abraço como a noite ao mar.
Presença que acolhe,
silenciosa,
sem nada exigir.
O mundo lá fora
pode rugir,
mas aqui
o tempo suspende
e basta o que se sente.
Em Gaza,
antes do grito,
antes do suspiro,
somente fogo.
Corpos evaporam,
memórias negadas,
um adeus recusado.
O horror permanece,
o luto não encontra chão.
(Poema inspirado em relatos de destruição extrema e
perda em Gaza, traduzindo em linguagem poética a dor, a indignação e a
impossibilidade de despedida de vítimas inocentes.)
O muro não nasce da pedra,
mas do acordo silencioso
de não perguntar.
Quem não ousa o desvio
confunde horizonte
com limite.
Pensar diferente
é arriscar o chão,
é aceitar o fogo
como preço da visão.
Nem todos atravessam o muro;
alguns apenas o defendem
para não ver
o que os obrigaria a mudar.
Mas há quem prefira arder
a viver inteiro
do lado de dentro.
Não é o céu que chama,
é o início.
Algo nasce sem memória, com pressa,
como se a urgência fosse verdade.
Forma sem visão,
fé sem chão,
disciplina a querer conter o que ainda não sabe.
O impulso avança antes da clareza
e chama destino ao primeiro gesto.
Constrói-se enquanto se desfaz,
ordena-se enquanto se perde,
e ninguém sabe se isto é começo ou fuga.
O perigo não está no sonho,
mas no sonho armado de certeza.
Quando o vazio se declara fundador,
qualquer ação parece justa
e qualquer chama parece luz.
E o mundo recomeça sem saber ainda
se aprendeu a ver.
(Poema inspirado no encontro entre Saturno e Neptuno
em Carneiro, no dia 20 de fevereiro, traduzindo simbolicamente a tensão entre
ordem e impulso, limite e dissolução.)
Não são loucos;
aprendem a crer
antes de aprender a ver.
A crença é maleável,
pode ser moldada,
dobrada
e conduzida.
O conhecimento é distinto.
Agita,
rompe
e ilumina;
por isso assusta.
Quem conhece
não se dobra à certeza alheia,
nem se alimenta
do ritual da obediência.
O poder teme
o que não pode controlar:
não a fé,
mas a verdade
que se ergue sozinha.
Ajudam, desde cima,
estendendo a mão
sem largar o peso
que carregam nos outros.
Chamam cuidado
ao que mantém a altura,
e solidariedade
ao que não muda o lugar.
Nada falta aos atos;
falta a descida.
Porque descer é perder vantagem,
deixar de ser necessário
e tocar o chão comum.
Assim, os pobres permanecem úteis
e os ricos continuam leves,
sentados sobre o mesmo corpo.
Não é o erro que dói,
é vê-lo,
e por isso ajusta-se o mundo
até caber na crença.
Trocam-se factos por versões,
perguntas por ruído,
e chama-se equilíbrio
ao alívio momentâneo.
Quando a verdade pressiona,
culpa-se o mensageiro,
desloca-se o foco
e simplifica-se o intolerável.
Não é mentira consciente:
é defesa.
A consciência pesa,
e o ego prefere leveza,
mesmo que custe
o contacto com o real.
Assim, aprende-se a viver
com ideias que não tocam,
escolhas que não se olham
e silêncios que parecem paz.
Mas por dentro algo range:
não é culpa,
é fratura.
E o preço de não sentir
é continuar inteiro,
mas apenas
por fora.
Nada cai de uma vez;
tudo escorre.
As formas desfazem-se sem ruído,
sem anúncio,
como se nunca tivessem sido necessárias.
Chamam liberdade à ausência de amarras,
mas esquecem de dizer
que sem peso não há permanência.
As vidas tornam-se portáteis,
os afetos reversíveis
e as promessas adaptáveis
ao próximo contexto.
Tudo deve mover-se,
porque parar exige sustentar.
Não se destrói o vínculo:
deixa-se evaporar,
nem se nega o sentido:
adiam-se as perguntas.
E o vazio,
quando não dói,
passa a ser normal.
Os que sentem primeiro
são sempre poucos,
não porque saibam mais,
mas porque ainda não aprenderam
a flutuar.
Cansam-se cedo,
questionam demais,
e procuram chão
onde só lhes oferecem superfície.
Mas é neles
que a densidade resiste,
como um resto incómodo
que não se dissolve.
Talvez não sejam o futuro,
mas são o limite:
a prova de que nem tudo
aceita tornar-se líquido
sem perder a alma.
Há momentos
em que não escolher
já é uma escolha.
Não dizer
não suspende o mundo;
apenas o deixa seguir
sem resistência.
O silêncio veste-se de prudência,
mas aprende depressa
a linguagem do conforto.
Enquanto isso,
direitos não caem de repente:
são retirados devagar,
com a colaboração
de quem olha
e chama a isso distância.
Não é preciso violência
quando basta a ausência,
não é preciso imposição
quando o hábito substitui o juízo.
A neutralidade não é um lugar:
é uma margem
onde o mal descansa
sem ser nomeado.
E tudo o que não é nomeado
volta,
sempre,
como normal.