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sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Além do Muro

O muro não nasce da pedra,

mas do acordo silencioso

de não perguntar.

 

Quem não ousa o desvio

confunde horizonte

com limite.

 

Pensar diferente

é arriscar o chão,

é aceitar o fogo

como preço da visão.

 

Nem todos atravessam o muro;

alguns apenas o defendem

para não ver

o que os obrigaria a mudar.

 

Mas há quem prefira arder

a viver inteiro

do lado de dentro.

 

Conjunção

Não é o céu que chama,

é o início.

 

Algo nasce sem memória, com pressa,

como se a urgência fosse verdade.

 

Forma sem visão,

fé sem chão,

disciplina a querer conter o que ainda não sabe.

 

O impulso avança antes da clareza

e chama destino ao primeiro gesto.

 

Constrói-se enquanto se desfaz,

ordena-se enquanto se perde,

e ninguém sabe se isto é começo ou fuga.

 

O perigo não está no sonho,

mas no sonho armado de certeza.

 

Quando o vazio se declara fundador,

qualquer ação parece justa

e qualquer chama parece luz.

 

E o mundo recomeça sem saber ainda

se aprendeu a ver.

 

 

 

(Poema inspirado no encontro entre Saturno e Neptuno em Carneiro, no dia 20 de fevereiro, traduzindo simbolicamente a tensão entre ordem e impulso, limite e dissolução.)

 

 

Perigo

Não são loucos;

aprendem a crer

antes de aprender a ver.

 

A crença é maleável,

pode ser moldada,

dobrada

e conduzida.

 

O conhecimento é distinto.

Agita,

rompe

e ilumina;

por isso assusta.

 

Quem conhece

não se dobra à certeza alheia,

nem se alimenta

do ritual da obediência.

 

O poder teme

o que não pode controlar:

não a fé,

mas a verdade

que se ergue sozinha.

 

 

Costas

Ajudam, desde cima,

estendendo a mão

sem largar o peso

que carregam nos outros.

 

Chamam cuidado

ao que mantém a altura,

e solidariedade

ao que não muda o lugar.

 

Nada falta aos atos;

falta a descida.

 

Porque descer é perder vantagem,

deixar de ser necessário

e tocar o chão comum.

 

Assim, os pobres permanecem úteis

e os ricos continuam leves,

sentados sobre o mesmo corpo.

Dissonância

Não é o erro que dói,

é vê-lo,

e por isso ajusta-se o mundo

até caber na crença.

 

Trocam-se factos por versões,

perguntas por ruído,

e chama-se equilíbrio

ao alívio momentâneo.

 

Quando a verdade pressiona,

culpa-se o mensageiro,

desloca-se o foco

e simplifica-se o intolerável.

 

Não é mentira consciente:

é defesa.

A consciência pesa,

e o ego prefere leveza,

mesmo que custe

o contacto com o real.

 

Assim, aprende-se a viver

com ideias que não tocam,

escolhas que não se olham

e silêncios que parecem paz.

 

Mas por dentro algo range:

não é culpa,

é fratura.

 

E o preço de não sentir

é continuar inteiro,

mas apenas

por fora.

 

 

 

 

 

 

 

 

Estado Líquido

Nada cai de uma vez;

tudo escorre.

 

As formas desfazem-se sem ruído,

sem anúncio,

como se nunca tivessem sido necessárias.

 

Chamam liberdade à ausência de amarras,

mas esquecem de dizer

que sem peso não há permanência.

 

As vidas tornam-se portáteis,

os afetos reversíveis

e as promessas adaptáveis

ao próximo contexto.

 

Tudo deve mover-se,

porque parar exige sustentar.

 

Não se destrói o vínculo:

deixa-se evaporar,

nem se nega o sentido:

adiam-se as perguntas.

 

E o vazio,

quando não dói,

passa a ser normal.

 

Os que sentem primeiro

são sempre poucos,

não porque saibam mais,

mas porque ainda não aprenderam

a flutuar.

 

Cansam-se cedo,

questionam demais,

e procuram chão

onde só lhes oferecem superfície.

 

Mas é neles

que a densidade resiste,

como um resto incómodo

que não se dissolve.

 

Talvez não sejam o futuro,

mas são o limite:

a prova de que nem tudo

aceita tornar-se líquido

sem perder a alma.

 

 

Neutralidade

Há momentos

em que não escolher

já é uma escolha.

 

Não dizer

não suspende o mundo;

apenas o deixa seguir

sem resistência.

 

O silêncio veste-se de prudência,

mas aprende depressa

a linguagem do conforto.

 

Enquanto isso,

direitos não caem de repente:

são retirados devagar,

com a colaboração

de quem olha

e chama a isso distância.

 

Não é preciso violência

quando basta a ausência,

não é preciso imposição

quando o hábito substitui o juízo.

 

A neutralidade não é um lugar:

é uma margem

onde o mal descansa

sem ser nomeado.

 

E tudo o que não é nomeado

volta,

sempre,

como normal.

 

 

 

Deriva

O poder não começa no golpe,

mas no acordo silencioso

que já não se discute.

 

Não grita,

circula.

 

Passa de mão em mão

quando a relação falha,

e ninguém responde

e todos obedecem.

 

A violência entra depois,

quando o vínculo já não sustém,

quando a palavra perdeu peso

e resta apenas fazer cumprir.

 

Não é força:

é falência do comum.

 

O poder verdadeiro

não precisa ferir;

vive enquanto há espaço

entre quem fala

e quem escuta.

 

Quando esse espaço fecha,

o poder endurece,

torna-se máquina,

regra sem rosto,

procedimento repetido

por quem já não escolhe.

 

Então não se governa:

administra-se o vazio.

 

E chama-se ordem

à ausência de relação.