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segunda-feira, 27 de julho de 2026

Eco

Procurei

o meu nome

na voz

dos outros.

 

Julguei

tê-lo

encontrado.

 

Mas o eco

vive

apenas

enquanto

há distância.

 

Só o silêncio

conhece

o regresso.

 

Só a voz

que volta

a si

deixa

de procurar

o próprio

nome.

 

 

Brasa

Quase

me perco.

 

O peso

já conhece

todos

os caminhos

da casa.

 

Mas,

sem aviso,

uma luz

muito antiga

levanta

a cabeça.

 

Não traz

força.

É ela

a força.

 

Tem

os olhos

da criança

que fui.

 

Olha

o mundo

como se

a dor

ainda

não tivesse

aprendido

o meu nome.

 

É por ela

que continuo

a acreditar

que nem tudo

em mim

aceitou

a noite.

 

 

 

Olhar

A certeza

chegou

de mãos

fechadas.

 

Sabia

o nome

de tudo.

 

Passou

ao lado

do que

não se

anunciava.

 

A intuição

vinha

devagar.

 

Não trazia

respostas.

 

Parava

onde

os outros

não

paravam.

 

Foi aí

que encontrou

o essencial.

 

 

Jogo

Alguns

seguem

o rumor.

 

Eu

escuto

uma folha

a cair.

 

O mundo

permanece

inteiro.

 

Cada um

aprende

uma língua

para chegar

a si.

 

Há quem

regresse

cantando,

 

e quem

regresse

com uma palavra.

 

Ambos

procuravam

casa.

 

 

 

Tempo

Demorei

tanto

a chegar

que, por vezes,

duvido

do caminho.

 

Ainda ouço

os sonhos

que ficaram

à minha espera:

 

casas acesas

onde nunca

entrei.

 

Passo

por elas

devagar.

 

As janelas

já não

me reconhecem.

 

Talvez

a perda

não seja

o que não vivi,

 

mas continuar

a falar

com quem

imaginei

vir a ser.

 

Mesmo assim,

há uma palavra

que insiste

em abrir

caminho.

 

É por ela

que sigo

a chegar.

 

 

Sombra

Tudo

o que nego

em mim

procura

um rosto.

 

Quando

o encontra,

habita-o

e chama-lhe

outro.

 

 

 

Rosto

Fui eu

que pintei

o teu rosto

com as cores

que me doem.

 

Depois

chamei-te

inimigo.

 

Nunca

desconfiei

das minhas mãos.

 

 

Alvo

Passei anos

a afiar

flechas

com o teu nome.

 

Só depois

percebi:

 

o arco

que as lançava

tinha a corda

presa

ao meu peito.

 

 

Presença

Se tudo

me faltasse,

 

ainda

me restaria

saber

 

que existo,

sem prova.

 

 

Porta

Dores

não desaparecem

quando as fechamos.

 

Aprendem

outra língua.

 

A porta

que não abrimos

continua

a existir.

 

Maré

O mar

nunca pediu

calma.

 

Chega

rasgando

a linha

da areia,

 

leva nomes,

pegadas,

promessas

de verão.

 

Ainda assim

regressa,

traz sal

para as feridas,

 

volta

à margem

como quem

nunca deixou

de partir.

 

 

 

Vento

A árvore

não escolhe

o vento.

 

Não lhe pede

clemência.

 

Inclina-se

quando precisa,

endireita-se

quando pode

 

e continua

a crescer.

Voz

Não expliques

o que o gesto

ainda

não alcança.

 

Há palavras

que só se escrevem

depois

de andarmos

nelas.

Margem

O rio

não prometeu

margem imóvel.

 

Fomos nós

que lhe pedimos

chão.

 

Nunca falhou,

 

apenas

continuou

a correr.

 

 

 

Altura

A árvore

sobe.

 

Nunca precisou

de empurrar

o céu.

 

Também

a palavra

cresce

 

sem derrubar

o silêncio.

 

 

Luz

Nenhuma chama

cresce

por apagar

a outra.

 

Cresce

ardendo

ao lado.

 

 

 

 

Tempo

O que hoje

nos parece

pequeno

 

já foi

grande o bastante

 

para nos ensinar

a esperar.

 

 

Rosto

Não foi

a multidão.

 

Foi o rosto

que ela

lhe emprestou.

 

Virou-se

para quem

olhava.

Vozes

Algumas vozes

continuam

na sala.

 

Há silêncios

que ainda

lhes pertencem.

 

 

 

Presença

A árvore

não segue

a sombra.

 

Nem por isso

deixa

de oferecê-la.

 

 

Rasto

Quem precisa

de lembrar

que existe

ainda não chegou.

 

O rasto

permanece

onde

a voz

já partiu.

 

 

 

Mapa

O mapa

parecia

perfeito.

 

Foi quem

o tomou

pelo caminho

que se perdeu.

 

 

 

Terra

Quem caminha

olhando

apenas

o horizonte

esquece

a pedra

debaixo

do pé.

 

No fim,

é sempre

a pedra

que responde.

 

 

 

Caminho

Cada passo

pedia

o seguinte.

 

Não porque

o caminho

o exigisse.

 

Mas porque

o regresso

parecia

não existir.

 

E, no entanto,

nenhum passo

o tinha

apagado.

 

 

 

 

Peso

Cada pedra

que guardamos

para o outro

pesa

primeiro

na nossa mão.

 

A pele

aprende

antes de nós.

 

Depois,

já não sabemos

se ainda

seguramos

a pedra

ou se é ela

que nos segura.

 

 

 

Fogo

A chama

manteve-se

acesa.

 

Ninguém

ficou

para ver

o que ardia.

 

A madeira

estalava

como quem chama.

 

Talvez

a eternidade

seja isto

 

arder

sem testemunha.