És livre.
E isso não te conduz.
Não há chão.
Caminhos desaparecem
quando ninguém os aponta.
O que sobra
não é direção.
É espaço.
Perdes-te.
Sem resistência.
És livre.
E isso não te conduz.
Não há chão.
Caminhos desaparecem
quando ninguém os aponta.
O que sobra
não é direção.
É espaço.
Perdes-te.
Sem resistência.
Não é número.
É o que fica
depois de fechar.
Páginas passam.
Outras ficam
a trabalhar por dentro.
Alguns livros
não se acabam:
continuam em silêncio.
Não foi surpresa.
O gesto já me habitava.
Antes da escolha,
já lhe conhecia a sombra.
Mas há margens
que só se alcançam confiando.
E, ainda assim,
soltei o trinco.
Há coisas que não regressam.
Regressam-nos.
Quanto mais se mostra,
menos fica por descobrir.
E há coisas que vivem
do que não se diz.
Crescem em silêncio.
Outras murcham à vista.
O objeto está ali.
Mas o olhar
não chega limpo.
Recria.
Escolhe.
E chama mundo
ao que consegue ver.
Nem toda a porta dá para uma sala.
Algumas abrem-se para uma ferida.
Quando alguém te deixa entrar,
deixa do lado de fora
os olhos do julgamento
e a voz da praça.
Quem decide por todos
deveria desconfiar
das próprias certezas.
Pois há convicções
capazes de mudar o mundo,
e nem todas
o melhoram.
Expulsaram o que temiam.
E o medo ficou.
Mas não veio sozinho.
Trouxe consigo
aquilo que ninguém viu chegar.
Há quem diga
que nada muda
e se sente.
Mas nem todo o escuro
é desistência.
Às vezes
é apenas
a maneira
como a noite vê.
Não escrevo para ser poeta.
Escrevo para que alguma coisa permaneça.
Nem que seja apenas
um pensamento
a mudar de lugar.
A manhã chega,
mas não entra.
Fica à porta,
à espera.
O corpo levanta-se
e cumpre gestos.
A vida continua
sem se reconhecer.
Há dias
em que atravessar uma sala
parece excessivo.
E, no entanto,
o corpo chega
ao outro lado.
Ninguém vê.
Mas também isso
é uma forma de resistência.
Passamos anos a afastar-nos,
não por erro,
por necessidade.
Até que algo em nós
começa a chamar pelo nome antigo.
Regressamos,
não ao que fomos,
mas ao que ficou à espera.
Nem sempre procuro razão.
Procuro alguém
que permaneça à mesa
mesmo depois da certeza.
Alguém capaz
de trocar uma resposta
por uma pergunta.
Porque há ideias
que só acontecem
entre duas vozes.
Antes da história,
alguém ergueu pedras
para dizer: estive aqui.
Depois,
cobriu-as de terra.
E a terra guardou
essa frase
durante dez mil anos.
Nas pedras reunidas,
alguém procurava
o que não se toca.
Nem todos caminham na mesma luz.
Há quem avance,
há quem resista.
De longe,
parecem só mais lentos.
Mas a distância
não sabe
o peso que cada um traz.
Sou uma presença breve.
O mundo não depende de mim.
Enquanto existo, altero uma pequena parte.
Para o universo, quase nada.
Para quem a habita, tudo.
Recebemos um nome antes de o escolher.
Uma história antes de a ouvir por inteiro.
Aprendemos o já dito.
Durante séculos,
mãos passaram mãos,
vozes passaram vozes.
Umas quiseram compreender,
outras impor caminho.
O texto cresceu:
ganhou margens, comentários, altares.
O homem ficou ao fundo.
Cada geração deixou a sua camada.
E houve um tempo
em que já não distinguíamos memória de leitura,
nem o rosto da luz que o envolvia.
Então começámos a ler de outro modo:
não para desfazer a herança,
mas para tocar o que nela persiste.
Às vezes, o erro abre a porta e entramos.
Outras, a porta abre-se e ficamos fora.
Nem toda a cegueira vem da noite.
Há quem se perca a seguir uma sombra.
Há quem se perca por recusar a luz.
Passamos anos a escolher, uma coisa em vez de outra; uma voz, um caminho, um modo de estar.
O que fica de fora parece perder-se, mas subsiste.
Não como perda, como parte.
Chega um momento em que já não perguntamos quem
queremos ser, apenas o que recusamos em nós.
Então regressamos, não ao passado;
a uma inteireza que não sabíamos existir.
Lemos para compreender.
Aprendemos nomes, datas, ideias que atravessam
séculos.
Reconhecemos a injustiça nos livros.
Identificamos o erro à distância.
Mas nem sempre escutamos o que sofre ao lado.
O pensamento alcança continentes.
Às vezes, não atravessa a mesa.
Sabemos da fragilidade em teoria.
A proximidade pede outra aprendizagem.
Compreender não se mede pelo que sabemos dizer,
mas pelo que fazemos quando a vida real interrompe a
certeza.
Durante muito tempo procurámos a ponta.
Acreditávamos que todo o enredo escondia um início, e
que bastava encontrá-lo.
Mas alguns nós crescem de tal modo dentro das coisas
que já não pertencem a quem os fez.
Passam de mão em mão, de nome em nome, até parecerem a
própria forma do caminho.
Há quem os corte.
O gesto é rápido.
A dificuldade desaparece.
Mas nem sempre o que desaparece é o problema.
Às vezes, o nó guardava apenas o percurso.
E é depois do corte que nos perdemos.
Há lugares onde a terra aprende a guardar peso.
Não se diz o que lá aconteceu, porque o dizer chega
sempre tarde.
Chegam primeiro as ordens, depois os passos, depois o
modo de fazer caber o que já não cabe em ninguém.
A voz que chama nomes não os chama como nomes, só como
ausência de resposta.
Há roupas no chão que já não são roupas, apenas forma
interrompida de alguém.
A manhã não distingue. A luz percorre o mesmo caminho
sobre tudo.
E ainda assim, o mundo continua a usar palavras limpas
para organizar o que não tem limpeza.
Há sempre uma margem onde o que foi humano deixa de
ter contorno e passa a ser apenas registo.
Depois, quando o silêncio regressa, não regressa
inteiro.
Fica preso entre o que se conta e o que não pode ser
contado.
E é aí que a terra continua a lembrar, sem linguagem,
o que a linguagem não conseguiu deter.
Há quem parta cedo.
Há quem fique junto da mesma sombra.
Não por falta de caminho, mas porque certas raízes continuam a crescer
depois da árvore.
A casa não termina nas paredes.
Segue na voz, na memória, no olhar.
Durante anos, julgamos habitar um lugar.
Só mais tarde percebemos que o lugar também nos habitava.
E que partir não era abandonar a terra,
mas descobrir onde ela acabava.
Os adultos trazem mapas.
Traçam linhas, apontam razões, erguem nomes para o que fazem.
A terra aprende novas fronteiras, as palavras novas defesas.
Mas uma criança não cabe num argumento;
não sabe o tamanho de um Estado, nem a idade de uma disputa.
Conhece uma janela, um copo, uma voz que regressa ao fim do dia.
Depois vêm os números.
Sobem, descem, ocupam lugares nos relatórios.
E a contagem continua.
Mas há sempre algo que fica de fora:
o peso de um caderno por abrir,
uma cadeira que guarda a forma de um corpo,
um nome que deixa de responder.
Os adultos continuam a explicar.
A criança, essa, permanece
onde todas as explicações terminam.
O céu abre-se
e julgamo-nos
pequenos.
Uma luz
atravessa milhões de anos
até chegar aos olhos.
Pensamos:
não somos nada.
Mas há mundos
que não conhecem
o mesmo céu;
vivem sob a pele,
entre correntes invisíveis,
percorrendo distâncias
que não têm nome.
Para eles,
somos o território.
Nenhum deles
verá a curva da Terra,
nem a noite
cheia de galáxias.
Como nós,
também habitam
o limite
do que alcançam.
Talvez o erro
não esteja na medida,
mas na procura
de uma medida
final.
O que nos excede
chama-nos ínfimos;
o que nos habita
vê-nos imensos.
E entre uma escala
e outra,
continuamos sem saber
o tamanho
que temos.