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quarta-feira, 27 de maio de 2026

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As crianças

aparecem cobertas de pó

antes mesmo de aprenderem

o nome do medo.

 

Um corpo

é retirado dos escombros.

 

Outro.

 

Outro.

 

E o mundo

continua a deslizar o dedo

sobre o ecrã.

 

Hospitais

abertos como feridas,

água contaminada,

fome,

carne reduzida a número.

 

Tudo visível.

 

Filmado,

traduzido,

repetido,

arquivado em alta definição.

 

E ainda assim

há quem peça mais provas.

 

Como se o horror

precisasse atravessar

a fronteira certa

para existir.

 

Há vozes

que negociam versões

enquanto crianças

morrem sem morada.

 

Há idiomas inteiros

a aprender

como justificar

o intolerável.

 

E talvez

a vergonha maior

não seja apenas a destruição.

 

Mas o facto

de ela acontecer

diante do mundo inteiro

sem conseguir

interromper

o movimento normal

das coisas.

 

Tudo registado.

 

Nada impedido.

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