As crianças
aparecem cobertas de pó
antes mesmo de aprenderem
o nome do medo.
Um corpo
é retirado dos escombros.
Outro.
Outro.
E o mundo
continua a deslizar o dedo
sobre o ecrã.
Hospitais
abertos como feridas,
água contaminada,
fome,
carne reduzida a número.
Tudo visível.
Filmado,
traduzido,
repetido,
arquivado em alta definição.
E ainda assim
há quem peça mais provas.
Como se o horror
precisasse atravessar
a fronteira certa
para existir.
Há vozes
que negociam versões
enquanto crianças
morrem sem morada.
Há idiomas inteiros
a aprender
como justificar
o intolerável.
E talvez
a vergonha maior
não seja apenas a destruição.
Mas o facto
de ela acontecer
diante do mundo inteiro
sem conseguir
interromper
o movimento normal
das coisas.
Tudo registado.
Nada impedido.
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