Self
Não aparece,
mas reorganiza
o peso dos objetos
na sala.
A chávena
não está onde estava,
embora ninguém a tenha movido.
Há um centro,
mas desloca-se
quando tentas fixá-lo.
O que falta
faz inclinar o resto.
E o conjunto
nunca coincide
consigo mesmo.
Ego
Diz:
é isto.
Mas a frase
já vem usada,
como copo com marcas
de boca.
Endireita o mundo
com gestos pequenos:
alinha a cadeira,
alisa o vinco,
repete o nome.
Por um instante,
resulta.
Depois
o mesmo gesto repete-se
sem necessidade.
E a forma fica
presa ao próprio esforço.
Sombra
Não entra,
mas infiltra.
Uma nódoa leve
na luz da parede,
um cheiro antigo
que reaparece sem origem.
O que foi cortado
não desaparece:
gruda.
Passa por baixo
do que é dito,
e altera a textura
daquilo que parece limpo.
Persona
Chega antes.
Testa a voz,
mede a distância,
escolhe o ângulo da cara.
Tudo encaixa
no primeiro olhar.
As respostas
não hesitam.
Mas há momentos
em que a fala continua
mesmo sem destinatário.
E o corpo sustém
o excesso de forma
como roupa apertada.
Anima / Animus
Não entra,
atravessa.
Muda a temperatura
de uma frase
sem tocar nela.
Um gesto começa
noutro lugar.
E entre dois movimentos
o mesmo corpo
não coincide consigo.
Fica a sensação
de ter sido tocado
sem contacto.
Herói
Avança.
Mas o caminho
repete-se em versões ligeiramente diferentes.
O mesmo esforço
abre portas que já estavam abertas
de outra forma.
O corpo continua
mesmo quando não há direção.
E o movimento
já não leva,
acumula.
Velho Sábio
Fala pouco,
mas interrompe.
Não responde,
inverte o peso da pergunta.
Às vezes
fica em silêncio
demasiado tempo
para ser só silêncio.
E nessa pausa
o sentido perde estabilidade.
Trickster
Não erra.
Repete.
Um gesto feito duas vezes
com diferença mínima.
Uma palavra correta
fora do lugar certo.
Nada quebra.
Mas o sistema
começa a funcionar
como se já tivesse falhado.
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