Antes do livro
houve barro.
Antes do altar,
mãos sujas
a gravar no tempo
o espanto de existir.
Nada caiu do céu.
Tudo nasceu do chão:
do medo,
da fome,
do relâmpago sem resposta,
da morte que não explicava nada.
Os primeiros deuses
não eram bons nem maus.
Eram muitos.
Falavam alto.
Erravam.
Puniam por cansaço,
por ruído,
por excesso de vida.
O Homem não tinha culpa,
tinha função:
servir,
trabalhar,
calar.
Até que alguém ousou
outra pergunta:
E se o divino
não fosse capricho,
mas consciência?
Os mitos não foram apagados,
foram atravessados.
O dilúvio deixou de ser incômodo
e tornou-se espelho.
A criação deixou de ser decreto
e passou a ser responsabilidade.
Não foi cópia,
foi mutação.
Os nomes mudaram
porque o medo mudou de forma.
Onde havia muitos deuses
que esmagavam,
ergueu-se um só
que exigia ética,
não para dominar,
mas para conter
o abismo interior
do animal que aprende a falar
e a justificar-se.
Chamaram revelação
ao que era memória refinada,
chamaram fé
à tentativa de não enlouquecer
diante da dor.
E sim,
houve poder,
edição,
mãos interessadas.
Mas houve também exílio,
perda,
destruição,
gente a tentar salvar
um sentido mínimo
no meio dos escombros.
A verdade não foi escondida,
foi recontada.
Porque nenhuma civilização suporta
ver os seus deuses
demasiado humanos
sem antes aprender
a sê-lo melhor.
Talvez libertação
não seja escolher
qual versão venceu,
mas reconhecer isto:
o sagrado nunca esteve nos textos,
nem nas tábuas,
nem nos céus,
esteve sempre
na coragem de reescrever o medo
sem o negar,
e de crescer
sem precisar de monstros
para obedecer.
E quando juntas os fragmentos;
barro,
livro,
silêncio,
não encontras conspiração.
Encontras algo mais difícil:
responsabilidade.
Sem comentários:
Enviar um comentário
Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.