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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Denny

Não nasceu exceção,

nasceu encontro.

 

Num tempo sem nomes

para as espécies,

uma menina caminhava

sobre neve antiga

sem saber

que carregava dois mundos no sangue.

 

Mãe de ossos fortes,

pai de memória profunda.

Nenhum deles perguntou

à biologia

se era permitido.

 

Amaram-se

como sempre se amou:

por proximidade,

por abrigo,

por sobrevivência

e calor.

 

Denny não foi conceito,

foi corpo,

não foi tese,

foi infância interrompida

no meio do frio.

 

Durante noventa mil anos

o seu nome dormiu

num fragmento de osso

do tamanho de uma moeda,

até que mãos modernas

ousaram escutar.

 

E o osso falou.

 

Disse que nunca fomos puros,

que a humanidade nasceu misturada,

que a fronteira entre “nós” e “outros”

sempre foi porosa.

 

Disse que a evolução

não avança em linha reta,

mas por abraços improváveis,

por alianças silenciosas

entre diferentes.

 

Hoje carregamos

um pouco dela

naquilo que resistiu:

na pele,

no sistema imunitário,

na capacidade de adaptação

e talvez

na tendência para reconhecer

o outro

como par.

 

Denny viveu pouco,

mas não passou em vão.

 

Ela é a prova

de que a humanidade

começou no encontro

e não na separação

e que o futuro

só continua

quando aceitamos

que somos feitos

de mais de uma origem.

 

(Poema inspirado na descoberta de Denny, a primeira menina híbrida neandertal-denisovano, publicada na revista Nature (2018).)

 

 

 

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