Não nasceu exceção,
nasceu encontro.
Num tempo sem nomes
para as espécies,
uma menina caminhava
sobre neve antiga
sem saber
que carregava dois mundos no sangue.
Mãe de ossos fortes,
pai de memória profunda.
Nenhum deles perguntou
à biologia
se era permitido.
Amaram-se
como sempre se amou:
por proximidade,
por abrigo,
por sobrevivência
e calor.
Denny não foi conceito,
foi corpo,
não foi tese,
foi infância interrompida
no meio do frio.
Durante noventa mil anos
o seu nome dormiu
num fragmento de osso
do tamanho de uma moeda,
até que mãos modernas
ousaram escutar.
E o osso falou.
Disse que nunca fomos puros,
que a humanidade nasceu misturada,
que a fronteira entre “nós” e “outros”
sempre foi porosa.
Disse que a evolução
não avança em linha reta,
mas por abraços improváveis,
por alianças silenciosas
entre diferentes.
Hoje carregamos
um pouco dela
naquilo que resistiu:
na pele,
no sistema imunitário,
na capacidade de adaptação
e talvez
na tendência para reconhecer
o outro
como par.
Denny viveu pouco,
mas não passou em vão.
Ela é a prova
de que a humanidade
começou no encontro
e não na separação
e que o futuro
só continua
quando aceitamos
que somos feitos
de mais de uma origem.
(Poema inspirado na descoberta de Denny, a primeira
menina híbrida neandertal-denisovano, publicada na revista Nature (2018).)
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