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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Aplauso

Há um ruído que cresce

quando o pensamento encolhe.

 

Não é voz, é eco,

não é convicção,

é medo vestido de certeza.

 

Quem pouco vê,

fala alto,

quem não suporta a dúvida,

constrói palcos

e quem não sabe esperar,

chama força à pressa

e verdade à repetição.

 

A arrogância não nasce do excesso, 

mas da falta:

de espelho, 

noite interior,

coragem para dizer “não sei”.

 

E os aplausos vêm,

não como reconhecimento,

mas como abrigo.

 

Mãos batem mãos

para não tremerem sozinhas.

 

Forma-se então o círculo:

o vazio confirma o vazio,

o grito legitima o grito,

o líder aprende que pensar é perigoso

e simplificar rende poder.

 

Não se trata de estupidez,

mas de rendição.

Rendição à facilidade,

à frase curta,

ao inimigo pronto,

à certeza emprestada.

 

Enquanto isso,

quem hesita parece fraco,

quem escuta parece lento

e quem duvida parece traidor.

 

Mas é no silêncio,

esse que não pede palmas,

que a consciência se afia.

 

Pensar não dá espetáculo,

não unifica multidões,

nem promete salvação.

 

Pensar apenas faz isto:

retira máscaras,

reduz o ego ao tamanho do real,

e devolve ao humano

a responsabilidade de existir

sem precisar de aplauso

para saber que está vivo.

 

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