Não começa com gritos,
nem com sangue nas ruas.
Começa quando o rosto do outro
já não interrompe o nosso passo,
quando a dor alheia
não exige pausa
nem desloca o olhar.
A empatia não cai de repente;
é retirada aos poucos,
como algo inconveniente,
impraticável,
fora de tempo.
Primeiro chama-se cansaço,
depois bom senso
e por fim, normalidade.
E quando desaparece,
não há luto,
nem memória do que se perdeu.
A cultura continua a falar,
mas já não reconhece vozes,
continua a agir,
mas sem corpo,
sem nome,
sem rosto.
É assim que a barbárie entra:
não pela força,
mas pela repetição,
não porque o mal triunfe,
mas porque o humano
deixa de ser necessário.
(Poema inspirado na reflexão de Hannah Arendt sobre a
perda da empatia como sinal de sociedades à beira da barbárie, traduzido em
linguagem poética para a realidade humana contemporânea.)
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