É o livro mais aberto
e o menos atravessado.
Passa de mão em mão
sem passar pelos olhos,
repete-se em voz alta
sem descer ao sentido.
Guarda histórias de fogo,
ordens absolutas,
cidades apagadas
em nome de uma vontade
que nunca se explica.
Há páginas de cuidado;
outras,
de crueldade nua.
E entre elas,
nenhuma voz única,
mas muitas,
discordantes,
humanas demais
para serem eternas.
Quem o cita, escolhe,
quem o venera, esquece,
e quem o lê por inteiro
não sai intacto,
porque ali
o sagrado não é puro,
o divino não é estável;
a moral desloca-se
com a mão que escreve.
Talvez por isso
se prefira a passagem
ao percurso,
o versículo
à pergunta,
a fé
à leitura.
Há textos que sobrevivem
não por serem verdadeiros,
mas porque poucos
ousam atravessá-los
até ao fim.
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