Antes da voz absoluta,
houve paisagens.
Montanhas secas,
rotas de pó,
tribos que davam nomes
ao medo e à sobrevivência.
O divino não desceu pronto;
caminhou,
migrou
e misturou-se.
Havia muitos deuses
antes do Um:
deuses do céu fértil,
do mar indomável,
do ventre,
da guerra,
da colheita e da perda.
Cada povo guardava o seu.
Nenhum eterno,
todos necessários.
Um deles veio do sul,
das margens quentes do deserto,
trazendo fogo,
lei dura,
fronteira.
Sentou-se entre outros nomes,
aprendeu títulos antigos,
vestiu atributos alheios,
até esquecerem
de onde viera.
Depois, pediram-lhe exclusividade,
e para sustentar o Um,
foi preciso silenciar os muitos.
O que era panteão
tornou-se hierarquia,
o que era mito partilhado
tornou-se verdade única,
e o que era humano
quis ser eterno.
Os textos ficaram
contraditórios,
ferozes,
ternos às vezes,
cruéis noutras,
não porque mentissem,
mas porque eram escritos por mãos,
não por nenhum céu.
Talvez o erro não esteja nos deuses,
mas na recusa de aceitar
que também eles
têm história
e que o sagrado,
como tudo o que nasce do humano,
não é puro,
nem fixo,
nem imune ao tempo.
Talvez a verdade
não esteja num nome único,
mas na coragem
de olhar para trás
sem medo
de ver muitos rostos
onde nos ensinaram
a ver apenas um.
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