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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Antes do Nome Único

Antes da voz absoluta,

houve paisagens.

 

Montanhas secas,

rotas de pó,

tribos que davam nomes

ao medo e à sobrevivência.

O divino não desceu pronto;

caminhou,

migrou

e misturou-se.

 

Havia muitos deuses

antes do Um:

deuses do céu fértil,

do mar indomável,

do ventre,

da guerra,

da colheita e da perda.

 

Cada povo guardava o seu.

Nenhum eterno,

todos necessários.

 

Um deles veio do sul,

das margens quentes do deserto,

trazendo fogo,

lei dura,

fronteira.

 

Sentou-se entre outros nomes,

aprendeu títulos antigos,

vestiu atributos alheios,

até esquecerem

de onde viera.

 

Depois, pediram-lhe exclusividade,

e para sustentar o Um,

foi preciso silenciar os muitos.

 

O que era panteão

tornou-se hierarquia,

o que era mito partilhado

tornou-se verdade única,

e o que era humano

quis ser eterno.

 

Os textos ficaram

contraditórios,

ferozes,

ternos às vezes,

cruéis noutras,

não porque mentissem,

mas porque eram escritos por mãos,

não por nenhum céu.

 

Talvez o erro não esteja nos deuses,

mas na recusa de aceitar

que também eles

têm história

e que o sagrado,

como tudo o que nasce do humano,

não é puro,

nem fixo,

nem imune ao tempo.

 

Talvez a verdade

não esteja num nome único,

mas na coragem

de olhar para trás

sem medo

de ver muitos rostos

onde nos ensinaram

a ver apenas um.

 

 

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