Nada permanece no lugar
onde julgámos definitivo.
Até o predador,
feito de instinto e espera,
inclina o focinho para a flor.
Bebe o que não mata,
demora-se onde não há presa,
e sai marcado pelo ouro leve do pólen
como quem atravessou um segredo.
O corpo aprende antes da teoria;
a necessidade inventa gestos
para os quais ainda não havia nome.
Entre montanhas secas,
onde o alimento rareia,
o lobo descobre outra forma de existir:
não rasgar, mas tocar,
e ao tocar, transportar.
Não é metáfora,
é matéria viva a mudar de função.
E leva nos bigodes um novo futuro
para os filhos,
não como exceção,
mas como possibilidade.
A natureza não promete fidelidade
aos nossos conceitos;
adapta-se,
desvia,
inventa.
Quando pensamos que tudo já está escrito,
um carnívoro aprende a polinizar
e lembra-nos, sem discurso,
que a sobrevivência
também pode ser delicadeza.
(Poema inspirado numa descoberta científica recente,
que revela comportamentos inesperados no lobo etíope, lembrando que a natureza
está em permanente transformação e que a vida encontra caminhos onde os nossos
conceitos ainda não chegaram.)
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