Não somos ilhas,
apesar da pele.
Em nós, algo se prolonga
para lá do corpo,
como um fio invisível
que não se rompe
quando nos afastamos.
Encontramo-nos,
e o que fica
não é apenas memória,
mas alteração.
Depois, o que sentes
já não é só teu;
o que penso
já não nasce sozinho.
Há dores que aprendemos
sem as viver,
alegrias que nos chegam
sem explicação,
silêncios que pesam
porque alguém, noutro lugar,
não consegue respirar.
Chamam-lhe empatia,
intuição,
coincidência,
mas talvez seja apenas isto:
consciências que se tocaram
e recusaram voltar
a ser inteiramente separadas.
Cada gesto entra na trama,
cada palavra desloca o ar,
cada ausência deixa rasto.
Não há neutralidade no encontro:
ou nos entrelaçamos,
ou fingimos que não,
e mesmo o fingimento liga.
Vivemos assim,
uns dentro dos outros,
sem manual,
sem fronteiras claras,
transportando fragmentos
de quem passou por nós.
Talvez seja isso ser humano:
não existir sozinho,
mesmo quando julgamos estar.
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