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terça-feira, 30 de dezembro de 2025

O Fim do Tranquilo

O ateísmo tranquilo

erguia silêncio

entre os corpos e as ideias.

Mas poder e crença

entrelaçam-se

e o vazio treme,

transformando paz em estrondo.

 


segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Quando Nada Chama

Há dias em que nada chama.

 

O corpo continua,

mas sem direção,

sem desejo a puxar para frente.

 

Não é dor aberta,

é um vazio denso

onde até a esperança se senta.

 

O mundo passa, inteiro,

mas não entra.

 

As coisas existem

ligeiramente afastadas,

como se pertencessem a outro dia.

 

Ainda assim,

ficar acontece,

respirar insiste.

 

Quando nada chama,

não avançar não é desistir,

é apenas não mentir ao cansaço.



domingo, 28 de dezembro de 2025

Existir

O tempo pesa.

Nada desperta desejo.

O mundo continua, indiferente.

 

Ainda assim, algo pulsa:

não pede sentido,

apenas existência.

 

E existir, mesmo assim,

é resistência.

 

sábado, 27 de dezembro de 2025

O Milagre do Confronto

Não há como reduzir o risco

do que ainda nos cabe viver.

 

O milagre

é enfrentar.

 

Diante disso, restam-nos apenas

as armas que fomos criando em nós,

não para ferir,

mas para, com paciência,

ultrapassar o que somos.

 

Para quê contornar o abismo,

se é preciso tocar a morte

para que a primavera exista?

 

Em cada luta,

o adversário verdadeiro mora dentro.

Os outros são sombras,

figuras que inventamos

para adiar

o essencial.

 

O estratega nasce aí:

não como domínio do mundo,

mas como clareza interior,

capaz de avançar

quando o horizonte ainda não garante nada.

 

Novelo

Este novelo inteiro

não tem fim,

e cansa-me

querer, sempre,

desatá-lo.

 

Há um enredo antigo,

cheio de nós,

inquietações herdadas

que não começaram em mim.

 

Só o tempo

há de ordenar

este emaranhado.

 

E eu continuo,

insistindo,

a querer compreender,

a desejar, em vão,

que amanhã

se pareça com ontem.

 

O sonho vale,

mesmo quando

não há resposta

para toda a realidade.

 

E eu

sou apenas mais um

entre os vivos,

nada além disso.

 

O novelo permanece.

E talvez

seja sempre o mesmo.

Voo da Gaivota

Ouço o voar da gaivota

sobre o azul agitado do mar.

Entrego-me ao vento

e, no jogo com o vento,

imagino-me ao vento, a voar.

 

Em liberdade, desejo

deixar a terra que piso,

soltar-me

sobre o azul agitado do mar.

 

Sonho

e sou pássaro,

cansado de pousar.

Voo até que a força

desta vontade

se esgote

e se afogue

no azul profundo do mar.

 

Então acordo,

com a pena suave

de nunca ter conseguido voar.

 

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Antes do Incêndio

Algo começa

quando já não há como fingir.

 

As promessas tornam-se ocas,

as palavras repetem-se

como moedas gastas,

e a fé, usada em excesso,

racha nas mãos.

 

Há um cansaço coletivo,

não do sofrimento,

mas da mentira que o envolve.

O mundo já não acredita

no discurso que consola

sem tocar a ferida.

 

O que foi chamado sagrado

deixa de proteger,

o que governava pelo medo

treme,

o que confundia esperança

com submissão

já não sustém o peso do real.

 

Não é o fim do caos,

é o fim da desculpa.

 

Muitos procurarão culpados,

outros chamarão castigo

ao que é consequência,

mas não haverá deuses a gritar,

nem sinais no céu,

apenas a matéria a exigir verdade.

 

Relações serão revistas,

alianças desfeitas,

acordos rasgados

não por ódio,

mas por exaustão moral.

 

O invisível cairá sobre o concreto:

dívidas,

segredos,

abusos antigos,

tudo o que foi empurrado

para baixo do tapete do tempo.

 

E haverá raiva,

clara, crua,

sem retórica,

não como revolução,

mas como recusa:

não mais assim.

 

Alguns tentarão reacender mitos,

outros vender salvação,

outros pedir obediência

em nome da ordem,

mas a linguagem antiga

já não convence.

 

O que começa

não pede crença,

mas responsabilidade,

não promete redenção,

apenas trabalho,

não oferece conforto,

apenas limite,

não ergue heróis,

exige maturidade. 

 

E talvez seja isso

o mais difícil de aceitar:

que o mundo não está a morrer,

está a perder as ilusões

que o impediam de crescer.

 

Depois,

só depois,

poderá haver fogo criador,

mas antes,

terá de arder

o que nunca foi verdadeiro.

 

 

(Este poema nasce da observação crítica do funcionamento das instituições políticas, económicas e simbólicas que moldam a vida coletiva. Refere-se ao ano de 2026 como um tempo de transição e confronto, marcado pelo esgotamento de modelos de poder sustentados na manipulação do medo, na simplificação do discurso público e na delegação sistemática da responsabilidade. Não antecipa acontecimentos concretos, mas expõe dinâmicas já em curso: a crise de legitimidade das lideranças, a fragilidade das narrativas de autoridade e a urgência de uma ética política adulta, capaz de responder à realidade sem recorrer a mitos, salvadores ou ilusões de controlo.)

 

 

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Herói

Não é herói quem quer,

nem por desejo fútil alguém se torna.

Herói é quem atravessa a provação

e assume o instante 

não como posse,

mas como resposta

até por quem nunca viu

e por quem nunca saberá. 

 

Do medo se faz muita coisa.

Todos os dias nascem heróis.

 

 

 

Males do Medo

Que monstros sagrados são estes,

forjados à imagem dos homens,

entronizados como autoridade das almas,

mais eficazes a semear desamor

do que a servir o desígnio

de um só Eu?

 

Como pode o Homem 

rebaixar deuses à sua medida

em vez de se elevar

ao divino que o transcende?

 

E divino habita onde impera a Inteligência,

onde a consciência respira,

onde a vida se reconhece

sem necessidade de domínio. 

 

Mas o animal-Homem cresce,

ergue-se soberano da selva,

coroa-se poder,

e revela-se

o mais petulante dos predadores.

 

Que os deuses, se existirem,

nos livrem da agnosia,

da intolerância,

do facciosismo,

e de todos os males

que nascem do medo.

Único Ser

Não ambiciones

ser o melhor,

nem o primeiro,

sê único.

 

Assume a força da primavera,

e enfrenta a vida com pujança,

com os cornos da coragem,

sem te distraíres

com o que já ardeu para trás.

 

Áries, do meu pulsar primitivo,

meu primeiro sopro,

meu grito inaugural,

meu punhal e minha carne,

minhas vestes de sangue,

máscara de todas as dores

e de todos os universos,

matéria onde me reinvento,

fogo que preciso ser.

 

E ser.

Ser.

Ser.