O ateísmo tranquilo
erguia silêncio
entre os corpos e as ideias.
Mas poder e crença
entrelaçam-se
e o vazio treme,
transformando paz em estrondo.
Arte
O ateísmo tranquilo
erguia silêncio
entre os corpos e as ideias.
Mas poder e crença
entrelaçam-se
e o vazio treme,
transformando paz em estrondo.
Há dias em que nada chama.
O corpo continua,
mas sem direção,
sem desejo a puxar para frente.
Não é dor aberta,
é um vazio denso
onde até a esperança se senta.
O mundo passa, inteiro,
mas não entra.
As coisas existem
ligeiramente afastadas,
como se pertencessem a outro dia.
Ainda assim,
ficar acontece,
respirar insiste.
Quando nada chama,
não avançar não é desistir,
é apenas não mentir ao cansaço.
O tempo pesa.
Nada desperta desejo.
O mundo continua, indiferente.
Ainda assim, algo pulsa:
não pede sentido,
apenas existência.
E existir, mesmo assim,
é resistência.
Não há como reduzir o risco
do que ainda nos cabe viver.
O milagre
é enfrentar.
Diante disso, restam-nos apenas
as armas que fomos criando em nós,
não para ferir,
mas para, com paciência,
ultrapassar o que somos.
Para quê contornar o abismo,
se é preciso tocar a morte
para que a primavera exista?
Em cada luta,
o adversário verdadeiro mora dentro.
Os outros são sombras,
figuras que inventamos
para adiar
o essencial.
O estratega nasce aí:
não como domínio do mundo,
mas como clareza interior,
capaz de avançar
quando o horizonte ainda não garante nada.
Este novelo inteiro
não tem fim,
e cansa-me
querer, sempre,
desatá-lo.
Há um enredo antigo,
cheio de nós,
inquietações herdadas
que não começaram em mim.
Só o tempo
há de ordenar
este emaranhado.
E eu continuo,
insistindo,
a querer compreender,
a desejar, em vão,
que amanhã
se pareça com ontem.
O sonho vale,
mesmo quando
não há resposta
para toda a realidade.
E eu
sou apenas mais um
entre os vivos,
nada além disso.
O novelo permanece.
E talvez
seja sempre o mesmo.
Ouço o voar da gaivota
sobre o azul agitado do mar.
Entrego-me ao vento
e, no jogo com o vento,
imagino-me ao vento, a voar.
Em liberdade, desejo
deixar a terra que piso,
soltar-me
sobre o azul agitado do mar.
Sonho
e sou pássaro,
cansado de pousar.
Voo até que a força
desta vontade
se esgote
e se afogue
no azul profundo do mar.
Então acordo,
com a pena suave
de nunca ter conseguido voar.
Algo começa
quando já não há como fingir.
As promessas tornam-se ocas,
as palavras repetem-se
como moedas gastas,
e a fé, usada em excesso,
racha nas mãos.
Há um cansaço coletivo,
não do sofrimento,
mas da mentira que o envolve.
O mundo já não acredita
no discurso que consola
sem tocar a ferida.
O que foi chamado sagrado
deixa de proteger,
o que governava pelo medo
treme,
o que confundia esperança
com submissão
já não sustém o peso do real.
Não é o fim do caos,
é o fim da desculpa.
Muitos procurarão culpados,
outros chamarão castigo
ao que é consequência,
mas não haverá deuses a gritar,
nem sinais no céu,
apenas a matéria a exigir verdade.
Relações serão revistas,
alianças desfeitas,
acordos rasgados
não por ódio,
mas por exaustão moral.
O invisível cairá sobre o concreto:
dívidas,
segredos,
abusos antigos,
tudo o que foi empurrado
para baixo do tapete do tempo.
E haverá raiva,
clara, crua,
sem retórica,
não como revolução,
mas como recusa:
não mais assim.
Alguns tentarão reacender mitos,
outros vender salvação,
outros pedir obediência
em nome da ordem,
mas a linguagem antiga
já não convence.
O que começa
não pede crença,
mas responsabilidade,
não promete redenção,
apenas trabalho,
não oferece conforto,
apenas limite,
não ergue heróis,
exige maturidade.
E talvez seja isso
o mais difícil de aceitar:
que o mundo não está a morrer,
está a perder as ilusões
que o impediam de crescer.
Depois,
só depois,
poderá haver fogo criador,
mas antes,
terá de arder
o que nunca foi verdadeiro.
(Este poema nasce da observação crítica do funcionamento das instituições
políticas, económicas e simbólicas que moldam a vida coletiva. Refere-se ao ano
de 2026 como um tempo de transição e confronto, marcado pelo esgotamento de
modelos de poder sustentados na manipulação do medo, na simplificação do
discurso público e na delegação sistemática da responsabilidade. Não antecipa
acontecimentos concretos, mas expõe dinâmicas já em curso: a crise de
legitimidade das lideranças, a fragilidade das narrativas de autoridade e a
urgência de uma ética política adulta, capaz de responder à realidade sem
recorrer a mitos, salvadores ou ilusões de controlo.)
Não é herói quem quer,
nem por desejo fútil alguém se torna.
Herói é quem atravessa a provação
e assume o instante
não como posse,
mas como resposta
até por quem nunca viu
e por quem nunca saberá.
Do medo se faz muita coisa.
Todos os dias nascem heróis.
Que monstros sagrados são estes,
forjados à imagem dos homens,
entronizados como autoridade das almas,
mais eficazes a semear desamor
do que a servir o desígnio
de um só Eu?
Como pode o Homem
rebaixar deuses à sua medida
em vez de se elevar
ao divino que o transcende?
E divino habita onde impera a Inteligência,
onde a consciência respira,
onde a vida se reconhece
sem necessidade de domínio.
Mas o animal-Homem cresce,
ergue-se soberano da selva,
coroa-se poder,
e revela-se
o mais petulante dos predadores.
Que os deuses, se existirem,
nos livrem da agnosia,
da intolerância,
do facciosismo,
e de todos os males
que nascem do medo.
Não ambiciones
ser o melhor,
nem o primeiro,
sê único.
Assume a força da primavera,
e enfrenta a vida com pujança,
com os cornos da coragem,
sem te distraíres
com o que já ardeu para trás.
Áries, do meu pulsar primitivo,
meu primeiro sopro,
meu grito inaugural,
meu punhal e minha carne,
minhas vestes de sangue,
máscara de todas as dores
e de todos os universos,
matéria onde me reinvento,
fogo que preciso ser.
E ser.
Ser.
Ser.