O mundo aproxima-se de uma porta estreita.
Atrás dela dormem séculos antigos
e pactos que já não sabem respirar.
As casas dos poderosos ainda estão de pé,
mas suas fundações escutam passos vindos de longe.
Alianças que pareciam eternas
começam a olhar-se com desconfiança,
como irmãos que de súbito
descobrem ter herdado a mesma espada.
Os povos inquietam-se,
não por fome apenas,
nem por guerra apenas,
mas porque sentem no sangue
que o tempo mudou de curso.
Velhas promessas dissolvem-se
como sal que se perde na água.
Outras, mais duras,
tentam erguer-se do pó.
No alto das torres,
uma força súbita atravessa o céu,
derrubando certezas
que pareciam feitas de pedra.
Nada do que foi seguro
permanece intacto.
Quando os mundos envelhecem
não caem de uma vez.
Primeiro tremem fronteiras,
depois palavras,
depois sonhos.
Mas no lugar onde os sistemas se quebram
abre-se sempre uma clareira invisível.
Ali,
longe do ruído das bandeiras
e da vaidade dos impérios,
o humano reaprende lentamente
o gesto antigo da liberdade.
Pois nenhuma era termina
sem que outra
comece a respirar.
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