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quarta-feira, 4 de março de 2026

Invisível

Não foi imposto,

foi ficando;

primeiro como tom,

depois como hábito

e depois como evidência.

 

As ideias certas

não precisavam ser defendidas;

circulavam sozinhas,

como se sempre tivessem estado ali.

 

Quem falava nelas

não parecia mandar,

apenas confirmar

o que já estava no ar.

 

O desacordo não era punido,

era estranho;

 

tudo soava fora de tempo,

fora de lugar,

como roupa errada

na estação certa.

 

Pouco a pouco,

o mundo passou a explicar-se

com as mesmas palavras,

as mesmas causas,

as mesmas soluções.

 

E quem pensava diferente

não era silenciado:

 

sentia-se deslocado,

como se tivesse chegado tarde

a uma conversa antiga.

 

A força disso

não estava na ordem,

nem na ameaça,

mas no conforto

de concordar.

 

A hegemonia é isso:

 

quando o poder

já não precisa aparecer,

porque o mundo

aprendeu a pensar

por ele.

 

 

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