Não foi imposto,
foi ficando;
primeiro como tom,
depois como hábito
e depois como evidência.
As ideias certas
não precisavam ser defendidas;
circulavam sozinhas,
como se sempre tivessem estado ali.
Quem falava nelas
não parecia mandar,
apenas confirmar
o que já estava no ar.
O desacordo não era punido,
era estranho;
tudo soava fora de tempo,
fora de lugar,
como roupa errada
na estação certa.
Pouco a pouco,
o mundo passou a explicar-se
com as mesmas palavras,
as mesmas causas,
as mesmas soluções.
E quem pensava diferente
não era silenciado:
sentia-se deslocado,
como se tivesse chegado tarde
a uma conversa antiga.
A força disso
não estava na ordem,
nem na ameaça,
mas no conforto
de concordar.
A hegemonia é isso:
quando o poder
já não precisa aparecer,
porque o mundo
aprendeu a pensar
por ele.
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