Chamaram-lhe corpo,
antes de o deixarem sentir,
e disseram-lhe onde parar,
como desejar,
quando calar,
e chamaram a isso verdade.
O sexo não foi silenciado;
foi examinado,
medido,
classificado
como quem fecha processos
para não ouvir o que treme.
Cada inflexão ganhou nome,
cada desvio um diagnóstico,
cada prazer uma explicação
que o afastava de si.
Não proibiram dizer;
pediram que dissesse tudo,
mas na língua certa,
no consultório,
no formulário,
sob a luz que observa
sem tocar.
O corpo aprendeu a vigiar-se,
a confessar-se antes de pecar,
a desejar com culpa
e culpa com método.
E no entanto,
há sempre algo que escapa:
um arrepio sem discurso,
um silêncio que não se deixa traduzir,
uma intimidade que não pede autorização.
A história escreve-se sobre a pele,
mas a pele
nunca é só história.
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