Ao fim da manhã,
Lisboa estava coberta de nuvens.
Não chovia.
O Tejo respirava baço,
como bronze polido
que perdeu brilho.
Os prédios guardavam a luz
sem entusiasmo,
e nada no céu denunciava
que, noutro ponto do mundo,
a claridade diminuía.
Aqui,
o dia mantinha-se suspenso:
nem claro,
nem escuro.
Lá,
a sombra desenhava
um círculo preciso
sobre terras que já conhecem
outras formas de apagamento.
Há geografias
onde o céu se basta
a si mesmo.
O som antes do impacto,
a poeira que sobe,
o intervalo entre duas notícias,
são suficiente testemunho.
Lisboa continuava:
elétricos,
passos,
cafés.
A rotina é um teto:
protege-nos do que acontece
fora do horizonte.
O mundo não se divide
entre nuvens e sombra,
mas entre quem pode ignorar
e quem não pode.
O cinzento sobre a cidade
era apenas clima.
E, ainda assim,
há um parentesco invisível
entre o que encobre
e o que apaga.
Talvez o verdadeiro eclipse
não seja da luz,
mas da atenção.
Não é preciso que o céu escureça
para que algo em nós
fique exposto.
(Poema inspirado pelo eclipse de 3 de março de 2026, às 11h38, hora de
Lisboa, evocando as sombras que pairam sobre o mundo e os instantes em que a
luz se retira, convocando a atenção e a consciência.)
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