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terça-feira, 3 de março de 2026

Enquanto Noutro Lugar

Ao fim da manhã,

Lisboa estava coberta de nuvens.

Não chovia.

 

O Tejo respirava baço,

como bronze polido

que perdeu brilho.

 

Os prédios guardavam a luz

sem entusiasmo,

e nada no céu denunciava

que, noutro ponto do mundo,

a claridade diminuía.

 

Aqui,

o dia mantinha-se suspenso:

nem claro,

nem escuro.

 

Lá,

a sombra desenhava

um círculo preciso

sobre terras que já conhecem

outras formas de apagamento.

 

Há geografias

onde o céu se basta

a si mesmo.

 

O som antes do impacto,

a poeira que sobe,

o intervalo entre duas notícias,

são suficiente testemunho.

 

Lisboa continuava:

elétricos,

passos,

cafés.

 

A rotina é um teto:

protege-nos do que acontece

fora do horizonte.

 

O mundo não se divide

entre nuvens e sombra,

mas entre quem pode ignorar

e quem não pode.

 

O cinzento sobre a cidade

era apenas clima.

 

E, ainda assim,

há um parentesco invisível

entre o que encobre

e o que apaga.

 

Talvez o verdadeiro eclipse

não seja da luz,

mas da atenção.

 

Não é preciso que o céu escureça

para que algo em nós

fique exposto.

 

 

 

(Poema inspirado pelo eclipse de 3 de março de 2026, às 11h38, hora de Lisboa, evocando as sombras que pairam sobre o mundo e os instantes em que a luz se retira, convocando a atenção e a consciência.)

 

 

 

 

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