Não há gesto fora do corpo,
nem afeto sem retorno interno.
Amamos a vibração que o outro acende,
o espelho que nos devolve
menos fragmentados.
Não é fraude,
é condição.
Desejamos continuar
quando tocamos,
cuidamos,
deixamos marcas:
o que criamos,
ideias,
memórias.
Chamam-lhe amor,
obra,
legado;
é o medo da interrupção
a pedir forma.
Damo-nos a quem nos reconhece,
porque ninguém sustenta o vazio
sozinho.
Até a generosidade
carrega um impulso defensivo:
ajudar o outro
para não sermos, ainda,
o que cai.
Mas isso não anula o cuidado,
apenas o humaniza.
Não existe pureza,
mas sim tensão entre carência e escolha,
entre medo e presença.
E no meio disso,
tocamo-nos
como quem diz:
fica comigo,
não porque és tudo,
mas porque assim
sou mais coeso.
Talvez amar
não seja esquecer-se de si,
mas aceitar
que só existimos
quando alguém
nos devolve ao mundo.
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