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quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

O Amor que Não se Absolveu

Não há gesto fora do corpo,

nem afeto sem retorno interno.

 

Amamos a vibração que o outro acende,

o espelho que nos devolve

menos fragmentados.

 

Não é fraude,

é condição.

 

Desejamos continuar

quando tocamos,

cuidamos,

deixamos marcas:

o que criamos,

ideias,

memórias.

 

Chamam-lhe amor,

obra,

legado;

é o medo da interrupção

a pedir forma.

 

Damo-nos a quem nos reconhece,

porque ninguém sustenta o vazio

sozinho.

 

Até a generosidade

carrega um impulso defensivo:

ajudar o outro

para não sermos, ainda,

o que cai.

 

Mas isso não anula o cuidado,

apenas o humaniza.

 

Não existe pureza,

mas sim tensão entre carência e escolha,

entre medo e presença.

 

E no meio disso,

tocamo-nos

como quem diz:

 

fica comigo,

não porque és tudo,

mas porque assim 

sou mais coeso.

 

Talvez amar

não seja esquecer-se de si,

mas aceitar

que só existimos

quando alguém

nos devolve ao mundo.

 

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