Há
antes da frase,
antes da ideia,
antes de eu saber
se isto é voz ou silêncio.
Há
como quem abre a janela
sem decidir ainda
se vai sair.
Há quem precise do verbo
para existir,
e há quem exista
antes de falar.
O “há” não aponta,
não acusa,
não pede concordância.
Limita-se a ficar.
Durante muito tempo
usei-o como abrigo:
dizer há
para não dizer eu,
para não ferir,
para não impor forma
ao que ainda tremia.
Depois aprendi
que o “há” também cansa
se não avançar,
se não aceitar
que existir é, às vezes,
escolher.
Por isso deixo-o cair
no meio do poema,
como quem larga a mão
por um instante.
Falo,
erro,
exponho-me.
E no fim,
quando já não preciso de provar nada,
o “há” regressa,
não como defesa,
mas como chão.
Há coisas que existem
mesmo quando não as digo.
E isso,
finalmente,
basta.
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