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quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Entre o Barro e o Céu

Somos animais que aprendemos a sonhar,

criaturas de carne que inventámos deuses

como espelhos

do que ainda não conseguimos ser.

 

Trazemos no peito uma batalha antiga:

o instinto que protege,

o ideal que chama,

e o fio de luz onde ambos se tocam

sem nunca se entenderem.

 

Há em nós uma pata presa no barro,

outra a tentar alcançar o céu,

e é desse desequilíbrio

que nasce tudo o que criamos:

a arte que procura eternidade,

as naves que tentam fugir da noite,

os versos que perguntam

o que significa estar vivo

quando a morte caminha connosco.

 

Somos medo treinado para ser coragem,

matéria que pressente a alma,

finitude inquieta

a construir janelas para o infinito.

 

E talvez seja isso

o que nos torna humanos:

não sermos ainda aquilo que sonhamos,

mas continuarmos a sonhá-lo,

mesmo assim.

 

Um dia extinguir-nos-emos;

a todas as espécies acontece.

Mas, enquanto respirarmos,

seremos esta contradição luminosa:

 

a vida a tentar erguer-se de si mesma,

e a deixar escrito no cosmos

não quem é,

mas quem desejou ser.

 

 

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