Somos animais que aprendemos a sonhar,
criaturas de carne que inventámos deuses
como espelhos
do que ainda não conseguimos ser.
Trazemos no peito uma batalha antiga:
o instinto que protege,
o ideal que chama,
e o fio de luz onde ambos se tocam
sem nunca se entenderem.
Há em nós uma pata presa no barro,
outra a tentar alcançar o céu,
e é desse desequilíbrio
que nasce tudo o que criamos:
a arte que procura eternidade,
as naves que tentam fugir da noite,
os versos que perguntam
o que significa estar vivo
quando a morte caminha connosco.
Somos medo treinado para ser coragem,
matéria que pressente a alma,
finitude inquieta
a construir janelas para o infinito.
E talvez seja isso
o que nos torna humanos:
não sermos ainda aquilo que sonhamos,
mas continuarmos a sonhá-lo,
mesmo assim.
Um dia extinguir-nos-emos;
a todas as espécies acontece.
Mas, enquanto respirarmos,
seremos esta contradição luminosa:
a vida a tentar erguer-se de si mesma,
e a deixar escrito no cosmos
não quem é,
mas quem desejou ser.
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