O mundo aperta tão fundo,
que até o ar parece ter paredes.
E nós,
corpos que deviam ser casa,
andamos encostados aos cantos de nós,
sem nos cabermos.
Não há falta de emoção,
há excessos,
espremidos, comprimidos, encaixotados,
num tempo que não sabe esperar.
Pedimos respostas,
pedem calma, força.
Não pedem silêncio;
e é no silêncio
que o sentir aprende a respirar.
Vivemos como quem encolhe o peito
para não incomodar,
e esconde o tremor das mãos;
ninguém quer ver fragilidades.
Um coração sem espaço
vira pedra,
e uma pedra que sente
parte-se em silêncio.
A falta de espaço para sentir
é um grito sem escuta:
um esvaziar lento,
um desligar da pele,
um afastar da alma.
O caminho de volta
é simples,
mas não fácil:
abrir rasgo no dia
onde caiba gesto sem função,
respiração inteira,
olhar que não fuja,
palavra que não tema tremer.
É num milímetro de tempo
que cabe o milagre
de voltarmos a existir,
se ainda existirmos.
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