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quarta-feira, 24 de junho de 2026

D. Aurora

Havia uma casa onde a campainha não tocava;

acendia-se a luz.

Talvez por isso a criança gostasse tanto dela.

 

Dentro morava uma senhora surda que ouvia melhor do que muita gente.

Entre jogadas de damas, falavam de política, de religião, de pobres e de ricos,

de verdades que mudavam de lugar conforme quem as contava.

Às vezes, um papagaio interrompia a conversa,

noutras, a senhora pedia palavras que rimassem com amor.

A criança procurava-as como quem procura conchas na areia,

não sabendo ainda o que estava a aprender.

 

Um dia bateu à porta,

a luz acendeu-se,

mas foi outra mulher que apareceu.

Conduziu-a por um corredor até um quarto silencioso.

A senhora estava deitada.

Parecia cansada,

mas sorriu.

 

Disse apenas que estava doente e que não voltasse enquanto estivesse assim.

Depois apertou-lhe a mão

com força,

como quem entrega um segredo sem o dizer.

 

A criança foi embora.

Dias mais tarde, soube da sua morte.

Durante muito tempo pensou ter perdido uma amiga.

 

Só muitos anos depois compreendeu:

 

há pessoas que partem,

mas deixam a luz acesa.

 

 

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