Havia uma casa onde a campainha não tocava;
acendia-se a luz.
Talvez por isso a criança gostasse
tanto dela.
Dentro morava uma senhora surda que
ouvia melhor do que muita gente.
Entre jogadas de damas, falavam de
política, de religião, de pobres e de ricos,
de verdades que mudavam de lugar
conforme quem as contava.
Às vezes, um papagaio interrompia a
conversa,
noutras, a senhora pedia palavras
que rimassem com amor.
A criança procurava-as como quem
procura conchas na areia,
não sabendo ainda o que estava a
aprender.
Um dia bateu à porta,
a luz acendeu-se,
mas foi outra mulher que apareceu.
Conduziu-a por um corredor até um
quarto silencioso.
A senhora estava deitada.
Parecia cansada,
mas sorriu.
Disse apenas que estava doente e
que não voltasse enquanto estivesse assim.
Depois apertou-lhe a mão
com força,
como quem entrega um segredo sem o
dizer.
A criança foi embora.
Dias mais tarde, soube da sua
morte.
Durante muito tempo pensou ter
perdido uma amiga.
Só muitos anos depois compreendeu:
há pessoas que partem,
mas deixam a luz acesa.
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