Há lugares onde a terra aprende a guardar peso.
Não se diz o que lá aconteceu, porque o dizer chega
sempre tarde.
Chegam primeiro as ordens, depois os passos, depois o
modo de fazer caber o que já não cabe em ninguém.
A voz que chama nomes não os chama como nomes, só como
ausência de resposta.
Há roupas no chão que já não são roupas, apenas forma
interrompida de alguém.
A manhã não distingue. A luz percorre o mesmo caminho
sobre tudo.
E ainda assim, o mundo continua a usar palavras limpas
para organizar o que não tem limpeza.
Há sempre uma margem onde o que foi humano deixa de
ter contorno e passa a ser apenas registo.
Depois, quando o silêncio regressa, não regressa
inteiro.
Fica preso entre o que se conta e o que não pode ser
contado.
E é aí que a terra continua a lembrar, sem linguagem,
o que a linguagem não conseguiu deter.
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