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quarta-feira, 15 de julho de 2026

O Senhor Orfeu l

Mora num quarto alugado

onde cabe o essencial:

uma mesa,

alguns livros,

uma janela aberta para a rua.

 

De manhã,

abre as portadas de par em par

e observa a cidade a acordar.

 

Almoça sempre ao meio-dia

e enquanto espera pela refeição,

rabisca linhas distraídas

na toalha de papel,

como se desenhasse pensamentos

antes de os esquecer.

 

Não precisa de muito.

Come pouco.

O suficiente.

 

Depois,

toma o café ao balcão.

Não faz alarde da sua presença.

Os empregados conhecem-lhe o rosto,

mas pouco mais.

 

Sai para a rua.

Acende um cigarro.

Observa sem pressa

quem passa,

o que acontece.

 

À tarde gosta de caminhar sem destino,

atravessando ruas

que não lhe pedem explicações.

 

Ao cair do dia,

senta-se junto a um espelho de água

num pequeno jardim atrás de casa.

Fuma devagar o último cigarro

enquanto o sol se desfaz

na superfície tranquila.

 

Quando surgem problemas,

resolve-os um a um,

sem pressa.

 

Há uma serenidade antiga nele,

dessas que não se aprendem nos livros.

 

Todas as manhãs,

à mesma hora,

vê sair do prédio em frente

uma criança

em passo rápido

a caminho da missa das oito.

 

Observa-a por um instante.

Nunca lhe falou.

 

Mas acompanha-a com o olhar,

como quem reconhece ao longe

um pedaço esquecido de si.

 

Permanece alguns segundos à janela,

mais do que costuma.

 

Há memórias

que não regressam para serem lembradas.

 

Continuam ali, do outro lado da vidraça.

 

 

 

 

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