Mora num quarto alugado
onde cabe o essencial:
uma mesa,
alguns livros,
uma janela aberta para a rua.
De manhã,
abre as portadas de par em par
e observa a cidade a acordar.
Almoça sempre ao meio-dia
e enquanto espera pela refeição,
rabisca linhas distraídas
na toalha de papel,
como se desenhasse pensamentos
antes de os esquecer.
Não precisa de muito.
Come pouco.
O suficiente.
Depois,
toma o café ao balcão.
Não faz alarde da sua presença.
Os empregados conhecem-lhe o rosto,
mas pouco mais.
Sai para a rua.
Acende um cigarro.
Observa sem pressa
quem passa,
o que acontece.
À tarde gosta de caminhar sem
destino,
atravessando ruas
que não lhe pedem explicações.
Ao cair do dia,
senta-se junto a um espelho de água
num pequeno jardim atrás de casa.
Fuma devagar o último cigarro
enquanto o sol se desfaz
na superfície tranquila.
Quando surgem problemas,
resolve-os um a um,
sem pressa.
Há uma serenidade antiga nele,
dessas que não se aprendem nos
livros.
Todas as manhãs,
à mesma hora,
vê sair do prédio em frente
uma criança
em passo rápido
a caminho da missa das oito.
Observa-a por um instante.
Nunca lhe falou.
Mas acompanha-a com o olhar,
como quem reconhece ao longe
um pedaço esquecido de si.
Permanece alguns segundos à janela,
mais do que costuma.
Há memórias
que não regressam para serem
lembradas.
Continuam ali, do outro lado da
vidraça.
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