No princípio,
ninguém pertencia a ninguém.
Havia apenas o frio, a fome, o
nascimento e a morte.
O fogo reunia os corpos,
a noite igualava os rostos.
Depois,
aprendemos a contar
as colheitas,
os animais,
a terra,
os filhos.
E, sem percebermos,
começámos a contar também as
pessoas.
Foi então que a força se confundiu
com o direito
e o amor, com a posse.
Inventámos deuses.
Alguns ensinaram a compaixão,
outros aprenderam a falar a voz do
poder.
Não eram eles que exigiam.
Éramos nós.
Porque o medo procura sempre uma
eternidade que o proteja.
Desde então,
o homem e a mulher
olham-se através de séculos
que ainda não terminaram.
Mas, por vezes,
uma criança estende a mão sem
perguntar quem deve ir primeiro.
Talvez
a história não avance quando
inventa novas máquinas.
Talvez avance
quando alguém deixa de precisar de
estar acima
para finalmente caminhar ao lado.
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