Há pessoas
que chegam de muito longe.
Não atravessam apenas oceanos.
Atravessam a linguagem.
A Carmen morava
do outro lado do mar.
Mas essa nunca foi
a verdadeira distância.
Escrevíamo-nos.
Quase sempre
em poesia.
Era a nossa maneira
de conversar.
Às vezes,
um poema
bastava.
Outras,
era o silêncio
que terminava o verso.
Nunca soube
ao certo
quem ensinava quem.
Ela dizia
que o Menino do Montijo
ainda escrevia
como quem descobre o mundo.
Eu sorria.
Sabia
que exagerava.
Mesmo assim,
continuava
a escrever.
Um dia
atravessou o oceano.
Sentámo-nos
à mesma mesa.
Foi estranho.
Como se nos conhecêssemos
há muito tempo.
Talvez porque algumas amizades
não começam
no encontro.
Começam
quando duas pessoas
descobrem
que falam
a mesma língua.
Hoje,
quando volto
a escrever,
há dias
em que ainda espero
que do outro lado
chegue um poema.
Depois lembro-me:
há pessoas
que não deixam
de responder.
Apenas mudam
o lugar
de onde escrevem.
(Poema dedicado a Carmen Fossari.)
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