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quarta-feira, 15 de julho de 2026

Carmen

Há pessoas

 

que chegam de muito longe.

 

Não atravessam apenas oceanos.

 

Atravessam a linguagem.

 

A Carmen morava

do outro lado do mar.

 

Mas essa nunca foi

a verdadeira distância.

 

Escrevíamo-nos.

 

Quase sempre

em poesia.

 

Era a nossa maneira

de conversar.

 

Às vezes,

um poema

bastava.

 

Outras,

era o silêncio

que terminava o verso.

 

Nunca soube

ao certo

 

quem ensinava quem.

 

Ela dizia

que o Menino do Montijo

ainda escrevia

como quem descobre o mundo.

 

Eu sorria.

 

Sabia

que exagerava.

 

Mesmo assim,

 

continuava

a escrever.

 

Um dia

 

atravessou o oceano.

 

Sentámo-nos

à mesma mesa.

 

Foi estranho.

 

Como se nos conhecêssemos

há muito tempo.

 

Talvez porque algumas amizades

 

não começam

no encontro.

 

Começam

quando duas pessoas

descobrem

 

que falam

a mesma língua.

 

Hoje,

 

quando volto

a escrever,

 

há dias

em que ainda espero

 

que do outro lado

 

chegue um poema.

 

Depois lembro-me:

 

há pessoas

 

que não deixam

de responder.

 

Apenas mudam

 

o lugar

 

de onde escrevem.



(Poema dedicado a Carmen Fossari.)

 

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