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quarta-feira, 15 de julho de 2026

O Senhor João

Há homens que entram numa sala

e ocupam o espaço.

 

O Senhor João não.

 

Chega devagar.

 

Como quem sabe

que o mundo já estava ali antes dele.

 

Escuta.

 

Não por timidez.

 

Por interesse.

 

As pessoas falam

e ele guarda.

 

Um nome.

 

Uma frase.

 

Uma tarde antiga.

 

Uma mão apertada no momento certo.

 

Tem esse hábito raro:

guardar pessoas.

 

Não como recordações.

 

Como presença.

 

Por isso ainda caminham com ele

uma senhora que jogava damas,

um encenador paciente,

uma criança que atravessava madrugadas,

e tantos outros

que nunca chegaram a partir inteiramente.

 

Às vezes parece dividido.

 

Uma parte dele gosta do palco,

da palavra dita em voz alta,

da luz sobre o rosto.

 

Outra procura o banco de jardim,

a sombra de uma árvore,

o lugar onde ninguém pergunta quem é.

 

Durante muito tempo

julgou que precisava de escolher.

 

Hoje já não tem tanta certeza.

 

Talvez uma vida

não seja a vitória de um lado sobre o outro.

 

Talvez seja apenas

a arte de os reconciliar.

 

Há nele uma melancolia tranquila.

 

Não nasce da perda.

 

Nasce do tempo.

 

Da consciência de que tudo passa

e de que, apesar disso,

algumas coisas permanecem.

 

Se o encontrasses na rua,

talvez não reparasses nele.

 

Mas senta-te ao seu lado.

 

Dá-lhe uma hora.

 

E acabarás a falar

de lugares que julgavas fechados,

de pessoas que não pronunciavas há anos,

de perguntas que nunca tiveste coragem de fazer.

 

Depois seguirás caminho.

 

E talvez leves contigo

a estranha sensação

 

de que foste escutado

 

por inteiro.

 

 

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