Há homens que entram numa sala
e ocupam o espaço.
O Senhor João não.
Chega devagar.
Como quem sabe
que o mundo já estava ali antes
dele.
Escuta.
Não por timidez.
Por interesse.
As pessoas falam
e ele guarda.
Um nome.
Uma frase.
Uma tarde antiga.
Uma mão apertada no momento certo.
Tem esse hábito raro:
guardar pessoas.
Não como recordações.
Como presença.
Por isso ainda caminham com ele
uma senhora que jogava damas,
um encenador paciente,
uma criança que atravessava
madrugadas,
e tantos outros
que nunca chegaram a partir
inteiramente.
Às vezes parece dividido.
Uma parte dele gosta do palco,
da palavra dita em voz alta,
da luz sobre o rosto.
Outra procura o banco de jardim,
a sombra de uma árvore,
o lugar onde ninguém pergunta quem
é.
Durante muito tempo
julgou que precisava de escolher.
Hoje já não tem tanta certeza.
Talvez uma vida
não seja a vitória de um lado sobre
o outro.
Talvez seja apenas
a arte de os reconciliar.
Há nele uma melancolia tranquila.
Não nasce da perda.
Nasce do tempo.
Da consciência de que tudo passa
e de que, apesar disso,
algumas coisas permanecem.
Se o encontrasses na rua,
talvez não reparasses nele.
Mas senta-te ao seu lado.
Dá-lhe uma hora.
E acabarás a falar
de lugares que julgavas fechados,
de pessoas que não pronunciavas há
anos,
de perguntas que nunca tiveste
coragem de fazer.
Depois seguirás caminho.
E talvez leves contigo
a estranha sensação
de que foste escutado
por inteiro.
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