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quinta-feira, 16 de julho de 2026

O Príncipe e o Poeta

Entrei numa livraria.

 

Um príncipe esperava-me há cinco séculos.

 

Peguei-lhe nas mãos.

 

Li-lhe o silêncio.

 

E voltei a pousá-lo.

 

Ainda não.

 

Talvez noutro dia.

 

Disseram-me que governar é conservar o reino.

 

Mas pensei:

 

quem veste uma coroa não deveria vestir também a alma do povo?

 

De que servem as muralhas intactas,

 

se, por dentro,

 

as consciências desabam?

 

Governar talvez seja

 

o mais solitário dos ofícios.

 

Escolher

 

quando nenhuma escolha permanece inteira.

 

Responder

 

por vidas que nunca caberão na própria vida.

 

Então alguém perguntou:

 

— Que espécie de homem te tornarias enquanto governasses?

 

Não soube responder.

 

Talvez porque algumas perguntas não procuram resposta.

 

Apenas uma vida.

 

Sorri.

 

E disse:

 

prefiro ser poeta.

 

Não porque os poetas sejam mais puros,

 

mas porque lhes é permitido continuar a perguntar

 

quando os príncipes

 

já não podem adiar a decisão.

 

Ainda acredito

 

que houve governantes que serviram antes de mandar,

 

que compreenderam

 

que nenhuma fronteira delimita a humanidade.

 

Mas sei também

 

que o poder pesa mais do que as mãos.

 

Por isso

 

fico.

 

Entre os livros.

 

À espera

 

de um verso

 

que governe

 

o pequeno reino

 

da consciência.

 

 

 

 

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