Entrei numa livraria.
Um príncipe esperava-me há cinco séculos.
Peguei-lhe nas mãos.
Li-lhe o silêncio.
E voltei a pousá-lo.
Ainda não.
Talvez noutro dia.
Disseram-me que governar é conservar o reino.
Mas pensei:
quem veste uma coroa não deveria vestir também a alma
do povo?
De que servem as muralhas intactas,
se, por dentro,
as consciências desabam?
Governar talvez seja
o mais solitário dos ofícios.
Escolher
quando nenhuma escolha permanece inteira.
Responder
por vidas que nunca caberão na própria vida.
Então alguém perguntou:
— Que espécie de homem te tornarias enquanto
governasses?
Não soube responder.
Talvez porque algumas perguntas não procuram resposta.
Apenas uma vida.
Sorri.
E disse:
prefiro ser poeta.
Não porque os poetas sejam mais puros,
mas porque lhes é permitido continuar a perguntar
quando os príncipes
já não podem adiar a decisão.
Ainda acredito
que houve governantes que serviram antes de mandar,
que compreenderam
que nenhuma fronteira delimita a humanidade.
Mas sei também
que o poder pesa mais do que as mãos.
Por isso
fico.
Entre os livros.
À espera
de um verso
que governe
o pequeno reino
da consciência.
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