A ironia protege o ego,
mas esteriliza o mundo.
Rir para não cair,
distancia-se para não arder.
Fica-se inteiro,
e nada nasce.
Arte
A ironia protege o ego,
mas esteriliza o mundo.
Rir para não cair,
distancia-se para não arder.
Fica-se inteiro,
e nada nasce.
O poder não se sustém sozinho;
aprende a falar pela boca
de quem o teme.
Não precisa de força a cada passo;
basta que alguém repita a ordem,
corrija o desvio,
e explique que não há escolha.
O opressor cresce
quando é citado,
defendido,
justificado em nome do real.
Há quem chame prudência,
maturidade,
sobrevivência,
e assim a força deixa de vir de cima
e passa a circular.
O dia mais seguro para o poder
não é o da repressão,
é o dia em que os oprimidos
passam a fazer o trabalho
uns dos outros.
Não foi o céu que caiu,
foi o acordo invisível
de que certas linhas não se cruzam.
Um homem é retirado do seu lugar
como se o lugar nunca tivesse existido,
e o mundo observa
em silêncio calibrado.
Chamam justiça,
correção,
necessidade.
Os nomes mudam
conforme a mão que escreve.
Mas algo se desloca mais fundo:
a ideia de limite,
a fronteira entre força e direito,
entre poder e lei.
Não é a queda de um só,
é o ensaio de um método.
Hoje ali, amanhã noutro corpo,
noutro país,
noutra desculpa bem formulada.
O perigo não está no estrondo,
está na normalização do gesto,
no aplauso cansado,
na indiferença treinada.
E enquanto uns celebram
e outros temem,
o mundo aprende,
não por palavras,
mas por exemplo.
Depois disto,
ninguém pode fingir
que não viu.