Não é preciso fogo;
mas houve um tempo
em que ele iluminava bibliotecas
enquanto as palavras gritavam em silêncio.
Rolos, códices, mapas do céu,
reduzidos a clarão
na noite satisfeita dos conquistadores.
Hoje é diferente;
a chama é fria.
Uma mão escreve
sobre outra escrita apagada,
raspa o pergaminho,
alisa a superfície
até que o passado pareça liso.
Chamam-lhe atualização,
revisão necessária,
maturidade histórica.
Mas a lâmina que raspa o texto
não apaga apenas tinta;
afina a memória
até caber num discurso.
Há sempre uma biblioteca a arder
quando um facto é dobrado
até servir,
e um códice rasgado
quando a complexidade incomoda.
E nós assistimos
com a serenidade dos bem-informados,
partilhando versões polidas
como se fossem originais.
O passado torna-se um palimpsesto dócil:
por baixo da nova caligrafia
ainda pulsa a antiga,
mas já ninguém a ensina a ler.
O perigo não é a mentira isolada.
É a mentira arquivada,
catalogada,
curricular.
É quando a fogueira
se transforma em método.
E o mais inquietante
não é a cinza;
é o silêncio limpo
onde ninguém sabe
que falta alguma coisa.
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