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terça-feira, 7 de abril de 2026

Manual para Queimar Memórias

Não é preciso fogo;

mas houve um tempo

em que ele iluminava bibliotecas

enquanto as palavras gritavam em silêncio.

 

Rolos, códices, mapas do céu,

reduzidos a clarão

na noite satisfeita dos conquistadores.

 

Hoje é diferente;

a chama é fria.

 

Uma mão escreve

sobre outra escrita apagada,

raspa o pergaminho,

alisa a superfície

até que o passado pareça liso.

 

Chamam-lhe atualização,

revisão necessária,

maturidade histórica.

 

Mas a lâmina que raspa o texto

não apaga apenas tinta;

afina a memória

até caber num discurso.

 

Há sempre uma biblioteca a arder

quando um facto é dobrado

até servir,

e um códice rasgado

quando a complexidade incomoda.

 

E nós assistimos

com a serenidade dos bem-informados,

partilhando versões polidas

como se fossem originais.

 

O passado torna-se um palimpsesto dócil:

por baixo da nova caligrafia

ainda pulsa a antiga,

mas já ninguém a ensina a ler.

 

O perigo não é a mentira isolada.

É a mentira arquivada,

catalogada,

curricular.

É quando a fogueira

se transforma em método.

 

E o mais inquietante

não é a cinza;

é o silêncio limpo

onde ninguém sabe

que falta alguma coisa.

 

 

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