Vi uma criança
com as mãos em concha
a tentar beber o mundo.
E o mundo
tinha pólvora na garganta.
Senti o fogo antigo,
a indignação justa,
esse aço que protege o inocente.
Mas logo atrás
vinha outra chama,
mais escura,
à procura de um rosto para odiar,
de um nome para culpar,
como se isso fechasse feridas.
Disseram-me:
há culpados.
Há.
Disseram-me:
há inocentes.
Também.
Mas entre o dedo que dispara
e o corpo que cai
há histórias que não cabem
numa frase talhada em pedra.
Se eu sentir pena do culpado,
estarei a trair a criança?
Ou estarei apenas
a reconhecer
que a mão que mata
é feita da mesma carne
que aprende a chorar?
A justiça pede firmeza,
a dor pede vingança,
e a consciência pede o mais difícil:
olhar sem cegar,
condenar sem desumanizar,
proteger sem nos tornarmos
aquilo que combatemos.
Todos somos humanos,
dizem.
Mas que humanidade é esta
que aceita viver
entre o grito
e a lucidez?
Se eu partilhar a imagem,
acordo consciências
ou multiplico o horror?
Se me calar,
sou cúmplice
ou guardião de um silêncio necessário?
No fim, resta isto:
uma criança que queria água,
um adulto que escolheu disparar,
e eu,
longe,
a vigiar a minha própria sombra
para que a revolta
não me desfigure por dentro.
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