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terça-feira, 7 de abril de 2026

Consciência

Vi uma criança

com as mãos em concha

a tentar beber o mundo.

 

E o mundo

tinha pólvora na garganta.

 

Senti o fogo antigo,

a indignação justa,

esse aço que protege o inocente.

 

Mas logo atrás

vinha outra chama,

mais escura,

à procura de um rosto para odiar,

de um nome para culpar,

como se isso fechasse feridas.

 

Disseram-me:

há culpados.

 

Há.

 

Disseram-me:

há inocentes.

 

Também.

 

Mas entre o dedo que dispara

e o corpo que cai

há histórias que não cabem

numa frase talhada em pedra.

 

Se eu sentir pena do culpado,

estarei a trair a criança?

 

Ou estarei apenas

a reconhecer

que a mão que mata

é feita da mesma carne

que aprende a chorar?

 

A justiça pede firmeza,

a dor pede vingança,

e a consciência pede o mais difícil:

 

olhar sem cegar,

condenar sem desumanizar,

proteger sem nos tornarmos

aquilo que combatemos.

 

Todos somos humanos,

dizem.

 

Mas que humanidade é esta

que aceita viver

entre o grito

e a lucidez?

 

Se eu partilhar a imagem,

acordo consciências

ou multiplico o horror?

 

Se me calar,

sou cúmplice

ou guardião de um silêncio necessário?

 

No fim, resta isto:

uma criança que queria água,

um adulto que escolheu disparar,

e eu,

longe,

a vigiar a minha própria sombra

para que a revolta

não me desfigure por dentro.

 

 


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