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segunda-feira, 2 de março de 2026

Dizer

Disseram:

é assim que se fala aqui, 

e de repente algumas palavras

ficaram feias,

outras seguras,

e outras desapareceram

sem aviso.

 

Quem falava torto

aprendeu a endireitar a frase

antes de acabar a frase.

 

Ninguém proibiu nada;

apenas sorriram

quando a palavra certa foi dita.

 

Com o tempo,

até o silêncio ganhou forma:

calava-se nos lugares adequados.

 

As frases passaram a vir prontas,

bem passadas,

sem arestas.

 

E quem ainda tropeça

num dizer fora do contorno

não é acusado,

é corrigido, com cuidado,

como quem limpa uma mancha pequena.

 

O poder não grita,

ensina

 

 

 

 

Medo

Há quem levante a voz

para que a sala não repare

no tremor das mãos.

 

E construa ameaças

como quem ergue muralhas:

não para impedir o outro,

mas para não ter de olhar

para fora.

 

Quem governa pelo medo

dorme leve,

ouve passos onde não há chão,

confundindo silêncio

com conspiração.

 

A ordem precisa ser repetida,

o castigo lembrado,

o controlo renovado

como feitiço frágil.

 

Não é força o que sustém isso,

é vigília,

nem poder,

é cansaço organizado.

 

Enquanto isso,

o medo circula,

muda de corpo,

não de dono.

 

E a paz, essa,

fica sempre do lado de fora,

sentada num banco simples,

à espera de quem já não precise

do medo

para existir.

 

 

Brinquedo

No fundo da gaveta

há um carrinho sem rodas:

não anda,

não serve,

não explica nada.

 

Ficou ali

quando a casa mudou de mãos,

quando os adultos decidiram

o que valia a pena levar.

 

A engrenagem

passou por cima

com caixas bem marcadas:

datas, destinos.

 

O carrinho ficou

porque não cabia em nenhum plano.

 

Mas nele ainda resta

o movimento repetido,

o chão imaginado,

uma tarde inteira

que nunca virou história.

 

A memória não avança;

se detém,

e às vezes é num objeto inútil

que o passado

recusa desaparecer.

 

 

Corpos

Chamaram-lhe corpo,
antes de o deixarem sentir,
e disseram-lhe onde parar,
como desejar,
quando calar,
e chamaram a isso verdade.

O sexo não foi silenciado;
foi examinado,
medido,
classificado
como quem fecha processos
para não ouvir o que treme.

Cada inflexão ganhou nome,
cada desvio um diagnóstico,
cada prazer uma explicação
que o afastava de si.

Não proibiram dizer;
pediram que dissesse tudo,
mas na língua certa,
no consultório,
no formulário,
sob a luz que observa
sem tocar.

O corpo aprendeu a vigiar-se,
a confessar-se antes de pecar,
a desejar com culpa
e culpa com método.

E no entanto,
há sempre algo que escapa:
um arrepio sem discurso,
um silêncio que não se deixa traduzir,
uma intimidade que não pede autorização.

A história escreve-se sobre a pele,
mas a pele
nunca é só história.

 


Tirania

Não nasceu do excesso,

mas da memória da ferida.

 

Foram muitos os que obedeceram,

aprenderam a baixar os olhos

e a caber no molde

para não desaparecer.

 

Quando o número cresceu,

chamaram-lhe força;

razão.

 

O que antes doía

passou a ser regra;

o medo antigo vestiu

a roupa da lei.

 

Ninguém quis dominar;

apenas não voltar a ser esmagado.

 

Mas a mão que protege aperta,

e o consenso que consola

abafa.

 

A maioria

não percebe o instante exato

em que deixa de se defender

e começa a repetir aquilo

que a feriu.

 

A tirania muda de voz,

não de hábito.

 

E o mais difícil

não é resistir ao opressor,

mas reconhecer-se

no espelho

quando se vence.

 

 

Má-fé

Não foi falta de escolha,

foi fingir que já não havia.

 

Disse-se:

é assim; o trabalho, a vida,

como se as mãos

se movessem sozinhas.

 

A liberdade ficou de lado,

não por ausência,

mas por medo do peso.

 

Escolher cansa;

cansa muito.

Assumir custa.

Então representa-se

um papel já escrito.

 

A má-fé não é mentira

dita aos outros;

é silêncio consigo,

olhar para o espelho

e desviar os olhos.

 

E no entanto,

basta um gesto

não previsto,

uma recusa pequena,

para que tudo abale.

 

Porque a verdade insiste:

ninguém nos vive por nós.

 

 

(Poema inspirado no conceito de “má-fé” desenvolvido por Jean-Paul Sartre, explorando em linguagem poética a recusa da liberdade e da responsabilidade individual.)

 

 

 

 

 

 

Desespero

Não é grito,

é afastamento;

é não querer ser o que se é,

nem poder deixar de ser.

 

O desespero não cai;

fecha-se,

constrói-se

numa casa sem janelas

para não ver possibilidades.

 

Não dói por excesso,

mas por falta:

a falta de relação consigo.

 

Quem desespera ainda vive,

mas fora de si,

à espera de um regresso

que não sabe pedir.

 

 

 

Angústia

Não é o medo que aperta,

mas um espaço aberto.

 

Nada cai,

mas tudo pode cair.

 

A angústia não empurra;

chama,

e mostra o abismo

não para que saltes,

mas para que saibas

que és tu quem está de pé.

 

Dói porque és livre

e não estás ausente.

 

Quem sente

ainda não se perdeu;

apenas acordou

para o peso de existir.

 

Aquele-Que-Fica

Não é nome para chamar,

mas para ser reconhecido.

 

Fica quando o mundo corre,

o discurso empurra

e a dor pede pressa.

 

Fica ao lado do que dói

sem tocar,

ao lado do tempo

sem o forçar.

 

Aquele-Que-Fica

escuta antes de responder,

pensa antes de agir,

e quando fala

não ocupa;

abre.

 

É nome

de quem não se confunde

com o ruído,

nem com o medo,

nem com a urgência dos outros.

 

Não brilha;

permanece.