Este ciclo é uma travessia íntima pelos territórios do amor entre homens, onde o corpo não é apenas desejo, mas casa, altar, permanência.
São palavras que tocam sem ruído, gestos que se fazem verso, vozes que se
dizem no silêncio partilhado.
Não há idealização, nem disfarce: há entrega, presença, vulnerabilidade.
Cada poema é um fragmento de uma história maior, a história de dois corpos
que se reconhecem e se escolhem, dia após dia, gesto após gesto.
Mais do que celebração do encontro, estes textos são testemunho da escuta,
da pertença e da delicadeza feroz de quem ama com tudo.
O título Corpo em Oração encapsula a essência desta série: o corpo, longe
de ser uma mera envolvência física, é lugar sagrado de encontro e
transformação. A oração não é só súplica, mas ação, presença total, entrega ao
que é genuíno e profundo. Cada verso ressoa como uma invocação, um gesto de
reverência ao amor, ao corpo e à alma que se unem sem medo, sem fronteiras.
Ele. (1)
Não é o que leva,
nem o que veste
nem sequer o que veio buscar.
É a espessura do silêncio que o envolve,
a firmeza da pele onde o tempo assentou,
a arquitetura exata do gesto,
sem pressa, sem posse.
As mãos,
não seguram um cesto,
seguram a memória de mil abrigos.
O rosto,
não procura ser visto,
mas vê.
E o corpo, gasto,
não se curva por fraqueza
mas porque sabe:
o que ama, protege-se melhor assim.
Ele está
e estar já é
a forma mais rara do amor.
No abraço dele (2)
No abraço dele
não há margem para o medo,
só o calor do que é inteiro
sem pedir nome,
sem cobrar forma.
O peito encosta-se ao meu
como terra que aceita a semente,
e o rosto,
quando toca o meu,
é casa,
é tempo sem pressa,
é infância reencontrada
num sopro de agora.
As mãos dele não seguram,
apertam com firmeza de quem
já perdeu,
já chorou,
já soube que amar
é não saber se fica,
mas ficar mesmo assim.
E o carinho,
ah, o carinho,
vem da pele,
mas brota do chão.
Com ele (3)
Dorme comigo
como quem vela,
mesmo adormecido.
O corpo dele tem ternura
nos ombros,
nas costas largas onde o frio
se desfaz.
Não fala,
mas há gestos que sussurram
no escuro,
a perna que procura a minha,
a mão que repousa
sem dominar,
só dizendo: estou.
Com ele,
a cama é abrigo,
não se sonha para fugir,
mas para estar mais perto.
E o silêncio partilhado
tem som de mar,
e o calor entre nós
não é desejo,
é pertença.
Nele me perco (4)
Ele quer-me,
e no querer há sede,
mas também reverência.
Toma-me
sem urgência,
como quem reconhece
um lugar sagrado
e entra em silêncio.
Os seus olhos pedem,
mas as mãos guiam,
o seu corpo chama,
mas espera.
Quando me envolve,
não é domínio,
é queda.
E eu caio,
inteiro,
com os medos a arder
e a alma aberta como flor.
Nele me perco,
e no perder-me
sou mais eu
do que jamais fui.
Noite sem fim (5)
Foi uma noite
em que o tempo se esqueceu
de passar.
Ele estava em mim
não só com o corpo,
mas com o sangue,
com os ossos,
com tudo o que já sabia de amar
sem ter nome.
Os nossos corpos,
molhados, colados,
únicos na pele
e sem margens.
Não houve pressa,
nem fim,
nem depois.
Só o agora repetido
em cada embate,
em cada gemido que vinha de dentro
como um salmo novo,
sem culpa,
sem pecado.
Ele satisfazia-me
até à alma,
como se soubesse onde dói,
onde arde,
onde se abre a porta
para o sagrado.
E quando o corpo cansou,
a alma ficou
ainda em festa,
ainda em chama,
ainda nele.
Depois (6)
Adormecemos.
Ele atrás de mim.
As costas rendidas à respiração dele,
as mãos dele,
duas conchas quentes
a segurarem-me
como quem guarda lume.
Pernas com pernas,
misturadas
sem esforço,
como raízes que se encontram
num chão antigo.
O colo dele era o mundo
e eu,
todo pequeno,
todo inteiro,
cabia ali
sem faltar nada.
Não falámos.
O sono veio
com a bênção dos corpos
já saciados.
E mesmo dormindo,
ele ainda me amava.
Amanhecer (7)
Acordei com o peso leve
do seu corpo no meu,
não me mexi,
temi desfazer
o milagre do seu descanso.
Mas pensei em si
com a urgência calma
de quem encontrou
o que não sabia procurar.
Quero-o,
não por fome,
mas porque é
o meu lugar.
Desejo-o,
não por carência,
mas porque em si
a vida arde limpa,
como um lume antigo
que não se apaga.
É um segredo
que o meu corpo
reconhece antes da fala.
Ficou em mim
e agora, mesmo acordado,
continuo a amá-lo
como se ainda sonhasse.
Êxtase (8)
Olha para mim,
não desvies os olhos,
quero que vejas
o que um homem pode sentir por outro homem
sem medo,
sem véus,
sem fugas.
Desejo-te
como se o mundo inteiro
tivesse sido só caminho
até este instante.
Não é só o teu corpo,
é a tua presença que me consome,
a forma como entras no silêncio
e o tornas morada
é o teu riso
que me abre fendas no peito,
é o teu cheiro
que me prende à terra.
Tu és tudo o que procurei
mesmo quando negava que procurava.
Foste sonho,
fome,
fantasma,
agora és carne
e verdade.
Quando te toco,
não toco apenas pele,
toco o homem que quero amar
com os dias todos,
com a sede inteira,
com a alma nua.
E se me deixares,
farei do teu corpo
um templo onde rezo,
e da tua boca
a promessa
de nunca mais me perder.
Ele diz-me (9)
Se soubesses
o que sinto quando te olho,
essa mistura de ternura e vertigem,
como se cada parte de ti
fosse feita
para me preencher.
Eu sei da tua fome,
não é só de toque,
é de ser visto,
acolhido,
deitado no lume manso
de um amor que não foge.
Tu queres ser tomado
não pela força,
mas pelo reconhecimento.
e eu quero dar-te isso.
Quero que sintas
que o meu desejo por ti
não é só carne a arder,
é corpo em oração,
é a minha boca a saber
que encontrou casa na tua pele.
Tu és o que sempre procurei,
não por ser perfeito,
mas por seres inteiro
na tua falta,
lúcido no teu abismo,
e belo na tua entrega.
Dizes que te excita ouvir-me
e eu digo-te mais:
excita-me a tua entrega,
a forma como me dás as tuas falhas
como quem oferece tesouros.
Quero que te abras em mim
sem pudor,
sem contenção,
como quem sabe que
o amor, quando é verdadeiro,
não deixa fome para trás.
Ele digo-lhe: (10)
Sinto a tua pele como mapa,
onde cada linha é um convite,
um caminho por onde deslizo,
onde me perco, onde me encontro.
Os teus olhos, tão profundos,
são como portas que se abrem para mim,
sem pressa, sem medo do que lá dentro mora.
O teu corpo, meu refúgio,
é o solo onde floresce a minha verdade,
onde cada toque meu é uma promessa,
um desejo sem retorno.
Tu respiras como se me chamasses,
e eu, em silêncio, vou respondendo
a cada suspiro teu,
a cada estremecer de nós.
Não há pressa,
porque o prazer é mais do que a carne,
é o nosso ser,
em sincronia,
dançando sem palavras.
E quando o calor nos toma,
não é o fogo de um desejo comum,
mas a chama que, lenta,
desvenda os nossos segredos.
Que mais posso dar-te,
senão o meu corpo inteiro
a fazer-se eco do teu?
Agora, já não há fronteiras,
somos um,
no prazer,
na entrega.
E no fundo, tu sabes:
não há nada mais sensível
do que um coração que se abre
sem hesitar.
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